Há histórias que atravessam séculos porque carregam, dentro de si, aquilo que nos torna humanos: nossos medos, nossas recusas, nossas lentas aceitações. Beethoven é a personificação de uma dessas histórias. Um homem cuja genialidade ultrapassou os limites do próprio corpo, mas que, ainda assim, travou uma batalha íntima diante daquilo que não podia escolher: a perda da audição. Ele procurou médicos, tratamentos, explicações. Lutou contra a realidade como quem tenta atrasar o pôr do sol com as próprias mãos. Até que, esgotado de lutar contra o inevitável, encontrou um caminho inesperado, não de desistência, mas de transcendência. Adoro essa última palavra.
Transcender, aqui, é ultrapassar uma identidade que já não nos comporta mais. E foi assim, quase totalmente surdo, que compôs a Sonata ao Luar, uma das obras mais luminosas e eternas da humanidade. Envelhecer deve ser transcender. Não somos, de modo algum, aos 70 anos, a pessoa que éramos aos 30. Transcendemos para uma nova identidade e não devemos nos apegar ao que fomos, senão perderemos tempo sofrendo em vez de sermos e vivermos o que somos naquele momento da vida.
Beethoven não superou a surdez. Ele aceitou. E, ao aceitar, renasceu para uma versão de si mesmo que só pôde existir quando cessou a resistência. O envelhecimento pode ser uma transição silenciosa entre o que insistimos em ser e o que, finalmente, podemos ser. E a liberdade de sermos pode ser mágica, capaz de fortalecer uma paz consigo mesmo que, em nenhum outro momento da vida, poderemos sentir. A paz de só ser.
Vivemos numa era que nos oferece filtros, procedimentos, discursos e rituais para adiar a velhice, ou pelo menos escondê-la atrás de uma cortina de juventude fabricada. Não queremos parecer ultrapassados, fragilizados ou menos úteis. A sociedade nos ensinou que o valor de alguém está na performance, na eficiência, na novidade que oferece. E é difícil não internalizar esse olhar. Difícil não sentir, no fundo do peito, o medo de ser considerado obsoleto.
Mas chega um momento em que percebemos que lutar contra a passagem do tempo é como tentar segurar água com as mãos. Cansa. Exaure. E, paradoxalmente, não impede que ela escorra. É nesse instante, quase sempre discreto, que a vida abre um portal: o da aceitação.
Aceitar não é resignar-se. Não é desistir. É reorganizar os significados. É compreender que há fases que não voltam, mas que também existem outras que só começam quando paramos de resistir. A maturidade verdadeira tem algo de sagrado: uma lucidez tranquila, uma coragem mansa, uma espécie de paz que não se encontra antes dos quarenta, cinquenta, setenta. Não porque a juventude seja rasa, mas porque certas sutilezas só se mostram quando a gente deixa de correr. E, para aprender a não correr, só com o tempo e a experiência que faz com que o “desespero”, comum aos jovens, em encontrar seu espaço no mundo, já tenha ido embora. Quando já somos o que somos e ponto. E, se formos mais no futuro, estaremos no lucro. Quando descobrimos a gratidão de simplesmente existir.
Quando aceitamos o envelhecimento, um novo tipo de liberdade nasce. Uma liberdade sem barulho, sem plateia, sem cobrança. Uma liberdade que nos permite finalmente ser quem sempre fomos, mas ainda não tínhamos coragem de assumir, tolhidos por julgamentos alheios e regras sociais “suspeitas”.
De repente, já não nos interessa participar de conversas vazias, disputas de vaidade, comparações de sucesso. Não queremos mais sustentar aquilo que nos apertava por dentro. Passamos a escolher melhor as companhias, a reduzir o ruído externo, a ajustar o volume da nossa própria alma. As prioridades mudam, e, com elas, mudamos também.
É nesse momento que deixamos de falar tanto sobre as dores do passado. Como se depositássemos, ali, naquele chão fértil do tempo, uma mala que carregamos por décadas sem perceber o peso. Alguns chamam isso de sabedoria. Eu prefiro chamar de alívio. Eu amo conviver com pessoas idosas e sempre tento aprender com elas essa “sanidade mental” que só se adquire com anos ou décadas de vida, entre perdas e ganhos e o equilíbrio da balança da vida.
É uma pena enorme que nem todas as pessoas consigam aprender essa lição de alívio antes que seja tarde. Muitos dos meus pacientes penaram até o fim da vida se lamentando pelo que consideraram que não deu certo, pelas perdas, sem ver os ganhos, tomados por uma dor profunda que lhes afetou a alma e se manifestou no corpo. Portanto, gosto muito de escrever sobre aceitação. Penso que, quanto mais pessoas me lerem, mais fácil será para elas lidar com as mudanças.
