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Envelhecer é uma arte
Envelhecer é uma arte

Viver 120 anos: rigidez comportamental e convivência entre gerações

Como preparar mente, relações e expectativas para uma vida cada vez mais longa em famílias onde diferentes gerações aprendem a dividir o mesmo tempo e o mesmo espaço

Juliana Gai

13/01/2026 15h06

convivência entre gerações

Foto: Freepik

Mais um texto da série Viver 120 anos. Gosto muito de retomar este tema porque realmente estamos cada vez mais próximos dessa vida longuíssima, na qual precisaremos enfrentar diversos desafios, conviver com muitas gerações mais jovens do que a nossa quando estivermos lá pelos 80 anos, o que já é comum hoje em dia, e precisaremos estar em sociedade, vivos, atuantes, participantes do nosso próprio destino.

Até fiz um curso recente que me habilitou a aplicar uma técnica desenvolvida na Inglaterra chamada CST (Cognitive Stimulation Therapy), conhecida como Terapia de Estimulação Cognitiva aqui no Brasil. Esta é a única terapia não medicamentosa reconhecida cientificamente na prevenção e no tratamento da Doença de Alzheimer e de outros déficits cognitivos, validada em vários países e com publicação robusta sobre resultados. E eu fui terminar este treinamento justamente pensando que iremos todos viver cada vez mais e que precisamos, e muito, cuidar das nossas mentes e da nossa capacidade cognitiva para, assim, continuarmos sendo autônomos, senhores das nossas próprias escolhas e com capacidade de nos manter em sociedade, sendo flexíveis tanto no meio familiar quanto laboral e social. Estou ansiosa para aplicar e aguardando a reinauguração do meu consultório, no Liberty Mall, em breve.

Mas por que estou falando tudo isso? Porque há uma cena silenciosa que se repete nos lares brasileiros, uma espécie de coreografia cotidiana improvisada. Em torno de uma mesma mesa convivem várias gerações, como mencionei acima, e isto é cada vez mais corriqueiro: avós, pais, filhos e, às vezes, bisavós também. A casa deixa de ser apenas abrigo para se transformar em palco. Palco de ritmos diferentes, passos nem sempre sincronizados, memórias que se chocam ou que se abraçam, e uma pergunta que ecoa entre as paredes: como conviver quando cada geração aprendeu a viver de um jeito tão distinto? Como manter-se neste meio sem tanto conflito? Sem tanto desgaste emocional. Sem ter que ficar se explicando o tempo todo sobre como era antigamente ou sobre como tudo funciona hoje em dia.

Nas últimas décadas, a convivência intergeracional voltou a ganhar espaço, seja pela longevidade crescente, seja pelas necessidades práticas de cuidado, afeto e economia. Os filhos saem mais tarde de casa, inclusive. E, às vezes, até ficam mesmo já tendo seus próprios filhos, enquanto se organizam financeiramente. E fica todo mundo “junto e misturado”, como se diz popularmente por aí.

Viver até os 120 anos, como gosto de dizer, deixou de ser sonho distante e passou a ser horizonte possível. Mas viver muito não significa apenas somar números no calendário. Exige adaptar comportamentos, valores e expectativas. Exige cuidar-se para manter boa capacidade de interação e participação, senão a vida vai perdendo o sentido e a pessoa idosa vai ficando lá, no cantinho da casa e, às vezes, nem escuta um bom dia ou boa tarde da família. E não é porque a família é má. É porque o estilo de vida mudou, todos têm muitos compromissos, e até as crianças precisam se virar sozinhas muito mais hoje em dia do que quando tínhamos nossas mães em casa fazendo nosso lanche da tarde e trazendo numa bandejinha leite com Nescau gelado, biscoitos e maçãs ou bananas para as crianças brincando no quintal em grupo. Todos, na verdade, estão mais solitários e, portanto, conviver pessoalmente exige mais esforço. E isto é importante de sabermos antes de ficarmos muito idosos, para que possamos nos preparar para uma vida intergeracional harmônica, tanto em casa quanto no trabalho, já que muitas empresas têm adotado o modelo de estimular colaboradores de várias gerações a conviverem e criarem juntos, o que é fantástico e abre portas para os 50+.

Cada geração carrega consigo uma “gramática emocional” própria. O que para uma é regra, para outra é exagero. O que para uma é respeito, para outra é rigidez. O que para uma é cuidado, para outra é invasão.

A geração dos 80+: ordem, sacrifício e silêncio

As pessoas idosas muito longevas, aquelas que hoje têm 80, 90, 100 anos, cresceram em um Brasil duro, disciplinado, marcado por escassez e hierarquias claras. Para elas, as coisas são o que são. A vida deve ser encarada de frente, sem muita lamúria. O provérbio “engolir o choro” era conselho e método.

