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Ciência da Psicologia
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Entre o raciocínio e o risco: Kahneman, o Brasil e o jogo psicológico da economia

Como vieses cognitivos, enquadramentos emocionais e aversão à perda ajudam a explicar as escolhas econômicas, o comportamento do eleitorado e as tensões fiscais no Brasil contemporâneo

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

21/01/2026 15h23

close up people connecting through hands

Foto: Freepik

No debate econômico contemporâneo, ainda reina a crença de que as pessoas decidem com base em lógica e cálculo racional. Daniel Kahneman, psicólogo laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2002, desmontou essa ilusão ao mostrar que a mente humana opera em dois sistemas: um rápido, intuitivo e emocional, e outro lento, reflexivo e analítico. Sua Teoria da Perspectiva revelou que não reagimos a ganhos e perdas de modo simétrico. A dor de perder pesa mais do que o prazer de ganhar.

Esse pequeno desequilíbrio emocional explica boa parte das decisões econômicas que, vistas de fora, parecem irracionais, e explica, talvez, muito do que o Brasil vive hoje. Sob um governo de orientação à esquerda, que tenta equilibrar ideais de redistribuição com as amarras fiscais de uma economia complexa, o país se vê diante de um dilema cognitivo e político. As políticas públicas precisam produzir sensação de ganho sem disparar o medo da perda, e isso é um jogo de enquadramentos. Quando a política é comunicada como “proteção social”, ela ativa o sistema emocional de empatia e pertencimento, mas quando é percebida como “aumento de gasto” ou “afrouxamento fiscal”, desperta o sistema do medo e da precaução.

Kahneman já havia advertido: o modo como uma escolha é apresentada molda a forma como ela é vivida. Na economia, framing é tudo.

Entretanto, o que torna o caso brasileiro mais intricado é o uso político dessa arquitetura mental. O país ultrapassou, em 2024, a marca simbólica em que o número de pessoas beneficiadas direta ou indiretamente por programas sociais superou o contingente de trabalhadores formais com carteira assinada. Isso não é apenas um dado econômico, é um dado psicológico e eleitoral.

Numa sociedade em que mais da metade da população depende, de alguma forma, de transferência, o ponto de referência, conceito central em Kahneman, muda radicalmente. O bem-estar deixa de ser medido pelo progresso absoluto e passa a ser definido pela manutenção do benefício recebido. A aversão à perda, nesse contexto, torna-se um ativo político: quem tem medo de perder o auxílio tende a apoiar quem promete mantê-lo, mesmo que a economia emperre.

Essa dinâmica cria um ciclo comportamental que ultrapassa a economia formal. A dependência de incentivos sociais reforça o sistema 1, o pensamento rápido, movido por emoção e necessidade imediata, e enfraquece o sistema 2, o pensamento lento, analítico, voltado ao longo prazo. A consequência é um eleitorado que responde mais à narrativa de segurança do que à lógica de sustentabilidade fiscal. É o “voto aversivo à perda”: não se vota pelo que se pode ganhar, mas pelo medo de perder o pouco que se tem.

Evidentemente, a questão não é negar a importância dos programas sociais, muito pelo contrário, eles são fundamentais num país ainda marcado por desigualdades históricas, mas reconhecer como são manobrados politicamente. A retórica de redistribuição funciona como enquadramento emocional: substitui o debate sobre produtividade e eficiência por um discurso moral, no qual qualquer crítica soa como insensibilidade. Aqui, o uso estratégico do framing é evidente: transforma decisões fiscais em escolhas morais e a responsabilidade orçamentária em suposto egoísmo.

Nesse ambiente, o governo caminha num fio de navalha. De um lado, precisa manter o capital político junto às bases beneficiadas; de outro, precisa convencer investidores e setores produtivos de que há racionalidade e disciplina fiscal. A tensão se agrava porque cada grupo reage de forma distinta ao mesmo estímulo: um vê política social como proteção, o outro como risco. Essa é a essência do ruído que Kahneman descreve em Noise (2021), a variabilidade caótica de julgamentos humanos diante de informações idênticas.

No Brasil, esse ruído é amplificado por narrativas ideológicas e pela polarização midiática. A consequência é um ambiente em que cada discurso econômico serve de gatilho para vieses distintos. A esquerda explora o viés da compaixão; a direita, o da ameaça. Ambos falam com o sistema emocional, poucos com o racional.

O resultado é um país que alterna esperança e desconfiança com a mesma intensidade, movido menos por indicadores e mais por percepções afetivas. Nesse cenário, o grande desafio do Estado brasileiro, qualquer que seja sua cor partidária, é entender que política econômica também é política comportamental.

A comunicação, os símbolos e os incentivos precisam ser projetados não apenas para gerar eficiência, mas para alinhar o imaginário social à realidade fiscal. Caso contrário, continuaremos reféns daquilo que Kahneman chamou de ilusão de validade, a sensação de certeza em julgamentos profundamente enviesados.

O Brasil, afinal, não é irracional. É apenas humano e, como mostrou Kahneman, o humano é previsivelmente imprevisível.

Até a próxima…

Referências

  • Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 47(2), 263–291.
  • Kahneman, D., & Tversky, A. (1992). Advances in Prospect Theory. Journal of Risk and Uncertainty, 5, 297–323.
  • Kahneman, D., Sibony, O., & Sunstein, C. (2021). Noise: A Flaw in Human Judgment. New York: HarperCollins.
  • IBGE (2024). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) – Indicadores de formalização do trabalho.
  • Ministério do Desenvolvimento Social (2024). Relatório de Benefícios do Programa Bolsa Família.

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