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Educar é ação
Educar é ação

Ampliando a definição de uma “boa” escola no Brasil

Por que bem-estar, pertencimento e perseverança também precisam entrar na conta quando falamos de qualidade na educação

Philip Ferreira

20/01/2026 15h06

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Foto: Freepik

Imagine seu colega de trabalho ou amigo ideal. Ele se comunica bem, trabalha em equipe e consegue dialogar com diferentes pessoas. Reconhece suas emoções, mas mantém a calma diante de desafios e conflitos. Não desiste facilmente quando encontra dificuldades. Você provavelmente o descreveria como dedicado, empático e flexível, alguém capaz de colaborar na resolução de problemas complexos.

Pesquisas em áreas como educação, psicologia e ciências sociais no Brasil têm mostrado que estudantes que desenvolvem essas competências socioemocionais tendem a ter trajetórias escolares mais consistentes e melhores perspectivas de vida. Ao mesmo tempo, sabemos que o contexto social, familiar e escolar influencia fortemente o modo como essas habilidades se desenvolvem. Por isso, promover o desenvolvimento socioemocional, criando ambientes de pertencimento, respeito, diálogo e cooperação, sempre esteve presente na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Mais recentemente, o ensino médio brasileiro também tem dado maior atenção a essas dimensões formativas.

Uma das principais formas de compreender o desenvolvimento socioemocional dos estudantes tem sido por meio de questionários e escutas sistemáticas com os próprios alunos, nas quais eles refletem sobre suas experiências escolares, relações com colegas e professores, motivação para aprender e senso de pertencimento. Isso levanta questões importantes para o Brasil:

Será que essas percepções dos estudantes podem nos ajudar a identificar escolas que realmente formam jovens de maneira integral?

E frequentar uma escola que cuida do desenvolvimento socioemocional melhora as chances de sucesso dos alunos ao longo da vida?

Quando analisamos indicadores tradicionais, como desempenho em avaliações externas (por exemplo, SAEB e IDEB), percebemos que eles capturam apenas uma parte da qualidade escolar. Escolas que apresentam bons resultados em provas padronizadas nem sempre são aquelas que mais promovem bem-estar, participação e engajamento dos estudantes. Por outro lado, escolas com forte cultura de convivência, acolhimento e trabalho coletivo muitas vezes conseguem reduzir a evasão, melhorar a frequência e fortalecer o vínculo dos jovens com a aprendizagem, fatores decisivos para a permanência e a conclusão do ensino médio.

Podemos pensar o desenvolvimento socioemocional em dois grandes eixos:

Bem-estar social e pertencimento: como o estudante se sente na escola, suas relações com colegas e professores, e sua sensação de ser valorizado e incluído.

Hábitos de estudo e perseverança: engajamento nas atividades, responsabilidade com tarefas, organização e capacidade de persistir diante de dificuldades.

Esses dois eixos são fundamentais para compreender o sucesso escolar no Brasil, especialmente no ensino médio, etapa marcada por desigualdades sociais, desafios de permanência e riscos de evasão.

Resultados de curto e longo prazo na realidade brasileira

No curto prazo, escolas que fortalecem o desenvolvimento socioemocional tendem a apresentar:

Menor número de faltas e atrasos.

Menos conflitos e problemas disciplinares.

Maior participação dos estudantes em sala de aula.

Maior probabilidade de conclusão do ano letivo sem reprovação.

Esses fatores são decisivos para evitar o abandono escolar e manter os estudantes no caminho da conclusão do ensino médio, um grande desafio histórico do sistema educacional brasileiro.

No longo prazo, alunos que estudam em escolas que valorizam relações saudáveis, participação democrática e hábitos de estudo mais sólidos têm maior chance de:

Concluir o ensino médio.

Ingressar no ensino técnico ou superior.

Ter trajetórias profissionais mais estáveis.

Desenvolver maior capacidade de cidadania e participação social.

Isso é especialmente relevante em um país como o Brasil, onde a escola pública desempenha papel central na mobilidade social e na redução de desigualdades.

O que isso significa para avaliar escolas no Brasil

Tradicionalmente, a qualidade da escola tem sido medida principalmente por indicadores como IDEB, resultados em avaliações externas e taxas de aprovação. Embora esses dados sejam importantes, eles não contam toda a história.

Uma escola pode ter bons índices acadêmicos e, ainda assim, apresentar problemas graves de clima escolar, exclusão, falta de diálogo e baixa participação dos estudantes. Da mesma forma, escolas com resultados mais modestos em provas podem estar realizando um trabalho pedagógico potente em termos de formação humana, cidadania e convivência democrática.

Isso nos leva a uma conclusão central: a qualidade da escola é multidimensional. Avaliar uma boa escola no Brasil exige considerar, além das notas, aspectos como:

Relações entre alunos e professores.

Ambiente de respeito e inclusão.

Apoio emocional e pedagógico.

Participação estudantil.

Práticas pedagógicas que estimulam autonomia e pensamento crítico.

Impactos sobre permanência e futuro dos estudantes

Quando a escola promove bem-estar e hábitos de estudo consistentes, observamos efeitos positivos concretos:

Mais estudantes permanecem na escola até o final do ensino médio.

Reduz-se a evasão e a reprovação.

Aumenta a motivação para aprender.

Crescem as chances de ingresso em cursos técnicos ou universidades.

Isso sugere que investir em desenvolvimento socioemocional não é algo secundário, mas um componente central para melhorar os resultados educacionais no Brasil.

Quais práticas escolares fazem diferença?

Ainda há muito a pesquisar, mas já sabemos que algumas práticas são promissoras:

Projetos pedagógicos que valorizam diálogo e trabalho em equipe.

Mediação de conflitos e cultura de respeito.

Espaços de escuta dos estudantes.

Metodologias ativas que estimulam participação e autonomia.

Relação mais próxima entre escola, família e comunidade.

Os anos do ensino médio são decisivos para a vida dos jovens brasileiros. Frequentar uma escola de qualidade pode abrir portas para o futuro, mas qualidade não pode ser definida apenas por notas em provas.

Uma boa escola é aquela que:

Ensina conteúdos acadêmicos.

Forma cidadãos críticos.

Cuida do bem-estar dos estudantes.

Desenvolve responsabilidade, perseverança e cooperação.

E cria condições para que todos tenham oportunidades reais de sucesso.

Ampliar nossa definição de “boa escola” significa reconhecer que aprender é também construir relações, identidade, autonomia e projetos de vida. Esse é um passo fundamental para uma educação mais justa, humana e transformadora no Brasil.

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