Vivem, muitas vezes, dentro de uma rigidez comportamental que não é defeito. É defesa. É o mecanismo aprendido para sobreviver num mundo que oferecia pouco e cobrava muito.

Essa rigidez aparece na rotina: horário de comer, de dormir, de limpar a casa, de guardar as coisas. Aparece na moral: casamento é definitivo, roupa de casa não é roupa de rua, visita não entra na cozinha. Aparece na fala: conversas curtas, diretas, às vezes secas.

E aparece também na forma de amar: um amor que, muitas vezes, não se diz, mas se demonstra servindo o melhor pedaço, guardando a toalha boa, levantando antes do sol para não dar trabalho.

A geração dos 50–70: ponte entre dois mundos

Os atuais adultos maduros, entre 50 e 70 anos, costumam ocupar o lugar mais cansativo e mais bonito dessa equação: o meio da ponte.

São, muitas vezes, filhos de pais rígidos e pais de filhos flexíveis. Tentam conciliar expectativas opostas, traduzir linguagens emocionais que não se conversam, apagar incêndios invisíveis entre duas margens que ainda precisam se enxergar.

Essa geração aprendeu o valor do diploma, da estabilidade e do esforço contínuo, mas também viveu a abertura democrática, a entrada da mulher no mercado e a expansão das individualidades. Quer ordem, mas busca prazer. Ama cuidar, mas deseja autonomia. Sofre por achar que está sempre faltando em algum lugar.

São os adultos que, hoje, ajudam os pais idosos e, ao mesmo tempo, os filhos adolescentes. Administram a casa, o trabalho, a escola, o médico, as contas. Tentam manter tudo funcionando, às vezes à custa da própria saúde emocional.

A geração dos 20–40: liberdade, identidade e fluidez

Os mais jovens carregam a bandeira da autenticidade. São da era da internet, da mobilidade, da reinvenção constante. Falam abertamente de sentimentos, defendem limites e lutam por direitos.

Para eles, amar exige diálogo. Respeito exige espaço. Convivência exige flexibilidade.

São menos tolerantes com “rigididades”, especialmente aquelas que parecem vir “só porque sim”. Para essa geração, regras precisam fazer sentido. Autoridade precisa ser conquistada, não imposta. E, ao contrário das gerações anteriores, que tinham medo de “dar trabalho”, essa geração quer justamente não adoecer de silêncio, não ser esmagada por expectativas familiares, não carregar fardos emocionais herdados.

São os que pedem ajuda. Buscam profissionais. Falam sobre o que sentem e vivem constantemente tentando compreender a forma como foram, e se foram, amados de verdade pelos pais.

Adolescentes e crianças

Ah, estes são, ao mesmo tempo, admiráveis e irritantes. São descolados, não têm vergonha de depender dos outros e, às vezes, são até descuidados com suas coisas e com as coisas dos outros. São uma geração acostumada com fartura. Minha avó contava que, quando se ia ao supermercado na época em que era jovem, as prateleiras eram poucas e a variedade era mínima, fazendo com que consumissem, como opção, produtos cultivados no próprio quintal: temperos, chás, folhas verdes, tomates, cenouras e várias outras hortaliças. Ainda trocavam estes itens com os vizinhos, e era o jeito de todos terem mais opções para comer. Minha avó faleceu com 95 anos.

Hoje levamos crianças e adolescentes a shoppings lotados de lojas, cores e sabores, e a supermercados com tantas opções que você sai de casa com uma lista programada e volta com o dobro de compras.

Eles são de um mundo de fartura. E não compreendem quando alguém mais vivido reclama porque um deles deixa cair o celular no chão e quebra a tela. Para eles, basta ir na Feira do Paraguai e trocar a tela, ou então pedir outro celular para os pais.

Eu sei, nós, os pais modernos, somos constantemente criticados pelos nossos próprios pais no quesito educação e excesso de tolerância. Eles acham que somos “moles demais” e que essas crianças não vão ser “nada na vida” desse jeito. O que não é verdade. Testemunhamos uma sociedade cada vez mais civilizada e lutando por democracia, direitos iguais e amor. Nós só temos outra forma de educar. Não batemos nem castigamos gravemente. Conversamos muito mais do que nossos pais conversaram conosco. E, se vamos instaurar determinado “castigo”, precisamos explicar por que estamos fazendo isso, pois eles questionam, e muito.

Eu acho maravilhoso termos filhos questionadores. O mundo só evolui se alguém discorda, se alguém deseja saber o porquê de determinado ato.

