A violência doméstica é um fenômeno complexo e multifacetado, profundamente estudado na psicologia e em outras ciências sociais. Tradicionalmente, as estatísticas e políticas públicas têm se concentrado, com razão histórica, na proteção das mulheres, que são desproporcionalmente afetadas pela violência de gênero. No entanto, ao fazermos isso, podemos, acidentalmente, deixar na sombra outros tipos de violência doméstica, inclusive aquela que vitimiza homens.
Do ponto de vista psicológico, a teoria do trauma e do estresse pós-traumático (TEPT) não escolhe gênero. Homens que sofrem violência em relacionamentos também podem apresentar sintomas como ansiedade, depressão e dificuldades de confiança, conforme destacado por autores como Judith Herman (1992), em seus estudos sobre trauma.
Além disso, a psicologia social nos ensina que a invisibilização de certas vítimas pode criar uma sensação de isolamento e vergonha, dificultando ainda mais a busca por ajuda. O conceito de “masculinidade tóxica” muitas vezes impede que homens admitam que foram vítimas, reforçando estereótipos de gênero. Como afirmam Levant e Wong (2017), as normas de gênero tradicionais podem levar ao silenciamento de experiências masculinas de vitimização.
Isso não significa, de forma alguma, minimizar ou desviar o foco da gravidade da violência contra mulheres. Pelo contrário, trata-se de ampliar a visão para reconhecer que a violência doméstica, independentemente de quem seja a vítima, é uma violação dos direitos humanos. Ignorar outras vítimas pode criar lacunas no apoio psicológico e social disponível.
Em termos de referências, pode-se citar a obra de Michael Johnson (2008), que aborda os diferentes tipos de violência conjugal e como a “violência situacional” pode afetar ambos os gêneros, embora com dinâmicas distintas. Ao trazer esses autores, demonstra-se que a psicologia reconhece a complexidade do fenômeno e a necessidade de uma visão humanitária universal.
Ao concluir, é fundamental trazer essa comparação mais ampla como forma de alerta para que as autoridades possam, de fato, mapear a violência doméstica de acordo com os direitos humanos.
Em 2024, houve cerca de 1.492 feminicídios dentro de um total de 2.422 homicídios femininos, ou seja, os feminicídios representam 62% do total de homicídios contra mulheres.
Ao mesmo tempo, de acordo com o Atlas da Violência, o número de homicídios masculinos continua muito maior em termos absolutos, representando a maior parte dos homicídios totais, que foram cerca de 35.365. Assim, mesmo que se considerasse metade do impacto do feminicídio no número de homicídios masculinos, ou seja, 31% (metade dos 62% dos feminicídios), teríamos aproximadamente 10.963 casos.
Agora, se compararmos o número de 1.492 feminicídios com o total de 35.365 homicídios masculinos, poderíamos afirmar que os feminicídios representam cerca de 4,21% em relação ao total de homicídios masculinos. Seguindo essa lógica comparativa, se projetarmos esse mesmo percentual de 4,21% para homicídios masculinos provocados por companheiras, já que esses dados não existem de forma sistematizada, isso representaria aproximadamente 1.488 homicídios masculinos.
Como pode ser observado, os valores projetados são muito próximos. No entanto, nunca houve, em nível nacional, um levantamento contínuo, padronizado e público que permita responder, ano a ano, quantos homens foram mortos por companheiras ou ex-companheiras no Brasil.
Fazendo uma projeção hipotética para os próximos dez anos, caso essas tendências se mantenham, continuaremos vendo um impacto demográfico e social considerável. Mesmo que o número de nascimentos anuais, em torno de 2,6 a 2,7 milhões, ainda supere amplamente os homicídios, cada vida perdida, seja de homem ou de mulher, representa um impacto profundo na estrutura social e familiar.
