Quem acordou cedo na sexta-feira para assistir a Brasil e Austrália só não ficou traumatizado porque certas coisas, de tão repetidas, acabam perigosamente normalizadas. A Seleção Brasileira joga mal há tanto tempo que o sofrimento já não surpreende. O que antes provocava indignação agora provoca bocejo.
E talvez esteja aí o maior problema.
O Brasil empatou por 1 a 1 com a Austrália, em Townsville, arrancando o resultado aos 50 minutos do segundo tempo, com um gol de Rayan. Foi preciso chegar aos acréscimos para evitar uma derrota que seria histórica para os australianos e mais um capítulo constrangedor para uma seleção que ainda carrega cinco estrelas na camisa, mas há muito deixou de carregar cinco estrelas no futebol.
Nesta terça-feira, às 7 horas da manhã, tem de novo. Austrália e Brasil, agora em Brisbane.
Para o torcedor brasileiro, quase um teste de resistência.
Será preciso atender novamente ao chamamento da televisão, colocar o despertador para tocar cedo e acreditar que, quatro dias depois, alguma coisa terá mudado. É pedir muito para quem viu o que aconteceu na sexta-feira.
Carlo Ancelotti está tentando reconstruir a Seleção depois de mais uma Copa do Mundo decepcionante. Reconstruir é necessário. O problema é que nenhuma obra fica de pé apenas com a fama do engenheiro. É preciso ter material de qualidade.
E é justamente aí que começam as dúvidas.
O Brasil está renovando nomes, procurando alternativas, deixando para trás jogadores que durante anos foram referências. Isso faz parte de qualquer mudança de ciclo. Mas renovação, por si só, não significa evolução.
A imprensa internacional percebeu.
O espanhol Mundo Deportivo escreveu que o Brasil não conseguiu dissipar as dúvidas deixadas pela última Copa e destacou que Rayan evitou, aos 50 minutos, o que seria um vexame em Queensland. Outros veículos europeus seguiram pelo mesmo caminho: estranharam pouco a Austrália ter jogado de igual para igual com o Brasil.
Talvez esse seja outro sinal preocupante.
Já houve um tempo em que empatar com o Brasil era façanha comemorada durante anos. Hoje, determinadas seleções entram em campo acreditando que podem ganhar. E podem mesmo.
O Brasil deixou de ser aquele Brasil que fazia o adversário perder um pouco do jogo antes mesmo de a bola rolar. Perdeu o encantamento, a autoridade e, principalmente, a capacidade de fazer seu próprio torcedor esperar alguma coisa extraordinária.
Nesta terça-feira haverá outra oportunidade.
O despertador tocará às 7 da manhã. A Globo chamará. A camisa amarela estará em campo. Ancelotti estará no banco.
Resta saber se o futebol brasileiro também vai acordar.
Porque, ultimamente, quem tem acordado cedo é apenas o torcedor.