Descontando as questões de desigualdade social, que interferem com todas as gerações e, infelizmente, são gritantes no Brasil, a maioria das pessoas jovens fala outras línguas, tem acesso fácil à informação e, até mesmo, corre perigo de ser levada a acreditar em “fake news”, porque são tão seguros de si que não aprenderam a desconfiar das coisas. E, neste ponto, eu dou toda a razão para os avós críticos. A gente precisa, o tempo todo, ensiná-los a desconfiar e a ir mais devagar antes de tomar decisões.

Quando essas gerações convivem na mesma casa…

Não é simples.

É uma convivência marcada por ruídos invisíveis, treinamentos diferentes e histórias que por vezes colidem. É a avó que reclama da neta passar tempo demais no celular. É o pai que tenta explicar que acompanhar o grupo da escola é importante. É o adolescente que questiona por que não pode comer no quarto. É a mãe que tenta mediar, sem conseguir explicar que tudo aquilo é também produto da época em que foi criada.

Na convivência intergeracional, há dois grandes desafios: a rigidez dos mais velhos, evidente nos costumes, nas regras, no modo como encaram a vida; e a fluidez dos mais jovens, que enxergam o mundo como campo de possibilidades. E, entre rigidez e fluidez, formam-se tensões. Mas também oportunidades.

A rigidez comportamental como sintoma do envelhecimento

Do ponto de vista da Gerontologia, a rigidez não é apenas traço de personalidade. É também expressão das mudanças cerebrais do envelhecimento. A capacidade de flexibilizar, alternar tarefas, mudar rotas e adotar novas perspectivas tende a diminuir gradualmente com a idade.

Isso significa que não é teimosia. É neurociência. Não é má vontade. É uma forma de autopreservação.

Quando o mundo muda rápido demais, agarrar-se ao que é conhecido dá segurança. Aquela toalha dobrada do mesmo jeito há 40 anos. A cadeira que sempre fica ali. O copo que não pode ser trocado.

Essa organização não é mania. É porto seguro.

E como convivemos com isso?

Com afeto. Com paciência. Com tradução.

Envelhecer com dignidade exige que deixemos espaço para a lentidão, para o costume, para o ritual, para a aceitação da passagem do tempo. Mas viver com os mais jovens exige aceitar o novo, o digital, o diferente. Exige abrir mão de algumas certezas, ou pelo menos da rigidez com que as carregamos. E isso pode ser muito bom. Podemos aprender, talvez, a não levarmos tanto a sério assim os desafios da vida e sermos mais leves.

Quando essas gerações se encontram, temos algo precioso: uma casa que é, ao mesmo tempo, museu e laboratório.

Museu, porque ali repousam memórias de décadas, objetos que contam histórias e rituais que sobreviveram aos anos.

Laboratório, porque ali se experimentam novas formas de viver, negociar, reinterpretar hábitos e construir respeito mútuo.

O segredo não é vencer a rigidez. É acolhê-la.

A convivência melhora quando entendemos que idosos não mudam de ritmo porque foram teimosos, mas porque o cérebro já prefere caminhos conhecidos, com os quais já se acostumaram e sempre acreditaram. Jovens não são desrespeitosos, mas têm outra forma de compreender autoridade. Adultos do meio não são dramáticos, estão apenas carregando duas demandas gigantescas ao mesmo tempo.

Quando começamos a ver o comportamento do outro pela lente da biografia, tudo se ajeita.

A paciência aumenta.
A crítica diminui.
O amor se torna possível.

A casa que deseja viver 120 anos precisa de três coisas:

Ritmos compatíveis: não se trata de igualar ritmos, mas de coordená-los. Respeitar o tempo do idoso, mas permitir o tempo do jovem.
Acordos claros: famílias que funcionam são famílias que conversam. Não basta amar, é preciso combinar como amar.
Espaços de respiro: cada geração precisa de um canto que seja só seu. Autonomia preservada reduz conflitos.

No fim, convivemos não para sobreviver, mas para pertencer. E pertencer é uma das maiores necessidades humanas.

Para viver 120 anos, precisamos de laços, de vínculos, de histórias compartilhadas. Precisamos de alguém que saiba a senha do Wi-Fi e alguém que saiba pregar um botão ou tirar uma mancha da roupa. Precisamos da playlist do adolescente e da memória afetiva da avó. Precisamos da rigidez que dá estrutura e da flexibilidade que dá movimento.

Familiares de diferentes gerações não convivem para se corrigir. Convivem para se completar.

Porque envelhecer é, sim, uma arte. E toda arte nasce do encontro entre o passado que nos formou e o futuro que ainda desejamos viver.

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