Menu
Educar é ação
Educar é ação

Como o ensino de História pode ajudar a melhorar nossos péssimos resultados em leitura

Quando o problema não é só decodificar palavras, mas ter repertório suficiente para compreender o que se lê

Philip Ferreira

01/09/2026 10h21

two young cheerful female students in casual clothes standing near bookshelves in university library looking through literature for team project.

Foto: Magnific

Quando se fala em melhorar a leitura dos estudantes brasileiros, quase sempre a discussão começa e termina nas aulas de Língua Portuguesa. Fala-se em interpretação de texto, fluência, estratégias de leitura, produção textual e avaliações externas. Tudo isso é importante, mas talvez estejamos deixando de lado uma parte fundamental do problema: ninguém compreende bem um texto quando não possui conhecimento suficiente sobre o assunto que está lendo.

É justamente aí que o ensino de História pode assumir um papel muito maior do que normalmente lhe atribuímos. Ler não é apenas decodificar palavras; a compreensão depende também daquilo que o estudante já sabe sobre o mundo. Uma criança que conhece minimamente a história da escravidão no Brasil compreenderá com muito mais profundidade um texto sobre quilombos, resistência negra ou abolição. Da mesma maneira, quem estudou industrialização, urbanização e movimentos migratórios terá mais ferramentas para interpretar uma reportagem sobre o crescimento das cidades brasileiras.

O conhecimento funciona como uma espécie de rede: quanto mais pontos existem nessa rede, maiores são as possibilidades de conectar uma informação nova àquilo que já foi aprendido. Por isso, talvez seja um equívoco imaginar que aumentar o desempenho em leitura signifique apenas aumentar o tempo dedicado a exercícios específicos de leitura.

Durante muito tempo, especialmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, disciplinas como História, Geografia e Ciências perderam espaço para uma concentração cada vez maior em Língua Portuguesa e Matemática. A intenção era compreensível: melhorar os resultados justamente nas áreas mais cobradas pelas avaliações. O problema é que essa estratégia pode produzir o efeito contrário. Quando reduzimos o acesso das crianças ao conhecimento histórico, científico, geográfico e cultural, diminuímos também o repertório necessário para que elas compreendam textos cada vez mais complexos.

Basta observar alguns resultados educacionais brasileiros. Avaliações como o Saeb e estudos internacionais como o Pisa vêm mostrando há anos dificuldades significativas de muitos estudantes na compreensão de textos. Evidentemente, as causas são numerosas e envolvem desigualdades sociais, formação docente, infraestrutura, acesso aos livros e condições familiares. Mas existe também uma questão curricular que merece atenção: o que nossos estudantes estão efetivamente aprendendo sobre o mundo ao longo da escolarização?

Nesse sentido, um bom currículo de História não deveria ser entendido apenas como uma lista de conteúdos que precisam ser cumpridos, mas sim como algo que constrói conhecimento progressivamente. Um estudante não deveria chegar ao 8º ou ao 9º ano e encontrar pela primeira vez conceitos fundamentais sobre a formação do Estado brasileiro, escravidão, colonização, povos indígenas, República ou industrialização. Esses conhecimentos precisam aparecer em diferentes níveis de profundidade desde os primeiros anos, criando conexões progressivas, como na construção de uma casa: não adianta exigir análises sofisticadas no Ensino Médio se os alicerces não foram construídos anteriormente.

Outro ponto importante está na maneira como ensinamos História. A disciplina possui uma vantagem pedagógica extraordinária: ela é naturalmente narrativa. Há personagens, conflitos, decisões, interesses, rupturas, continuidades, causas e consequências. Quando esses elementos são apresentados de forma articulada, os estudantes conseguem perceber que os acontecimentos históricos não são fatos isolados. A Independência do Brasil, por exemplo, não deveria aparecer apenas como uma data acompanhada de personagens conhecidos, mas pode ser compreendida dentro de um processo que envolve a transferência da corte portuguesa, transformações políticas na Europa, interesses econômicos das elites brasileiras, tensões com Portugal e diferentes projetos para o novo país. Quando essa narrativa é construída, o estudante começa espontaneamente a perguntar: “E depois, o que aconteceu?”

Essa pergunta é extremamente poderosa, pois mostra que o aluno deixou de memorizar fragmentos e começou a construir relações entre acontecimentos.

