Finalizo, com esta terceira parte, a reflexão sobre a interligação entre religião e psicologia — ou melhor, sobre a importância de preservar o sagrado e a psique sem que um “evangelize” o outro, e sem que um “substitua” o outro. Ambos são dimensões complementares do ser. Para tanto, mantive-me próxima dos autores centrais, como Jung e Campbell, e acrescentei novas vozes a esse diálogo, com o intuito de ampliar o entendimento do tema para você, leitora e leitor desta coluna.
A religião, em suas múltiplas expressões culturais e históricas, constitui uma das manifestações mais complexas e persistentes da experiência humana. Para além de sua dimensão institucional e dogmática, ela reflete uma necessidade psíquica profunda: a de atribuir sentido à existência, lidar com o mistério do sofrimento e integrar as polaridades da experiência interior.
A psicologia da religião — especialmente a partir das contribuições de Carl Gustav Jung e Joseph Campbell — propõe que os mitos e símbolos religiosos não são meros produtos culturais, mas expressões do inconsciente coletivo: imagens arquetípicas que traduzem, em linguagem simbólica, movimentos fundamentais da psique em direção à totalidade. Paralelamente, pesquisas contemporâneas têm demonstrado que a espiritualidade exerce efeitos mensuráveis sobre a saúde mental, atuando como fator de resiliência, regulação emocional e promoção de bem-estar. Este artigo propõe uma análise integrada dessas perspectivas, explorando a função terapêutica dos símbolos religiosos na dinâmica psíquica e na saúde psicológica.
Carl Gustav Jung foi um dos primeiros psicólogos a reconhecer o papel estruturante da religião para a psique. Em Psicologia e Religião, argumenta que as imagens religiosas emergem espontaneamente do inconsciente coletivo e funcionam como mediadoras entre a consciência e os conteúdos inconscientes. Os arquétipos — formas universais que estruturam a experiência humana — encontram expressão simbólica nas tradições religiosas, seja na figura do Deus criador, do herói sacrificial ou da unidade cósmica.
Esses símbolos cumprem uma função essencial: oferecem ao indivíduo uma linguagem para compreender e integrar aspectos da psique que, de outra forma, permaneceriam inconscientes. Quando ignorados ou reprimidos, esses conteúdos podem manifestar-se de forma patológica; quando simbolizados adequadamente, tornam-se fontes de crescimento psicológico. Jung sustentava que a perda dos símbolos religiosos tradicionais nas sociedades modernas está associada ao aumento de estados neuróticos, pois o ser humano continua necessitando de imagens que representem sua busca por sentido e totalidade.
Joseph Campbell complementa essa visão ao analisar as mitologias e religiões sob a lente da jornada do herói — estrutura narrativa que reflete a própria dinâmica da psique rumo à individuação. Em O Herói de Mil Faces, Campbell mostra que a trajetória do herói — o chamado à aventura, a travessia do desconhecido, a morte simbólica e o renascimento — é uma metáfora universal da transformação psicológica.
As religiões monoteístas expressam essa jornada em diferentes níveis: o judaísmo simboliza a busca por estrutura e ordem; o cristianismo dramatiza a morte e o renascimento do ego; e o islamismo representa a dissolução do eu na totalidade divina. Esses mitos não são meras histórias externas, mas representações simbólicas de processos internos que todos os indivíduos, em algum grau, vivenciam ao longo da vida psíquica. Assim, a religião, ao oferecer narrativas estruturadas que dão forma a experiências inconscientes, fornece à psique instrumentos simbólicos para sua própria evolução e cura.
Além da dimensão simbólica, a religião desempenha funções terapêuticas concretas, cada vez mais estudadas pela psicologia contemporânea. A pesquisa científica tem mostrado de forma consistente que a espiritualidade está associada a maiores níveis de bem-estar subjetivo, resiliência e satisfação com a vida, além de menores índices de depressão, ansiedade e suicídio (Koenig, 2012; Pargament, 2007).
A espiritualidade fornece ao indivíduo um sistema de significados que permite interpretar o sofrimento dentro de um contexto mais amplo, reduzindo sua carga emocional negativa. Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, demonstrou que a capacidade de encontrar propósito no sofrimento é um dos fatores mais poderosos na preservação da saúde mental, especialmente em contextos de trauma. As tradições religiosas, ao oferecerem narrativas que explicam o sofrimento e apontam caminhos de transcendência, contribuem diretamente para essa ressignificação terapêutica.
