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Educar é ação
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Laptops em sala de aula: inovação pedagógica ou distração institucionalizada?

Estudo experimental revela que o uso irrestrito de laptops e tablets pode reduzir o desempenho acadêmico, reforçando a importância de integrar a tecnologia de forma planejada e intencional ao processo pedagógico

Philip Ferreira

17/02/2026 11h06

we can ask our teacher whenever we want

Foto: Freepik

A presença de laptops, tablets e dispositivos conectados à internet tornou-se comum nas salas de aula brasileiras, tanto no Ensino Superior quanto na Educação Básica. Em um cenário em que conectividade é sinônimo de modernidade, surge uma questão inevitável: o uso livre de computadores durante as aulas melhora ou prejudica a aprendizagem?

Embora muitos defendam a tecnologia como ferramenta indispensável ao ensino contemporâneo, pesquisas recentes indicam que o impacto do uso irrestrito de dispositivos em sala pode ser negativo. Um estudo experimental realizado em contexto universitário, com metodologia de distribuição aleatória entre turmas, investigou exatamente essa questão: o que acontece com o desempenho acadêmico quando o uso de laptops e tablets é permitido, proibido ou parcialmente restrito?

O experimento: três modelos de sala de aula

O estudo organizou turmas de uma disciplina obrigatória em três formatos distintos. No primeiro grupo, denominado “livre de tecnologia”, o uso de laptops e tablets era proibido. No segundo grupo, os estudantes podiam utilizar dispositivos conectados à internet livremente durante as aulas. No terceiro grupo, chamado “apenas tablet”, o uso era permitido, mas com restrições: os tablets deveriam permanecer apoiados horizontalmente sobre a mesa, permitindo supervisão docente.

As turmas eram padronizadas: mesma ementa, mesmas avaliações e critérios de correção idênticos. Além disso, os estudantes eram distribuídos aleatoriamente entre as turmas e desconheciam previamente a política de uso de tecnologia de sua sala. O desempenho foi medido por meio da nota na prova final obrigatória, responsável por 25% da média da disciplina.

Resultados: queda no desempenho

Os resultados revelaram que permitir o uso de dispositivos conectados à internet reduziu o desempenho médio dos estudantes na prova final em aproximadamente um quinto de um desvio padrão, um impacto estatisticamente relevante. Essa diferença equivale, em termos práticos, à diferença média de desempenho entre dois alunos cujo coeficiente de rendimento inicial difere em 0,17 pontos em uma escala de 0 a 4.

Ainda mais significativo é o fato de que o estudo foi realizado em um ambiente altamente estruturado, com forte disciplina acadêmica e alta motivação estudantil. Isso sugere que, em contextos menos regulados, como muitas universidades e escolas brasileiras, os efeitos negativos podem ser ainda mais intensos.

Por que isso acontece?

Embora o estudo não tenha investigado diretamente os mecanismos causais, outras pesquisas ajudam a compreender possíveis explicações. Um dos fatores está relacionado ao tipo de anotação realizada. Alunos que utilizam laptops tendem a transcrever o conteúdo quase literalmente, enquanto estudantes que utilizam papel e caneta precisam sintetizar e organizar as ideias, favorecendo a aprendizagem conceitual.

Além disso, a multitarefa digital é um elemento central. Pesquisas anteriores indicam que estudantes utilizam softwares não relacionados à aula por uma parcela significativa do tempo. Redes sociais, aplicativos de mensagens e navegação na internet competem diretamente com a atenção necessária à aprendizagem. Estudos laboratoriais também demonstram que a simples proximidade com alguém usando um laptop pode prejudicar o desempenho de colegas ao redor.

Implicações para a educação brasileira

No Brasil, o debate sobre tecnologia em sala de aula frequentemente oscila entre dois extremos: a defesa irrestrita da inovação digital e a proibição total de dispositivos. Entretanto, os dados sugerem que a questão não é simplesmente usar ou não usar, mas como e quando usar.

É importante distinguir entre o uso planejado e pedagógico da tecnologia, como atividades estruturadas, simulações, pesquisas orientadas e produção colaborativa, e o uso opcional para anotações durante aulas expositivas. O estudo indica que, quando o uso é livre e não estruturado, os efeitos tendem a ser negativos.

Para gestores e professores, isso implica refletir sobre políticas claras. Permitir dispositivos sem diretrizes pode comprometer a aprendizagem. Por outro lado, integrá-los intencionalmente ao planejamento didático pode potencializar resultados.

Tecnologia exige intencionalidade

A conectividade é uma realidade irreversível. No entanto, inovação educacional não significa simplesmente introduzir dispositivos na sala de aula. A evidência empírica sugere que o impacto da tecnologia depende do contexto, da estrutura pedagógica e da regulação do uso.

Antes de abrir os laptops no início do semestre, educadores talvez precisem se perguntar: essa tecnologia está ampliando a aprendizagem ou fragmentando a atenção?

O desafio contemporâneo não é escolher entre tecnologia ou tradição, mas construir práticas pedagógicas em que a tecnologia sirva ao pensamento e não o substitua.

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