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Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

O impacto psicológico e econômico do trabalho no Brasil

Análise de como impostos, encargos e políticas assistenciais afetam o valor do trabalho, a motivação e a autonomia dos brasileiros

Aline Teixeira

14/01/2026 15h02

trabalhadora

Foto: Freepik

A coluna desta semana foi um desafio: unir minhas duas formações, de um lado o economista e do outro o psicólogo, para analisar o atual cenário contemporâneo em que o Brasil vive um dilema moral e estrutural em torno do trabalho.

O discurso político simplifica a complexa teia de relações entre empregadores, empregados e Estado, atribuindo aos primeiros a responsabilidade pelos baixos salários e pela escassez de empregos. Essa simplificação ignora o sistema de encargos, tributos e políticas públicas que desincentivam o trabalho produtivo e criam uma cultura de dependência emocional e econômica.

A presente reflexão propõe um diálogo entre psicologia e economia, ciências humanas que, ao se cruzarem, revelam a verdadeira natureza do problema: a perda do sentido do trabalho como fator de dignidade e autorrealização. A questão central não é apenas econômica, mas também psicológica e moral, uma crise de motivação e de propósito que atravessa as camadas sociais e corrói o tecido produtivo nacional.

O peso econômico e a alienação do trabalho vêm sendo objeto de estudo e de manobra política há anos, com as mais diversas narrativas. O trabalho, segundo Marx, é a essência da vida social, a atividade pela qual o homem transforma o mundo e a si mesmo. Contudo, nas sociedades onde o Estado impõe sobre o trabalho uma carga excessiva de impostos e encargos, essa atividade deixa de ser expressão de liberdade e passa a ser instrumento de servidão fiscal, o que claramente não é falado pelos defensores de Marx.

Para se ter uma ideia, no Brasil, um salário de R$ 4.000,00, que já representa um valor médio acima da realidade de boa parte dos trabalhadores formais, custa ao empregador mais de R$ 6.300,00 mensais, considerando encargos e provisões legais.

O trabalhador, por sua vez, recebe líquido em torno de R$ 3.470,00, após descontos de INSS e Imposto de Renda.

A tabela abaixo ilustra, grosso modo, esse desequilíbrio estrutural:

Descrição
Trabalhador
Empregador (Setor de Serviços)

Salário bruto
R$ 4.000,00
R$ 4.000,00

Descontos (INSS + IRRF)

  • R$ 527,83

Salário líquido
R$ 3.472,17

Encargos patronais (INSS, FGTS, Sistema “S”, etc.)

R$ 1.492,00

Provisões (13º, férias, 1/3 constitucional)

R$ 839,80

Custo total mensal para a empresa

R$ 6.331,80

A diferença de quase R$ 3.000,00 entre o que o empregador paga e o que o empregado recebe demonstra uma ineficiência estrutural que, do ponto de vista psicológico, destrói o vínculo de confiança e reciprocidade no ambiente de trabalho. O empresário sente-se punido por empregar, e o trabalhador sente-se injustiçado por receber menos do que imagina merecer.

Esse abismo cria um fenômeno descrito por Erich Fromm como alienação dupla: o homem alienado de seu trabalho e o empregador alienado do sentido social de produzir. Ambos tornam-se vítimas de uma estrutura intermediária, o Estado, que captura o fruto da relação produtiva em nome da justiça social, mas redistribui sem critério de eficiência.

Assim, é preciso entender um pouco mais a respeito da psicologia moral do trabalho e o enfraquecimento da virtude produtiva. A psicologia humanista, representada por Abraham Maslow e Carl Rogers, compreende o trabalho como uma das formas mais profundas de autoexpressão e autorrealização. Trabalhar não é apenas sobreviver, é afirmar-se no mundo. Contudo, em contextos onde o esforço não é recompensado, a motivação se desloca da esfera interna (autonomia, propósito, crescimento) para a esfera externa (benefícios, assistencialismo e segurança).

O Estado paternalista cria o que se pode chamar de anestesia moral do trabalho, uma redução do impulso de se superar. A psicologia positiva e a neurociência da motivação indicam que o cérebro humano responde a recompensas percebidas como justas e proporcionais ao esforço. Quando o sujeito recebe benefício sem contrapartida produtiva, há uma dissociação entre mérito, recompensa e dopamina, neurotransmissor da motivação, que passa a ser estimulada não pelo esforço, mas pela expectativa de ganho passivo, gerando inclusive a sensação de obrigação por parte do Estado ou do empresariado de sustentar os benefícios, independentemente do trabalho.

