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Do Alto da Torre
Do Alto da Torre

Um golpe que virou salada

Até a tarde desta quinta-feira, 27, quase 24 horas depois de encerrada a zorra de La Paz, os parlamentares da Câmara e do Senado passavam o seu tempo em agressões contraditórias

Eduardo Brito

27/06/2024 18h14

A polarização política brasileira transformou a repercussão do golpe – aliás, mais para uma tentativa de golpe – boliviano em uma salada. Até a tarde desta quinta-feira, 27, quase 24 horas depois de encerrada a zorra de La Paz, os parlamentares da Câmara e do Senado passavam o seu tempo em agressões contraditórias e em iniciativas malucas.

Para começar, Bia Kicis, sempre ela, teve reações contraditórias. Apressou-se a defender o golpe, tomando-o por uma iniciativa de direita. Foi acusada de comemorar a iniciativa dos militares, mas recuou logo.

“Não comemorei golpe algum, mas a possível soltura de presos políticos, o que infelizmente não aconteceu”, disse.

Invocou o caso da ex-presidente Jeanine Anez, “condenada a mais de dez anos de cárcere só por ser oposição a Evo Morales, enquanto aqui no Brasil temos Filipe Martins, Daniel Silveira e outros”. Glauber Braga, do PSOL, invocou sua condição de presidente da Comissão de Legislação Participativa para condenar o golpe, já que a sessão da Câmara fora encerrada.

Citou declarações do presidente boliviano Luis Arce, contra o golpe, e de seu antecessor Evo Morales, ambos contra a “movimentação na Plaza Murillo”, diante do Palácio Presidencial, mas foi cauteloso.

Separou um do outro. Afinal, a essa altura, já não se sabia bem quem estava ao lado de quem na agitação boliviana. Não era para menos.

O presidente Arce deu pessoalmente voz de prisão ao comandante do exército, general Juan José Zúñiga, tecnicamente o chefe do golpe. Só que, ao ser levado por policiais do palácio, Zúñiga parou em frente à imprensa e fez uma declaração surpreendente: acusou o presidente Luis Arce de ter orquestrado um autogolpe para ganhar popularidade. Seria um autogolpe, afirmou Zúñiga, visando as eleições de 2025, quando Luis Arce concorrerá pelo poder com seu ex-aliado Evo Morales.

Pedido de cassação

Foto: AFP

Enquanto isso, o deputado bolsonarista Ricardo Salles fazia a defesa de um golpe na Bolívia e pedia que houvesse outro, só que no Brasil. Diante disso, Glauber Braga e pediu afastamento do deputado. Daí a pedirem a cassação de Salles foi um passinho, seguido, é claro, por pedido semelhante contra Glauber. No Senado foi a mesma coisa.

Renan Calheiros associou o golpe à direita e cobrou “decisões duras, energias e imediatas dos organismos internacionais”. Já o ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, senador Ciro Nogueira , tentou associar o golpe à “perpetuação da esquerda na Bolívia”. 

“A perpetuação da esquerda na Bolívia é um dos dramas da América Latina. Dito isso, ódio e nojo a qualquer ditadura”, completou.  O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, também achou que se tratava de um movimento da direita.

“Amaldiçoados sejam golpes e tentativas de golpes de Estado em qualquer lugar do mundo, sobretudo na América Latina. Nossa solidariedade ao governo e ao povo boliviano”, comentou. O mais cauteloso foi o senador Sérgio Moro. Chamou a situação de “obscura” e insinuou que a decisão poderia ter sido um “autogolpe”. 

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