Outro aspecto fundamental é a dimensão comunitária da religião. A participação em práticas religiosas oferece ao indivíduo um senso de pertencimento e suporte social — fatores reconhecidamente protetores contra transtornos mentais. Pesquisas indicam que indivíduos engajados em comunidades religiosas apresentam menor risco de depressão e maior capacidade de enfrentamento em situações de estresse (Hood et al., 2018).
Além disso, os rituais coletivos funcionam como espaços simbólicos de elaboração emocional e integração psíquica. A oração comunitária, os ritos de passagem e as celebrações litúrgicas são mais do que práticas culturais: são mecanismos simbólicos que auxiliam na regulação emocional e promovem coesão e sentido compartilhado.
No campo neurocientífico, estudos recentes têm revelado correlações significativas entre práticas espirituais e mudanças estruturais e funcionais no cérebro. Pesquisas com neuroimagem mostram que a meditação religiosa e a oração ativam regiões associadas à autorregulação emocional, empatia e percepção de significado — como o córtex pré-frontal e o sistema límbico (Newberg & Waldman, 2016). Essas descobertas sugerem que a espiritualidade não atua apenas no plano simbólico ou subjetivo, mas também influencia diretamente os circuitos neurais ligados ao bem-estar psicológico.
Tais evidências reforçam a hipótese de que a religião, ao fornecer narrativas simbólicas e práticas ritualísticas, opera como um sistema integrador que conecta dimensões cognitivas, emocionais, sociais e neurobiológicas do funcionamento humano.
As três grandes religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islamismo — ilustram, em níveis distintos, essa função integradora. O judaísmo, ao enfatizar a lei, a ordem e a justiça, fornece estruturas simbólicas que ajudam o indivíduo a organizar sua experiência e estabelecer limites saudáveis para o ego. O cristianismo, com sua mensagem de perdão, amor e renascimento, oferece imagens poderosas para a transformação interior e a superação de traumas. Já o islamismo, ao destacar a submissão ao absoluto e a unidade do ser, propõe práticas que facilitam a transcendência do ego e a experiência de conexão com algo maior.
Cada uma dessas tradições apresenta caminhos simbólicos e práticos para a elaboração de conflitos internos e para a promoção da saúde mental. Suas diferenças refletem variações arquetípicas de uma mesma busca universal: a integração da psique e a reconciliação com o mistério da existência.
A análise simbólica do inconsciente e os estudos contemporâneos sobre espiritualidade convergem em um ponto fundamental: a religião possui um potencial terapêutico que vai muito além do conforto emocional. Ela atua como mediadora entre os níveis consciente e inconsciente da psique, como sistema simbólico que organiza a experiência humana e como prática que impacta positivamente a saúde mental e física.
Em tempos marcados por crises de sentido e pelo aumento dos transtornos psíquicos, recuperar a dimensão simbólica e terapêutica das tradições religiosas pode oferecer caminhos valiosos para a psicologia clínica, a psicoterapia e as políticas públicas de saúde. Mais do que sistemas de crenças, as religiões são mapas do inconsciente, instrumentos de cura e pontes entre o humano e o transcendente.
Até a próxima.
Referências
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 2007. CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Vol. I-IV. São Paulo: Pensamento, 1992. CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2000.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2011.
HOOD, R. W.; HILL, P. C.; SPILKA, B. The Psychology of Religion: An Empirical Approach. 5. ed. New York: Guilford Press, 2018.
JAMES, William. As Variedades da Experiência Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
JUNG, C. G. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 2013. KOENIG, Harold G. Religion, Spirituality, and Health: The Research and Clinical Implications. ISRN Psychiatry, v. 2012, p. 278730, 2012.
NEWBERG, Andrew; WALDMAN, Mark. How God Changes Your Brain. New York: Ballantine Books, 2016.
OTTO, Rudolf. O Sagrado. Petrópolis: Vozes, 2007.
PARGAMENT, Kenneth I. Spiritually Integrated Psychotherapy: Understanding and Addressing the Sacred. New York: Guilford Press, 2007.