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Educar é ação
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Conectando a aprendizagem socioemocional ao sucesso de longo prazo – contexto brasileiro

Aprendizagem socioemocional ganha espaço nas políticas educacionais brasileiras e se consolida como fator decisivo para permanência escolar, desempenho acadêmico e oportunidades ao longo da vida

Philip Ferreira

17/03/2026 11h15

colleagues doing team work project

Foto: Freepik

Imagine seu colega de trabalho ou amigo ideal. Ela se comunica bem, coopera com os outros e trabalha em equipe. Consegue reconhecer suas emoções, mas também mantém a calma em situações de pressão. É persistente e não desiste facilmente diante das dificuldades. Provavelmente você a descreveria como uma pessoa dedicada, empática e flexível, alguém capaz de contribuir para a solução de problemas complexos.

Pesquisas nas áreas de educação, psicologia e sociologia realizadas no Brasil indicam que estudantes que desenvolvem habilidades socioemocionais apresentam melhores resultados escolares e maiores oportunidades ao longo da vida. Estudos conduzidos pelo Instituto Ayrton Senna, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) demonstram que competências como perseverança, autocontrole, responsabilidade e colaboração estão associadas a maior engajamento escolar, melhores notas e menores índices de evasão.

Essas pesquisas também mostram que fatores sociais e contextuais influenciam o desenvolvimento dessas competências. A promoção do desenvolvimento socioemocional, por meio de experiências de pertencimento, cooperação e comunicação construtiva, já faz parte de programas educacionais brasileiros, especialmente na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Nos últimos anos, o ensino médio também tem passado a incorporar essa dimensão formativa, em consonância com as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que reconhece o desenvolvimento socioemocional como parte das competências gerais da educação básica.

Um dos instrumentos mais utilizados para medir o desenvolvimento socioemocional são questionários aplicados aos estudantes, nos quais eles relatam suas experiências, atitudes e comportamentos em relação à escola. No Brasil, iniciativas como o Instrumento SENNA, desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), têm sido utilizadas para avaliar competências socioemocionais em larga escala.

Esses instrumentos permitem investigar questões importantes: quais escolas conseguem promover melhor o desenvolvimento socioemocional? E frequentar essas escolas melhora os resultados educacionais e sociais dos estudantes no longo prazo?

Para responder a essas perguntas, pesquisadores brasileiros têm utilizado bases de dados educacionais que combinam informações acadêmicas, questionários socioemocionais e indicadores escolares. Estudos baseados em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), do Censo Escolar e de pesquisas socioemocionais conduzidas em redes estaduais e municipais mostram que o ambiente escolar exerce influência significativa no desenvolvimento socioemocional dos estudantes.

Uma etapa importante do ensino médio brasileiro é o 1º ano, que representa uma transição decisiva entre o ensino fundamental e a etapa final da educação básica. Pesquisas do INEP e de universidades brasileiras indicam que esse período é crítico, pois muitos estudantes enfrentam dificuldades de adaptação, aumento das exigências acadêmicas e maior risco de abandono escolar.

As análises mostram que algumas escolas são mais eficazes do que outras no desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Esses efeitos tendem a se concentrar em dois grandes domínios: bem-estar social e hábitos de estudo e trabalho.

O bem-estar social está relacionado à qualidade das relações interpessoais, ao sentimento de pertencimento à escola e à capacidade de convivência e cooperação. Já os hábitos de trabalho envolvem persistência, responsabilidade, dedicação aos estudos e organização.

Pesquisas educacionais brasileiras mostram que escolas que promovem um ambiente de convivência positivo tendem a apresentar melhores índices de frequência escolar e menores ocorrências de conflitos ou indisciplina. Por outro lado, escolas que estimulam hábitos de estudo consistentes tendem a apresentar melhores resultados acadêmicos.

