Carlo Ancelotti pode ser acusado de muitas coisas, mas não de falta de boa vontade com Neymar. Desde que assumiu o comando da seleção brasileira, o treinador italiano deixou claro que gostaria de contar com o camisa 10. Mais do que isso: fez questão de afirmar publicamente que precisava de Neymar. Mas colocou uma condição simples e, ao mesmo tempo, inegociável: que o jogador estivesse preparado.
Ancelotti nunca exigiu um Neymar “100%”, porque todos sabem que isso já não existe mais no futebol moderno para jogadores da idade dele. Nem Lionel Messi é mais 100%. Nem Cristiano Ronaldo. A passagem do tempo impõe limites até aos maiores craques. O que o técnico pediu foi algo bem mais razoável: um Neymar em condições físicas suficientes para enfrentar o que é uma Copa do Mundo — um torneio curto, brutal, de jogos decisivos e intensidade máxima. Não existe espaço para atletas meia-boca.
Durante semanas, Ancelotti assistiu a uma romaria pública de pedidos para que Neymar voltasse à seleção. Ex-jogadores, comentaristas, jornalistas e até cantores, especialmente durante o carnaval, fizeram apelos para que o treinador chamasse o atacante do Santos. O italiano, fiel ao seu estilo discreto, preferiu observar em silêncio.
E Neymar começou a dar sinais de vida.
Nas últimas partidas pelo Santos, mostrou lampejos de seu talento. Fez gols, participou do jogo e, contra o Vasco, teve atuação decisiva. Aquela exibição certamente chamou a atenção de Ancelotti. Tanto que Neymar apareceu, pela primeira vez, na pré-lista da seleção sob o comando do italiano.
Não foi só isso.
A CBF chegou a comprar passagem para que Ancelotti viajasse ao interior de São Paulo nesta terça-feira, dia 10, para assistir ao jogo entre Mirassol e Santos pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro. O objetivo era claro: observar Neymar de perto e avaliar se ele estaria realmente pronto para a última convocação antes da Copa do Mundo.
Mas o roteiro mudou de forma abrupta.
No mesmo dia em que entrou na pré-lista da seleção, Neymar foi poupado pelo Santos. O clube decidiu não relacionar o jogador para o jogo contra o Mirassol alegando desgaste muscular e risco de lesão.
O detalhe que agravou a situação foi outro: o Santos não foi consultado pela CBF sobre a viagem de Ancelotti. Nos bastidores, a avaliação é de que houve uma falha de comunicação. Ainda assim, o treinador italiano decidiu manter a viagem, para evitar a impressão de que iria ao estádio apenas para ver Neymar — embora esse fosse, na prática, o principal motivo.
O episódio acaba transmitindo uma mensagem que Ancelotti certamente não gostaria de receber a poucos meses de uma Copa do Mundo.
A de que Neymar ainda não conseguiu atingir o nível físico necessário para disputar uma competição do tamanho de um Mundial.
E, num torneio em que cada vaga vale ouro, talvez essa seja uma dúvida grande demais para levar na bagagem.