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Educar é ação
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A força invisível da sala de aula: o poder das expectativas docentes

Como crenças docentes moldam trajetórias escolares, reforçam desigualdades e podem se tornar um fator decisivo de permanência, aprendizagem e acesso a oportunidades educacionais no Brasil

Philip Ferreira

03/02/2026 10h42

young woman teacher sitting at school desk in front of blackboard in classroom checking homework of students angry and mad raising clenched fist

Foto: Freepik

Há sólidos indícios de que as crenças e expectativas dos professores exercem influência significativa sobre o desempenho escolar e as trajetórias educacionais dos estudantes, uma ideia amplamente reconhecida por famílias, educadores, pesquisadores e gestores públicos no contexto da educação brasileira. Em cerimônias de conclusão da educação básica ou do ensino superior, é comum que estudantes destacam o papel de professores que acreditaram em seu potencial, incentivaram a persistência e estimularam o desenvolvimento acadêmico. No debate educacional nacional, documentos oficiais e pesquisas vêm alertando para os efeitos negativos das baixas expectativas sobre estudantes de grupos historicamente vulnerabilizados, reforçando a necessidade de práticas pedagógicas baseadas na equidade e na valorização do potencial de todos.

Apesar da relevância atribuída às expectativas docentes no campo educacional, demonstrar empiricamente sua influência direta sobre os resultados escolares permanece um desafio. Isso ocorre porque a relação entre o que os professores esperam e o que os estudantes efetivamente alcançam pode refletir, em parte, a capacidade dos docentes de reconhecer habilidades, interesses e dificuldades ao longo do processo educativo. Na prática, diferenciar expectativas fundamentadas de expectativas marcadas por vieses é complexo, pois tanto as percepções dos professores quanto o desempenho dos estudantes são atravessados por fatores estruturais, sociais e institucionais que nem sempre são plenamente observáveis em pesquisas educacionais.

Ainda assim, no contexto brasileiro, essa discussão torna-se especialmente relevante diante das persistentes desigualdades educacionais associadas a fatores como raça, classe social, território e acesso a oportunidades. Surge, então, uma questão central: em que medida expectativas diferenciadas dos professores em relação a estudantes de distintos grupos raciais e socioeconômicos contribuem para desigualdades em indicadores-chave, como permanência escolar, aprendizagem, acesso ao ensino superior e conclusão de cursos?

Para explorar essas questões, estudos longitudinais realizados no Brasil, a partir de bases como avaliações educacionais em larga escala, dados administrativos do sistema educacional e pesquisas amostrais, têm buscado compreender como percepções docentes se relacionam com trajetórias escolares ao longo do tempo. Em diferentes investigações, professores são convidados a expressar suas expectativas quanto ao percurso educacional dos estudantes, incluindo a conclusão da educação básica e o ingresso no ensino superior. Essas informações permitem identificar padrões de expectativas e analisar como elas se associam a resultados educacionais futuros.

Os achados de pesquisas nessa linha corroboram a compreensão de que as expectativas dos professores exercem impacto relevante sobre os estudantes. De modo geral, alunos em relação aos quais os docentes demonstram expectativas mais elevadas tendem a apresentar melhores indicadores de aprendizagem, maior engajamento escolar e maiores taxas de continuidade dos estudos. De forma preocupante, também se observa que estudantes negros, indígenas e oriundos de contextos socioeconômicos menos favorecidos frequentemente são alvo de expectativas mais baixas, mesmo quando apresentam desempenho semelhante ao de seus pares. Esses resultados reforçam a necessidade de políticas e práticas educacionais que promovam a equidade, combatam o racismo estrutural e valorizem a diversidade no corpo docente.

Quando a expectativa influencia a trajetória

Em escolas públicas brasileiras, especialmente aquelas situadas em territórios marcados por vulnerabilidades sociais, não são raros os relatos de estudantes que, ao expressarem o desejo de ingressar em universidades públicas ou seguir carreiras acadêmicas, encontram reações céticas por parte de alguns educadores. Comentários que questionam a “realidade” desses sonhos podem afetar profundamente a autoconfiança dos alunos. Em contrapartida, experiências de escuta, incentivo e apoio por parte de outros professores mostram-se decisivas para que esses estudantes persistam em seus projetos de vida.

Diversos relatos indicam que o incentivo docente pode ser um fator determinante para que estudantes sejam os primeiros de suas famílias a concluir o ensino superior. Em muitos casos, professores que compartilham referências culturais e sociais semelhantes às dos alunos ou que adotam uma postura pedagógica baseada na escuta e na valorização do potencial humano conseguem estabelecer vínculos mais potentes de incentivo e pertencimento.

Na maioria das situações escolares, entretanto, as expectativas docentes não são explicitamente verbalizadas. Ainda assim, elas se manifestam de forma sutil no cotidiano escolar, influenciando a maneira como os professores interagem com os estudantes, distribuem sua atenção, formulam perguntas, avaliam produções e oferecem orientações acadêmicas. Os alunos, por sua vez, tendem a perceber esses sinais e a ajustar sua autoimagem, motivação e comportamento às expectativas que acreditam serem projetadas sobre eles.

Esses processos podem gerar ciclos de retroalimentação que resultam em profecias autorrealizáveis. Expectativas iniciais, ainda que imprecisas ou enviesadas, acabam influenciando práticas pedagógicas e respostas dos estudantes, contribuindo para que os resultados educacionais se aproximem daquilo que foi inicialmente esperado.

Dados e abordagens no contexto brasileiro

Para investigar esses fenômenos em escala mais ampla, o Brasil dispõe de importantes fontes de dados educacionais, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Censo Escolar, o ENEM e estudos longitudinais conduzidos por universidades e centros de pesquisa. Essas bases permitem acompanhar trajetórias escolares ao longo do tempo e analisar a relação entre contextos educacionais, práticas docentes e resultados de aprendizagem.

Um aspecto central dessas investigações é a possibilidade de articular informações sobre desempenho acadêmico, perfil socioeconômico e percepções docentes, o que favorece análises mais robustas sobre desigualdades educacionais. Além disso, a presença de dados detalhados sobre escolas, redes de ensino e territórios permite compreender como fatores institucionais e estruturais influenciam tanto as expectativas dos professores quanto às oportunidades educacionais dos estudantes.

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