A ideia de que experiências podem atravessar gerações não é nova, mas ganha contornos científicos cada vez mais robustos à luz da epigenética. Experimentos com insetos, como aqueles popularizados pelo jovem pesquisador Jo Nagai (https://youtu.be/lRJ-T5IRBQs?si=BNsy9-4SLfO_ZPSy), sugerem que padrões aprendidos podem influenciar gerações subsequentes. Embora tais achados ainda demandem cautela interpretativa, eles dialogam com um campo mais consolidado: a herança transgeracional de traços comportamentais e respostas emocionais. No campo humano, autores como Antonio Damasio já apontam que emoção, corpo e tomada de decisão estão profundamente entrelaçados, formando aquilo que denominou “marcadores somáticos”.
A partir desse ponto, emerge uma questão inquietante: se experiências emocionais e padrões de comportamento podem ser transmitidos, seja por vias biológicas, culturais ou simbólicas, que tipo de sociedade estamos construindo quando práticas como desonestidade, instrumentalização do outro e polarização extrema passam a ser normalizadas?
A herança transgeracional, em humanos, não deve ser compreendida como uma simples transmissão de “memórias”, mas como a transferência de disposições. Estudos clássicos, como os de Dias e Ressler (2014), demonstraram que ratos condicionados ao medo de determinados estímulos geravam descendentes com maior sensibilidade aos mesmos estímulos, sugerindo mecanismos epigenéticos envolvidos.
Contudo, no caso humano, a dimensão cultural amplia exponencialmente esse fenômeno. Como argumenta Lev Vygotsky, o desenvolvimento psicológico é mediado socialmente; aprendemos não apenas conteúdos, mas formas de interpretar o mundo. Já Albert Bandura, com sua teoria da aprendizagem social, demonstra que comportamentos são modelados por observação, imitação e reforço, especialmente quando associados a recompensas.
Nesse sentido, o que se transmite entre gerações não é apenas biologia, mas um ethos coletivo.
O recente episódio envolvendo a participante Milena, no Big Brother Brasil 26, ao adulterar um alimento com resíduos para identificar um suposto “infrator”, torna-se emblemático não só por sua gravidade isolada, mas por aquilo que revela: a naturalização de estratégias moralmente questionáveis em nome de um fim percebido como legítimo.
Esse tipo de comportamento ecoa o princípio maquiavélico clássico “os fins justificam os meios”, mas também pode ser analisado à luz da teoria da frustração-agressão (Dollard et al., 1939) e dos estudos contemporâneos sobre desengajamento moral (Bandura, 1999). Quando o indivíduo percebe uma injustiça, pode reinterpretar suas próprias ações nocivas como justificáveis, neutralizando a culpa.
O problema não reside apenas no ato, mas na sua recepção social. Quando tais comportamentos são amplamente difundidos, discutidos e, por vezes, relativizados ou até celebrados, tornam-se modelos possíveis de ação.
A contemporaneidade brasileira, e não apenas brasileira, é marcada por um fenômeno crescente de polarização afetiva. Mais do que discordância ideológica, observa-se uma tendência à desumanização do outro. Quem pensa diferente deixa de ser apenas um opositor e passa a ser percebido como inimigo.
Autores como Jonathan Haidt, em sua teoria dos fundamentos morais, demonstram que diferentes grupos valorizam dimensões morais distintas, como cuidado, justiça, lealdade, autoridade e pureza. O conflito surge quando essas diferenças deixam de ser compreendidas como variações legítimas e passam a ser interpretadas como falhas morais graves.
Nesse contexto, discursos de um lado denunciam hipocrisia e incoerência do outro, enquanto o lado oposto percebe imposição de valores e ameaça à liberdade.
Ambos os movimentos, paradoxalmente, reforçam aquilo que condenam: intolerância, simplificação e radicalização.
Essa é a pergunta central, e a resposta exige cautela.
Não há evidência científica robusta de que estamos biologicamente “perdendo a moralidade”. No entanto, há indícios claros de que estamos vivendo:
maior exposição a comportamentos antiéticos normalizados
reforço social de condutas baseadas em ganho imediato
enfraquecimento de instituições mediadoras, como família, escola e comunidade
Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em uma “modernidade líquida”, na qual valores se tornam mais flexíveis, instáveis e negociáveis. Já Lawrence Kohlberg demonstrou que o desenvolvimento moral depende de estágios, sendo que níveis mais avançados exigem reflexão, empatia e internalização de princípios éticos, não apenas obediência ou conveniência.
Se o ambiente social reforça constantemente estratégias utilitaristas e individualistas, há o risco de que indivíduos permaneçam em níveis mais baixos de desenvolvimento moral, orientados por punição, recompensa ou interesse próprio.
Para Antonio Damasio, decisões morais não são puramente racionais; elas dependem de circuitos emocionais que nos permitem sentir o impacto de nossas ações no outro. Se esses circuitos são continuamente modulados por experiências de desconfiança, competição extrema e desumanização, é plausível supor que a própria arquitetura da tomada de decisão moral seja afetada.
Nesse sentido, a analogia com as borboletas ganha força não como metáfora literal, mas como alerta: não herdamos memórias específicas, mas herdamos mundos emocionais e sociais que moldam nossas escolhas.
A grande questão não é se estamos geneticamente programando a desonestidade nas próximas gerações, mas se estamos ensinando, reforçando e normalizando práticas que a tornam funcional.
Cada interação social, cada modelo exposto, cada narrativa dominante atua como um microprocesso de aprendizagem coletiva. Se o outro é constantemente visto como ameaça, se o sucesso justifica qualquer meio e se a ética é relativizada conforme a conveniência, então não será necessário um mecanismo biológico sofisticado para transmitir tais padrões. A cultura já cumprirá esse papel com eficiência.
A responsabilidade, portanto, não é apenas individual, mas profundamente coletiva.
Não se trata de escolher entre direita ou esquerda, tradição ou mudança, mas de reconhecer que qualquer sistema que abandone a alteridade e a responsabilidade ética tende a corroer suas próprias bases.
Talvez a pergunta mais importante não seja “que sociedade estamos nos tornando?”, mas sim:
Que tipo de comportamento estamos legitimando hoje que será considerado normal amanhã?
E, sobretudo,
Que tipo de ser humano estamos formando, sem perceber, a cada escolha aparentemente pequena que fazemos?
Até a próxima…
Referências
- BANDURA, Albert. Social learning theory. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1977.
- BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, v. 3, n. 3, p. 193–209, 1999.
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
- DAMASIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- DAMASIO, Antonio. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
- DIAS, Brian G.; RESSLER, Kerry J. Parental olfactory experience influences behavior and neural structure in subsequent generations. Nature Neuroscience, v. 17, p. 89–96, 2014.
- DOLLARD, John et al. Frustration and aggression. New Haven: Yale University Press, 1939.
- HAIDT, Jonathan. The righteous mind: why good people are divided by politics and religion. New York: Pantheon Books, 2012.
- KOHLBERG, Lawrence. Essays on moral development: the philosophy of moral development.
San Francisco: Harper & Row, 1981. - VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
- Big Brother Brasil – episódio envolvendo a participante Milena:
- NOTÍCIAS DA TV (UOL). Milena faz suco com lixo para descobrir ladrão de comida e leva bronca no BBB 26. Disponível em:
- https://noticiasdatv.uol.com.br/mobile/noticia/bbb/milena-faz-suco-com-lixo-para-descobrir-ladrao-de-comida-e-leva-bronca-no-bbb-
- 26-149247. Acesso em: 30 mar. 2026.