Assim, esta análise não apenas reforça a urgência de combater o feminicídio, mas também de olhar para a violência de forma mais ampla, reconhecendo que todas as vidas importam e que a proteção dos direitos humanos deve ser universal.
A psicologia e as ciências sociais têm o papel de lançar luz sobre essas dinâmicas e de promover políticas inclusivas que considerem todas as formas de violência. Entretanto, isso deve ser feito com cuidado e rigor científico, por meio da análise de dados robustos, já que a projeção anteriormente apresentada é falaciosa, ou melhor, fantasiosa, sem embasamento consistente frente aos números mundiais já estruturados.
Em nível global, a relação entre homicídios e parceiro íntimo revela diferenças marcantes de gênero. Estudos apontam que cerca de 38,6% das mulheres assassinadas foram mortas por seus parceiros íntimos, ao passo que apenas 6,3% dos homens vítimas de homicídio sofreram esse tipo de violência. Outro relatório do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) indica que, no plano global, quase metade das vítimas femininas de homicídio são mortas por parceiros íntimos ou membros da família, enquanto essa proporção para homens é de pouco mais de 1 em 20. Isso evidencia que, embora os homens representem a maioria das vítimas de homicídio em geral, eles são muito menos frequentemente mortos por parceiros íntimos do que as mulheres.
No Brasil, a situação é agravada por lacunas nos sistemas de registro. Não há uma série nacional sistemática que identifique quantos homens foram assassinados por companheiras ou ex-companheiras, o que dificulta comparações precisas. Essa ausência de dados consistentes impede a avaliação confiável do impacto desse fenômeno sobre vítimas masculinas e limita a construção de políticas públicas eficazes para todos os gêneros. A partir do panorama internacional, pode-se inferir que, mesmo onde houver homicídios de homens por parceiras íntimas, sua proporção tende a ser significativamente menor que a observada entre mulheres vítimas de parceiros íntimos. Ainda assim, sem estatísticas claras no Brasil, essas inferências permanecem como estimativas e não como fatos documentados.
Reconhecer a gravidade do feminicídio não é apenas uma obrigação ética, mas um dever civilizatório. No entanto, a maturidade social se constrói quando se compreende que a violência, em todas as suas formas, é o oposto da humanidade. O sofrimento não tem gênero, e o papel da psicologia é justamente enxergar onde a dor se manifesta, ainda que silenciosa, ainda que minoritária, e intervir com sensibilidade, técnica e empatia.
Combater o feminicídio é urgente, mas enfrentar todo e qualquer tipo de violência é essencial para restaurar o tecido social. O compromisso do psicólogo, portanto, é não hierarquizar sofrimentos, mas acolher e compreender que cada ferida humana, seja de uma mulher silenciada ou de um homem invisível, representa um chamado à responsabilidade coletiva de prevenir, cuidar e educar para a paz.
Até a próxima…
- • MAY, Rollo. A busca do homem por si mesmo. Petrópolis: Vozes, 2017.
- • YALOM, Irvin D. O carrasco do amor e outras histórias sobre psicoterapia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
- • SELIGMAN, Martin. Florescer: uma nova compreensão da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
- • HERMAN, Judith. Trauma and Recovery. New York: Basic Books, 1992.
- • LEVANT, Ronald F.; WONG, Y. Joel. The Psychology of Men and Masculinities. Washington, DC: American Psychological Association, 2017.
- • JOHNSON, Michael P. A Typology of Domestic Violence: Intimate Terrorism, Violent Resistance, and Situational Couple Violence. Boston: Northeastern University Press, 2008.
- • UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). Global Study on Homicide: Gender-related killing of women and girls. Vienna: United Nations, 2023.
- • FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024.
- • IPEA / ATLAS DA VIOLÊNCIA. Violência por Gênero e Homicídios no Brasil. Brasília: IPEA, 2024.
- • SAGE Journals. Gender Differences in Intimate Partner Homicide: A Global Perspective. 2021. DOI: 10.1177/10887679211047445.