Três vezes candidato a senador e a distrital, Francisco Santana aprendeu como ninguém como é difícil a eleição na capital da República. Afinal, calcula ele, o Distrito Federal se transformou na Unidade da Federação onde é mais difícil eleger um deputado federal. São poucas as vagas, oito, e um eleitorado grande, o que amplia o quociente eleitoral. A votação de um deputado eleito na Capital Federal é suficiente para eleger de dois a três deputados em outros Estados.
Este ano, eleger um deputado federal em Brasília vai ser um desafio ainda mais difícil do que no último pleito, em 2022. A situação fica ainda mais complexa quando se veem campeões de votos, como Erika Kokay (foto), do PT, e Bia Kicis, do PL, optando por concorrer ao Senado Federal. Sem grandes puxadores de votos, atingir o quociente eleitoral, que habilita os partidos a conquistarem uma vaga na Câmara dos Deputados, o cenário fica um tanto ou quanto aberto.
O problema, explica Chico Santana, começa em que, no Distrito Federal, cada partido ou federação pode inscrever apenas nove candidatos para eleger deputado federal. Neste ano, para atingir o quociente eleitoral, o ideal é que cada candidato tenha o potencial de obter mais de 23 mil votos. Não é fácil. Em 2022, dos 588 candidatos inscritos, apenas dez atingiram esse resultado.
As estratégias são diferenciadas. Alguns optam por lançar poucos nomes como forma de obter grandes votações em uma só pessoa. Outros preferem a nominata inteira e apostam no somatório de todos os candidatos para obter o êxito.
Superar a cláusula de barreira dificulta tudo
Além da contagem mínima de votos, os partidos precisam superar as cláusulas de barreira, o que é necessário para afastar o risco de perderem o fundo eleitoral e o acesso ao horário político. Cada partido precisa eleger 13 deputados federais ou obter nacionalmente 2,5% dos votos válidos para a Câmara, sendo 1,5% em pelo menos nove estados.
Dezesseis partidos estão correndo risco: PV, Cidadania, UP, PDT, PCO, PSTU, PSDB, PCdoB, PSB, Avante, Podemos, PRD, PSOL, Solidariedade, Rede e Novo. As cláusulas de barreira visam à redução do espectro partidário que conta com mais de 30 siglas.
Com base nos dados de janeiro, já se verifica alta, este ano, de 3,18% sobre o universo de eleitores brasilienses de 2022. Traduzindo: cada partido deverá estimar um quociente eleitoral de pelo menos 207,3 mil eleitores. Na eleição passada, só quatro conseguiram isso.
É só fazer as contas: no pleito de 2022, 2.118.557 pessoas estavam aptas a votar no Distrito Federal, e, delas, 1.607.519 votos foram considerados válidos. Isso representou um quociente eleitoral de 201 mil votos, aproximadamente. Individualmente, apenas Bia Kicis (PL) – 214.733 votos (13,32%) – atingiu o mínimo necessário.
Todos os demais eleitos tiveram que contar com a ajuda de candidatos correligionários para, juntos, somando todos os votos, atingir a meta. Naquela ocasião, Fred Linhares (Republicanos) – 165.358 votos (10,26%) – e Erika Kokay (PT) – 146.092 votos (9,06%) – foram os outros campeões de votos.
Assim, vieram na carona Alberto Fraga (PL), Reginaldo Veras (PV, federado ao PT), Júlio Cesar e Gilvan Máximo (ambos do Republicanos). Posteriormente, Máximo perdeu seu mandato para Rodrigo Rollemberg (PSB), pois a Justiça entendeu ter sido aplicada erroneamente a regra eleitoral na hora de se definirem os oito eleitos.
Neste ano, até janeiro, 2.185.958 eleitores já eram considerados aptos a votar. Com a potencial candidatura de Bia ao Senado e a possibilidade de que Alberto Fraga se transfira para o PSD de Arruda, as chances do PL bolsonarista diminuem.
Projetos eleitorais
Ainda não está claro o projeto eleitoral de Fred Linhares, do Republicanos. Se ele vier novamente para a Câmara Federal, deve facilitar a nominata do partido dele.

O PSB de Rodrigo Rollemberg analisava criar uma federação com o Cidadania, de Cristovam Buarque. Juntos, projetavam eleger um, e, com sorte, dois parlamentares federais. O Cidadania, contudo, mudou de comando, voltou para as mãos do ex-senador pernambucano Roberto Freire, que se inclina mais à direita.
Dessa forma, conta Rollemberg, a federação está descartada e a estratégia é atrair Cristovam Buarque para se filiar ao PSB. Com os dois somando votos, e ainda com as candidaturas de Professor Israel e Marcos Wesley, a expectativa é garantir a eleição de um federal, sonhando com a possibilidade de um segundo.
Israel e Wesley já são veteranos em eleições; em 2022, concorreram à Câmara dos Deputados, mas não conseguiram os votos necessários. Cristovam Buarque disse que ainda avalia seu projeto, mas descarta uma candidatura a federal pelo Cidadania sem a federação com o PSB.
O enigma Reguffe
Partido próximo ao PSDB de Belmonte, o Solidariedade de Antônio Reguffe vive um dilema. Reguffe está há quatro anos sem mandato. Deseja voltar a ser senador, mas seu partido o deseja na relação de deputados federais.
Se for lançado a federal, as apostas indicam que ele se elege e traz outro de carona. O Solidariedade está federado ao PRD, de Lucas Kontoyanis, que, por sua vez, é derivado da fusão do Patriota com o PTB.
Reguffe quer ser candidato ao Senado – atrapalhando ainda mais os planos de Ibaneis Rocha. Mas só conseguirá a legenda se demonstrar ter construído uma relação de candidatos proporcionais competitivos.
PT tem desafio maior
O Partido dos Trabalhadores, que no DF é federado ao Partido Verde e ao PCdoB, tem um desafio semelhante ao de um time de futebol que foi campeão num ano e, no seguinte, perde seu artilheiro. Erika Kokay, que se elege deputada federal desde 2010, segue para tentar o Senado Federal.
Para repetir o desempenho passado, a federação deve trazer para a reeleição Reginaldo Veras (PV) e os petistas Ruth Venceremos, atual primeira suplente, e o ex-governador Agnelo Queiroz. Os demais nomes são novatos em disputa proporcional: Rosilene Corrêa, ex-presidente do sindicato dos professores; Márcia Abrahão, a ex-reitora da UnB.
Ainda se aguarda a indicação do PCdoB do nome escolhido. Ana Prestes, neta de Júlio Prestes, não concorrerá este ano. Mesmo com todas as dificuldades, o PT trabalha para ter dois deputados federais eleitos, revela Rosilene Corrêa.
Correndo na mesma raia eleitoral do PT, a federação Psol-Rede virá com o distrital Fábio Félix, que adota perfil semelhante ao da petista Érika.