Quando recebo pacientes 60+ em meu consultório, a primeira coisa que testo é a resiliência deles e sua capacidade de transcender. Nenhum processo de reabilitação acontece de maneira eficiente se o sujeito dela não transcender, se ele não aceitar esta nova pessoa que se manifesta em si mesmo. A paz é o melhor remédio do mundo e eu faço questão de que meus pacientes tenham paz, aprendam a ter paz. Ouvi-los é fundamental, negociar acordos de paz com eles mesmos e com o mundo, ensiná-los a abraçar as pessoas que foram e dizer adeus a elas sem cobranças pesadas ou excesso de explicações. Algumas coisas não aconteceram ou não foram porque simplesmente foi “só sei que foi assim”, como diz Chicó, o personagem do Selton Mello em “O Alto da Compadecida”.
Como dizia minha avó Helena, rainha dos ditados populares: “não adianta chorar o leite derramado, agora só resta limpar o estrago e seguir em frente, deixando isso pra lá ou tentando com uma nova leiteira.” Ela também dizia: “com o tempo, você aprende a não deixar ele derramar.” É isso. O tempo, a experiência, são a chave. Eu gosto da ideia de ensinar meus pacientes a “tentar com uma nova leiteira”, aprender com o tempo e prestar mais atenção no que podem melhorar na pessoa que são neste exato momento da vida, para terem liberdade emocional.
Aceitar que tudo passa, amores, paisagens, dores, certezas, intenções [e corpos viram cinzas], não nos faz cínicos. Nos faz humanos. Nos lembra que fazer parte da vida é também deixar que a vida passe por nós. E, ao mesmo tempo, perceber que, enquanto passa, ela nos deixa marcas que nos tornam mais gentis, mais profundos, mais atentos.
O poeta Mário Quintana, meu conterrâneo, escreveu: “Eles passarão… eu passarinho.” Uma frase curta, mas generosa. Uma maneira delicada de dizer que não precisamos competir com o tempo nem com o mundo. Podemos simplesmente ser. Ser leves, ser atentos, ser presentes. Passar como passam os pássaros: deixando rastros invisíveis no ar, mas inesquecíveis para quem os viu voar.
Quintana nos convida a abandonar a pretensão da permanência e abraçar a poesia da impermanência. Não somos feitos para durar intactos. Somos feitos para viver, e viver é mudar. É exatamente aí que reside a beleza do envelhecer: na capacidade de transformar a própria existência em um canto único, irrepetível, que só pode ser entoado depois de muitos invernos e primaveras.
A juventude acredita que sabe tudo sobre a vida. Mas a maturidade descobre que saber tudo não é necessário para viver bem. O que importa, de verdade, é ter paz. E essa paz não se compra, não se conquista, não se finge. Ela nasce da compreensão serena de que o tempo não é inimigo: é mestre.
Envelhecer não é um colapso. É uma abertura. Uma possibilidade de habitar o próprio corpo e a própria história com uma delicadeza que só se aprende vivendo. É aprender a ser gentil consigo mesmo. É finalmente olhar para o espelho e ver além da superfície.
Sim, o corpo muda. Os contornos se reorganizam. A pele guarda mapas de tudo o que atravessamos. Mas existe uma beleza profunda nessa cartografia. A beleza de ter sobrevivido. A beleza de ter amado. A beleza de ainda estar aqui, presente, pulsante, desperto, apesar de tudo o que poderia ter interrompido o caminho.
Há uma potência extraordinária em continuar. E também há coragem em aceitar que não precisamos mais provar nada para ninguém. O envelhecimento nos devolve a nós mesmos. Nos devolve a capacidade de escolher com mais precisão, de priorizar com mais consciência, de amar com mais verdade. A vida, a partir desse ponto, ganha um brilho mais silencioso, porém mais firme. E, quando percebemos, estamos vivendo não apesar do tempo, mas com o tempo.
Entender que somos passageiros, e que ainda assim temos importância, nos torna mais leves. A juventude vê essa leveza de longe, mas não consegue tocá-la. Só a encontrará quando for a vez dela. Cada idade tem sua própria poesia, seu próprio ritmo, seu próprio chamado.
Essa nova poesia é a poesia da transcendência. Da profundidade. Da liberdade que chega devagar, como uma manhã ensolarada depois de uma noite longa. Beethoven compôs a Sonata ao Luar quando já mal podia ouvir. É como se tivesse encontrado, em meio à própria perda, o espaço para criar uma obra que transcendeu o tempo. Talvez seja essa a mensagem que ele nos deixa: não é a ausência que define a vida, mas o que fazemos com ela.
Envelhecer é isso. Viver é isso. Aceitar é isso. Eles passarão. Nós passarinhos.
Recomendações de filmes:
1. Como Estrelas na Terra. Índia. Direção: Aamir Khan, 2007. YouTube.
2. Sonata ao Luar. Reino Unido e EUA. Direção: Irene Taylor Brodsky, 2019. HBO e Prime Video.
3. O Auto da Compadecida. Brasil. Direção: Guel Arraes, 2000. Netflix.
4. 27 Noites. Argentina. Direção: Daniel Hendler, 2025. Netflix.
5. Passageiros. EUA. Direção: Morten Tyldum, 2016. Netflix.