Também precisamos recuperar o papel das fontes históricas nas aulas. Cartas, fotografias, mapas, jornais, documentos oficiais, relatos pessoais, discursos e registros iconográficos ajudam a transformar a aula em um espaço de investigação. Mas existe uma condição importante: antes de interpretar uma fonte, o estudante precisa possuir algum conhecimento sobre o contexto em que ela foi produzida.

Não há pensamento crítico no vazio. Para questionar uma fonte, comparar versões ou identificar interesses presentes em determinado documento, é necessário conhecer minimamente o período histórico em questão. Caso contrário, corremos o risco de transformar atividades aparentemente sofisticadas em exercícios de opinião sem sustentação.

Esse princípio também vale para a educação para a cidadania. No Brasil, frequentemente tentamos discutir democracia, Constituição, direitos humanos, desigualdade social ou participação política diretamente a partir de acontecimentos do presente. Essas discussões podem ser extremamente enriquecedoras, mas ganham profundidade quando os estudantes conhecem os processos históricos que produziram nossas instituições.

Como compreender plenamente a importância da Constituição de 1988 sem conhecer o período da ditadura militar e o processo de redemocratização? Como discutir desigualdade racial sem compreender os mais de três séculos de escravidão e suas consequências sociais? Como refletir sobre concentração fundiária sem conhecer a formação histórica da propriedade da terra no Brasil? Como entender a urbanização brasileira sem estudar industrialização, êxodo rural e crescimento das grandes cidades?

A História oferece contexto, e contexto é exatamente aquilo que transforma informação em conhecimento.

Por isso, escolas e sistemas de ensino também deveriam observar com mais cuidado a qualidade dos materiais utilizados nas aulas de História. Um material visualmente bonito não é necessariamente um bom material didático. Da mesma maneira, uma coleção cheia de atividades também pode apresentar conteúdos fragmentados e superficiais.

Algumas perguntas podem ajudar nessa avaliação. Os conteúdos estão organizados em uma sequência compreensível? O conhecimento construído em um ano é retomado e aprofundado nos anos seguintes? Os estudantes têm acesso a textos históricos consistentes? Existem fontes primárias adequadas à faixa etária? O professor recebe apoio para contextualizar os temas? As atividades exigem apenas reprodução de informações ou levam os estudantes a estabelecer relações entre acontecimentos?

Um currículo de qualidade também deveria reduzir algo que se tornou muito comum na profissão docente: o professor precisar montar praticamente todo o seu material do zero. Em muitas escolas, educadores passam horas procurando textos, vídeos, documentos históricos e atividades na internet porque o material disponível é superficial ou desconectado. Um bom currículo não elimina a autonomia docente; pelo contrário, oferece uma base sólida sobre a qual o professor pode exercer sua criatividade e sua capacidade pedagógica.

Talvez seja necessário, inclusive, rever uma ideia bastante presente no debate educacional contemporâneo: a de que o conhecimento acumulado teria perdido importância porque qualquer informação pode ser encontrada rapidamente na internet. Nunca tivemos tanto acesso à informação, e talvez nunca tenha sido tão necessário possuir conhecimento para avaliá-la. Diante de redes sociais, inteligência artificial, notícias falsas, vídeos manipulados e uma quantidade quase infinita de conteúdos circulando diariamente, os estudantes precisam saber comparar fontes, reconhecer contextos, identificar interesses e estabelecer relações entre informações.

Todas essas habilidades dependem de repertório. É difícil identificar uma distorção histórica sem conhecer História. É difícil analisar criticamente um argumento sobre democracia sem compreender como as instituições democráticas funcionam. É difícil interpretar uma reportagem sobre mudanças climáticas sem conhecimentos científicos e geográficos. Por isso, melhorar a leitura passa também por devolver importância às disciplinas que ajudam os estudantes a compreender o mundo.

Talvez a grande questão não seja simplesmente fazer nossos estudantes lerem mais, mas ajudá-los a saber mais. Porque quanto maior o conhecimento que uma criança carrega, maiores são as possibilidades de compreender aquilo que encontra em uma página. Nesse sentido, fortalecer o ensino de História pode representar muito mais do que recuperar datas, personagens ou acontecimentos do passado. Pode ser também uma das estratégias mais importantes para formar melhores leitores no presente.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado