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Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

O Alzheimer e o colapso da memória e da temporalidade

Da deposição silenciosa de proteínas à ruptura da narrativa autobiográfica, como a doença compromete o lembrar, o situar-se no tempo e a continuidade do self

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

24/09/2026 11h37

old woman confronting alzheimer disease

Foto: Magnific

Falamos de temporalidade na última coluna, e, quando tocamos nesse assunto, é impossível não pensar na doença de Alzheimer, que constitui a principal causa de demência no envelhecimento e representa um dos fenômenos mais complexos da neurologia e da neuropsicologia contemporâneas. Assim, dada a importância do assunto, peço licença às amigas leitoras e aos amigos leitores para aprofundar um pouco mais o tema na coluna desta semana, com um texto mais longo do que o de costume.

Longe de ser um processo súbito, sua instalação é lenta, silenciosa e biologicamente progressiva, podendo iniciar-se décadas antes do aparecimento dos primeiros sintomas clínicos. O quadro atualmente compreendido como Alzheimer resulta da interação entre alterações proteicas, perda sináptica, neuroinflamação, disfunção metabólica, desorganização de grandes redes cerebrais e colapso progressivo dos sistemas responsáveis pela memória, pela orientação temporal e pela continuidade autobiográfica do self. Dessa forma, compreender a doença exige ultrapassar a visão restrita de “perda de memória” para reconhecê-la como uma desorganização progressiva da arquitetura neurocognitiva que sustenta a experiência humana no tempo.

Nos modelos contemporâneos da fisiopatologia do Alzheimer, um dos eventos mais precoces envolve a alteração no metabolismo da proteína beta-amiloide. Essa proteína deriva da clivagem da APP (amyloid precursor protein) e, em condições fisiológicas, sua produção e eliminação mantêm-se em relativo equilíbrio. Quando esse balanço é rompido, fragmentos de beta-amiloide passam a se acumular progressivamente no tecido cerebral, formando agregados extracelulares conhecidos como placas amiloides, um dos marcadores neuropatológicos clássicos da doença. O aspecto mais importante desse processo é seu caráter inicialmente assintomático: a deposição amiloide pode começar vinte ou até trinta anos antes da manifestação clínica evidente, configurando uma longa fase pré-clínica em que a neurodegeneração já se encontra em curso, ainda que o paciente preserve um funcionamento aparentemente normal (Sperling et al., 2010; Jack et al., 2010).

Paralelamente ao acúmulo amiloide, desenvolve-se outro processo central: a alteração patológica da proteína tau. Em condições normais, a tau estabiliza os microtúbulos neuronais e contribui para o transporte intracelular. No Alzheimer, porém, essa proteína sofre hiperfosforilação, perde sua função fisiológica e passa a formar agregados intraneuronais conhecidos como emaranhados neurofibrilares. Esses emaranhados comprometem a comunicação sináptica, prejudicam o transporte intracelular e reduzem progressivamente a viabilidade neuronal. Se as placas amiloides marcam um importante eixo da patologia, os agregados de tau mostram-se particularmente decisivos para a progressão anatômica dos danos e para a correlação com o declínio cognitivo observado clinicamente (Braak & Braak, 1991; Goedert, Eisenberg & Crowther, 2017).

A topografia inicial dessa degeneração não é aleatória. Em grande parte dos casos, a doença começa em regiões extremamente específicas do sistema temporal medial, sobretudo no córtex entorrinal e no córtex transentorrinal. Essas áreas exercem papel fundamental como porta de entrada das informações para o hipocampo e participam intensamente da memória episódica, da aprendizagem e da orientação espacial. O acometimento precoce dessas estruturas ajuda a explicar por que a dificuldade em registrar eventos recentes costuma ser um dos primeiros sinais clínicos. O paciente começa a esquecer conversas recém-ocorridas, repete perguntas, mostra dificuldade para aprender novas informações e passa a apresentar pequenas falhas de orientação temporal que, num primeiro momento, podem ser confundidas com o envelhecimento habitual, mas que progressivamente revelam um padrão neurodegenerativo específico.

A progressão anatômica da doença foi classicamente descrita nos estágios de Braak, modelo neuropatológico que demonstra relativa previsibilidade na expansão da patologia. Nos estágios I e II, correspondentes à fase pré-clínica, os primeiros agregados de tau aparecem no córtex transentorrinal e no córtex entorrinal, frequentemente sem sintomas claros, ainda que alterações biológicas importantes já estejam em curso. Nos estágios III e IV, a patologia se estende ao hipocampo, ao sistema límbico e a regiões temporais mediais, tornando-se mais compatível com manifestações clínicas iniciais, muitas vezes enquadradas no comprometimento cognitivo leve, especialmente quando há prejuízo predominante da memória episódica. Nos estágios V e VI, a neurodegeneração alcança amplas áreas associativas do córtex frontal, parietal e temporal, levando ao comprometimento da linguagem, do planejamento, da orientação visuoespacial, do comportamento e, por fim, da autonomia funcional. Em fases avançadas, a manutenção de uma cognição normal torna-se incompatível com a magnitude da degeneração cortical disseminada (Braak & Braak, 1991).

Embora os eixos amiloide e tau constituam o núcleo da neuropatologia, a progressão do Alzheimer não pode ser explicada apenas por esses dois elementos. Diversos mecanismos celulares interagem de modo dinâmico ao longo da doença. Entre eles, destaca-se a neuroinflamação, caracterizada pela ativação da micróglia e dos astrócitos, que passam a liberar mediadores inflamatórios e contribuem para a amplificação do dano neural. Somam-se a isso o estresse oxidativo, marcado pela produção excessiva de radicais livres, a disfunção mitocondrial, que compromete a produção energética neuronal, e a perda sináptica, frequentemente considerada um dos melhores correlatos diretos do declínio cognitivo. De fato, antes mesmo da morte neuronal em larga escala, já se observa um dano significativo nas sinapses, o que ajuda a compreender por que alterações cognitivas podem surgir precocemente, antes que a atrofia estrutural maciça esteja plenamente estabelecida.

A temporalidade biológica da doença, conforme demonstrado por estudos de neuroimagem e biomarcadores, sugere uma sequência relativamente coerente: primeiro surge a deposição de amiloide, ainda décadas antes do diagnóstico; depois ocorre a propagação da tau; em seguida aparecem a perda sináptica progressiva e a atrofia hipocampal; por fim, os sintomas clínicos tornam-se evidentes, sobretudo com déficits de memória recente e de aprendizagem. Essa cronologia reforça a ideia de que o Alzheimer é um processo de longa incubação neurobiológica, o que tem implicações profundas tanto para o rastreamento precoce quanto para o entendimento de sua história natural (Jack et al., 2010; Sperling et al., 2010).

Nas últimas décadas, ganhou força a hipótese de que a proteína tau se propaga de maneira semelhante ao que ocorre nas doenças priônicas, embora com diferenças conceituais e biológicas importantes. No chamado modelo prion-like, proteínas tau mal dobradas funcionariam como moldes patológicos capazes de induzir outras proteínas tau normais a assumir conformações anormais. Uma vez agregada dentro do neurônio, a tau patológica poderia ser liberada no espaço extracelular, captada por neurônios vizinhos e disseminada ao longo de circuitos sinápticos conectados. Esse mecanismo explicaria por que a progressão da doença segue trajetórias anatômicas relativamente previsíveis, começando no córtex entorrinal, alcançando o hipocampo, expandindo-se para o sistema límbico e, depois, para áreas associativas temporais, frontais e parietais. Estudos experimentais e achados em PET para tau oferecem forte sustentação a esse modelo, mostrando que a propagação patológica acompanha redes neuronais já existentes e coincide com o surgimento gradual dos sintomas clínicos (Walker & Jucker, 2015; Goedert, Eisenberg & Crowther, 2017).

Do ponto de vista neuropsicológico, essa progressão anatômica ajuda a compreender a sequência típica dos déficits cognitivos. Na fase inicial, predominam comprometimentos da memória episódica recente e da aprendizagem de novas informações, refletindo o acometimento do córtex entorrinal e do hipocampo. O paciente esquece conversas recentes, repete perguntas e apresenta desempenho rebaixado em tarefas de memória verbal, evocação tardia e aprendizagem de listas. Na fase intermediária, com maior comprometimento do córtex temporal e de estruturas límbicas, surgem dificuldades de linguagem, anomia, prejuízo da memória semântica e, em alguns casos, falhas no reconhecimento de pessoas ou objetos. Na fase avançada, quando o córtex pré-frontal e as regiões parietais se tornam mais gravemente afetados, observam-se declínio das funções executivas, apraxias, prejuízo no planejamento, dificuldade de tomada de decisão e desorientação espacial significativa. Em síntese, a neuropsicologia mostra que a trajetória clínica da doença espelha a expansão anatômica da patologia cerebral.

Um dos aspectos mais fascinantes e clinicamente relevantes do Alzheimer é sua relação com a percepção do tempo. Como discutido anteriormente, o hipocampo não participa apenas da memória episódica, mas também da organização temporal dos eventos vividos. Pesquisas recentes indicam a existência de neurônios chamados time cells, capazes de contribuir para a codificação de quando algo ocorreu dentro de uma sequência experiencial. Quando as redes hipocampais e entorrinais começam a se degenerar, essa organização temporal se fragmenta. O paciente passa a ter dificuldade em situar eventos na cronologia da vida, não percebe adequadamente quanto tempo passou desde determinada situação, confunde épocas distintas e pode repetir a mesma pergunta por não conseguir consolidar a sequência temporal entre a resposta recebida e o momento atual. Assim, o Alzheimer pode ser entendido não apenas como uma doença da memória, mas também como uma doença da desorganização da temporalidade subjetiva.

Esse quadro se articula diretamente com a alteração da memória autobiográfica. Em muitos pacientes, as memórias remotas permanecem relativamente preservadas por mais tempo, enquanto as lembranças recentes se deterioram precocemente. Esse padrão, compatível com o gradiente temporal de Ribot, faz com que o indivíduo por vezes pareça “habitar” uma fase anterior de sua história, confundindo passado e presente. A linha temporal da vida se rompe, e a experiência subjetiva deixa de se organizar como narrativa contínua. Essa ruptura não é meramente mnemônica; ela afeta o senso de identidade, a capacidade de reconhecer a própria trajetória e a continuidade psicológica da existência.

Nesse contexto, torna-se essencial considerar também o papel da Default Mode Network, uma rede cerebral amplamente envolvida na memória autobiográfica, no pensamento autorreferencial, na imaginação do futuro e na construção da identidade pessoal. Descrita classicamente por Raichle e colaboradores, essa rede inclui regiões como o córtex cingulado posterior, o córtex pré-frontal medial, o precuneus e conexões com o hipocampo. Estudos com PET e fMRI demonstraram que áreas da Default Mode Network apresentam acúmulo preferencial de beta-amiloide, provavelmente em razão de seu alto metabolismo e de sua intensa atividade sináptica. Essa vulnerabilidade ajuda a explicar por que o Alzheimer afeta tão profundamente a autobiografia, a orientação temporal e a organização narrativa do self (Raichle et al., 2001; Buckner et al., 2005; Raichle, 2015).

Um dos hubs mais precoces a apresentar alterações metabólicas é o córtex cingulado posterior, região crítica para a integração entre memória e consciência. Quando sua atividade se reduz, começam a aparecer dificuldades de evocação episódica, falhas de orientação temporal e enfraquecimento da narrativa autobiográfica. Com a progressão da doença, ocorre perda da conectividade funcional entre os diferentes nós da rede, acompanhada de perda sináptica e degeneração estrutural. Em termos neuropsicológicos, isso significa que o cérebro perde progressivamente a capacidade de integrar passado, presente e futuro em uma história coerente. Por essa razão, alguns autores descrevem o Alzheimer como uma doença da rede autobiográfica, pois atinge precisamente os sistemas neurais que sustentam a continuidade psicológica da vida.

Além dos mecanismos proteicos e das grandes redes cerebrais, pesquisas contemporâneas vêm atribuindo importância crescente ao sistema glinfático. Trata-se de um mecanismo de limpeza cerebral dependente do fluxo do líquido cefalorraquidiano através de vias paravasculares, com participação crucial dos astrócitos e dos canais de água aquaporina-4. Esse sistema atua na remoção de resíduos metabólicos, incluindo beta-amiloide, tau e outros subprodutos da atividade neuronal. Um dos achados mais impactantes da literatura recente é que o funcionamento glinfático se intensifica durante o sono profundo. Em modelos experimentais, observou-se que, durante o sono, o espaço intersticial entre os neurônios aumenta, facilitando a circulação de líquido e a eliminação de metabólitos. Xie e colaboradores demonstraram que essa depuração pode aumentar expressivamente durante o sono, sugerindo que o repouso profundo não é apenas restaurador do ponto de vista funcional, mas também essencial para a manutenção da homeostase cerebral (Iliff et al., 2012; Xie et al., 2013).

A relação entre sono, sistema glinfático e Alzheimer tornou-se uma das áreas mais promissoras da pesquisa atual. Se o cérebro não remove adequadamente a beta-amiloide e a tau, essas proteínas tendem a se acumular, favorecendo os processos neurodegenerativos. Estudos epidemiológicos e de neuroimagem em humanos mostram que a fragmentação crônica do sono, a privação de sono e a redução do sono profundo se associam a maior deposição de beta-amiloide ao longo do tempo. O envelhecimento agrava ainda mais esse cenário, pois reduz a eficiência do sistema glinfático por meio de alterações vasculares, disfunção astrocitária, mudanças nos canais de aquaporina-4 e fragmentação do sono profundo. Assim, o sono inadequado deixa de ser visto apenas como um sintoma associado e passa a ser compreendido como um possível fator contributivo para a fisiopatologia da doença (Ju, Lucey & Holtzman, 2014).

Novamente, do ponto de vista neuropsicológico, essa relação é particularmente relevante porque o sono exerce uma dupla função. Por um lado, participa ativamente da consolidação de memórias, promovendo a reorganização das informações entre o hipocampo e o neocórtex. Por outro, contribui para a manutenção da integridade neural por meio da limpeza metabólica que preserva as redes envolvidas na memória episódica, na atenção e nas funções executivas. Quando esse processo falha por anos, amplia-se o risco de degeneração progressiva dessas redes, o que ajuda a explicar por que a perda de memória recente, a desorientação temporal e o comprometimento executivo se tornam manifestações tão centrais na clínica do Alzheimer.

Em síntese, a doença de Alzheimer pode ser compreendida como um processo neurodegenerativo progressivo que se inicia décadas antes dos sintomas, marcado pelo acúmulo de beta-amiloide, pela hiperfosforilação e propagação da tau, pela neuroinflamação, pela perda sináptica e pela disfunção metabólica. Sua progressão anatômica segue padrões relativamente previsíveis, começando em estruturas entorrinais e hipocampais, estendendo-se ao sistema límbico e alcançando amplas áreas corticais associativas. Essa trajetória explica a sequência típica de déficits neuropsicológicos, desde a perda de memória episódica até a desorganização global da cognição. Ao mesmo tempo, o acometimento da Default Mode Network e das redes hipocampais responsáveis pela codificação temporal e autobiográfica revela que o Alzheimer não compromete apenas o lembrar, mas também o situar-se no tempo, o manter a coerência narrativa da própria vida e o sustentar a continuidade psicológica do self. Por fim, a crescente importância atribuída ao sistema glinfático e ao sono profundo amplia a compreensão da doença, mostrando que a neurodegeneração não decorre somente de agregados proteicos isolados, mas também da falha progressiva dos mecanismos de limpeza, integração e manutenção do cérebro. Nessa perspectiva, o Alzheimer emerge como uma doença da memória, da temporalidade e da autobiografia humana, atingindo em profundidade as bases neurais da identidade e da experiência consciente.

Até a próxima…

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