Outro ponto importante identificado por pesquisadores brasileiros é que o desenvolvimento socioemocional pode ser um forte preditor do sucesso educacional. Estudos conduzidos pelo Instituto Ayrton Senna e pela USP indicam que competências como persistência, responsabilidade e organização estão fortemente associadas à permanência na escola, à conclusão do ensino médio e ao acesso ao ensino superior.

Esses resultados sugerem que as próprias percepções dos estudantes sobre seu bem-estar social e seus hábitos de estudo podem fornecer informações importantes sobre seu desenvolvimento. Além disso, mostram que indicadores socioemocionais podem complementar medidas tradicionais de desempenho acadêmico, oferecendo uma visão mais ampla da qualidade das escolas.

Ampliando a definição de uma “boa” escola

Os anos do ensino médio são fundamentais para o desenvolvimento dos jovens. Frequentar uma escola de qualidade pode estabelecer as bases para o sucesso acadêmico, profissional e social na vida adulta.

Mas o que define uma escola de qualidade? Durante décadas, os sistemas educacionais avaliaram o desempenho escolar principalmente com base em notas e resultados de testes padronizados, como o SAEB ou o ENEM. No entanto, pesquisas educacionais brasileiras têm mostrado que a qualidade da escola é um fenômeno multidimensional.

Algumas escolas conseguem promover relações sociais positivas, fortalecer o senso de pertencimento dos estudantes e desenvolver competências como empatia e cooperação. Outras conseguem estimular hábitos de estudo, disciplina e persistência.

Estudantes que frequentam escolas que promovem essas dimensões tendem a apresentar resultados positivos tanto durante a vida escolar quanto após a conclusão do ensino médio. Entre esses resultados estão maior probabilidade de concluir os estudos, ingressar no ensino superior e participar de atividades profissionais qualificadas.

Pesquisas conduzidas pelo INEP, pelo IPEA e por universidades brasileiras também apontam que estudantes que desenvolvem habilidades socioemocionais apresentam menores índices de evasão escolar e maior capacidade de enfrentar desafios acadêmicos.

Esses resultados têm implicações importantes para as políticas educacionais brasileiras. Eles sugerem que a avaliação da qualidade escolar não deve se limitar apenas ao desempenho em testes, mas também considerar fatores relacionados ao desenvolvimento socioemocional e ao ambiente escolar.

Dados e indicadores educacionais no Brasil

Estudos brasileiros sobre desenvolvimento socioemocional utilizam diferentes fontes de dados, incluindo:

  • Censo Escolar da Educação Básica, produzido pelo INEP
  • Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB)
  • Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)
  • Pesquisas socioemocionais aplicadas por redes estaduais e municipais
  • Estudos conduzidos por universidades e centros de pesquisa educacional

Essas bases de dados permitem analisar tanto resultados de curto prazo, como frequência escolar, desempenho acadêmico e engajamento, quanto resultados de longo prazo, como conclusão do ensino médio e acesso ao ensino superior.

De acordo com dados do INEP, aproximadamente 80% dos estudantes brasileiros que ingressam no ensino médio concluem essa etapa, embora existam desigualdades regionais significativas. Além disso, pesquisas educacionais indicam que estudantes que desenvolvem maior engajamento escolar e habilidades socioemocionais apresentam maior probabilidade de continuar seus estudos.

O desenvolvimento socioemocional é um componente fundamental da formação integral dos estudantes. No contexto brasileiro, políticas educacionais recentes, como a BNCC, reconhecem a importância de integrar competências cognitivas e socioemocionais no processo educativo.

Pesquisas realizadas por instituições brasileiras mostram que escolas que promovem um ambiente de convivência saudável, incentivam a participação dos estudantes e estimulam hábitos de estudo consistentes contribuem significativamente para o sucesso acadêmico e social dos jovens.

Assim, compreender e avaliar o desenvolvimento socioemocional dos estudantes representa um passo importante para aprimorar a qualidade da educação no Brasil e ampliar as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento para todos.

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