Em termos sociais, isso gera apatia, resignação e conformismo. A economia, por sua vez, percebe o reflexo disso em queda de produtividade, redução da inovação e retração do mercado de trabalho formal. Assim, o problema é simultaneamente psicológico e econômico, revelando uma patologia sistêmica: a dessensibilização da vontade de trabalhar.

A economia comportamental e o desenho dos incentivos, de acordo com Richard Thaler e Daniel Kahneman, demonstraram que os comportamentos econômicos são guiados por percepções, e não por cálculos racionais. Assim, quando o governo estabelece políticas de transferência de renda sem contrapartidas, como o Bolsa Família em sua configuração atual, ele altera a percepção de valor do trabalho.

Para famílias que recebem o benefício, especialmente em regiões de baixo custo de vida, o retorno marginal de ingressar no mercado formal torna-se irrisório. Trabalhar implica perder o benefício, pagar transporte e alimentação, submeter-se à hierarquia e, muitas vezes, ganhar apenas um pouco mais do que já recebiam sem trabalhar. Em termos psicológicos, o cérebro racionaliza: “não vale a pena”.

Essa armadilha cognitiva, conhecida como incentivo inverso, cria um paradoxo: o Estado, ao pretender reduzir a pobreza, consolida um modelo de dependência emocional e econômica que mina o senso de autonomia e responsabilidade pessoal. É a economia comportamental aplicada à alienação coletiva, e a psicologia social confirma que tal processo destrói o senso de agência, de propósito e de pertencimento.

Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, descreve como os grupos humanos projetam em figuras externas a culpa por seus sofrimentos. No Brasil, o empresário tornou-se esse bode expiatório. O governo, ao culpá-lo pelos baixos salários e pela escassez de empregos, por meio de uma narrativa falaciosa, desloca de si mesmo a responsabilidade por uma política fiscal sufocante e por uma máquina pública ineficiente.

Essa estratégia é eficaz psicologicamente porque ativa o instinto de justiça moral das massas. O trabalhador, sentindo-se explorado, encontra no empresário o inimigo visível; o Estado, o verdadeiro predador invisível, é visto como protetor. Trata-se de um mecanismo clássico de manipulação social, que perpetua o ressentimento e o antagonismo entre classes produtivas, impedindo o diálogo racional.

A consequência psicológica é devastadora: gera-se uma sociedade em que o mérito é criminalizado e o esforço é visto como ingenuidade. A autoestima coletiva se deteriora, e o trabalho, antes símbolo de dignidade, torna-se sinônimo de submissão. A psicologia moral chama isso de inversão de valores, um fenômeno em que o vício se mascara de virtude e a dependência se traveste de direito.

A convergência entre psicologia e economia permite compreender que a crise brasileira é, acima de tudo, uma crise de sentido. O trabalho perdeu seu caráter simbólico de construção do eu e passou a ser medido apenas em termos de custo ou benefício. O Estado, ao intervir excessivamente, rompe o vínculo entre esforço e realização.

A verdadeira justiça social não é redistributiva, mas formativa. Ela emerge quando o Estado cria condições para que o indivíduo cresça, e não quando substitui o indivíduo em sua responsabilidade. Assim como o psicólogo não cura pelo paciente, mas o ajuda a desenvolver recursos internos, o Estado não deve sustentar o cidadão, mas capacitar sua autonomia.

O trabalho, quando vivido com propósito e reconhecimento, é uma das formas mais puras de saúde mental. O desemprego assistido, ao contrário, é uma forma de atrofia psíquica, uma paralisia da vontade, mascarada de conforto.

A análise conjunta das ciências psicológicas e econômicas revela que o problema do emprego no Brasil é menos uma questão de oferta e demanda e mais uma questão de estrutura mental e moral. O excesso de encargos destrói o estímulo de contratar, e o excesso de subsídios destrói o estímulo de trabalhar.

Enquanto o Estado insistir em um modelo paternalista e punitivo, a economia continuará travada e o indivíduo continuará alienado. A libertação do trabalhador não virá de novos auxílios, mas da restauração simbólica do trabalho como valor central da vida humana. Um país só é livre quando seus cidadãos preferem o desafio da autonomia ao conforto da dependência.

Assim, psicologia e economia convergem em uma mesma verdade: trabalhar é existir de forma ativa.

Negar o valor do trabalho é negar a própria condição humana, ou, uma excelente forma de dependência… fica a dica…

Até a próxima…

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