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Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

Ansiedade, depressão e apneia do sono, intersecção entre a medicina e a psicologia

Distúrbios respiratórios durante o sono impactam diretamente o funcionamento cerebral, influenciando humor, cognição e qualidade de vida, e reforçam a importância de um olhar integrado entre saúde física e mental

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

25/03/2026 15h19

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Foto: Freepik

Com colaboração do Dr. Alfredo Santana, Doutorado pela USP • Fellow da ACCP, CRM-DF 17691

Estava, esta semana, novamente conversando com o Dr. Alfredo Santana, pneumologista em Brasília, Doutorado pela USP, Fellow da ACCP, (https://dralfredo.com.br/pneumologista-brasilia/), que me relatava sobre muitos pacientes que procuram atendimento por cansaço, desânimo ou dificuldade de foco, sem suspeitar que o quadro possa estar relacionado à apneia do sono.

Ele me explicava que a relação entre distúrbios do sono e saúde mental tem recebido atenção crescente da comunidade científica da área da saúde. A apneia obstrutiva do sono, condição caracterizada por pausas repetidas da respiração durante o sono, pode estar associada a sintomas de ansiedade, depressão, irritabilidade e queda de concentração.

Assim, quando o paciente apresenta múltiplos despertares noturnos associados à queda da oxigenação, o cérebro entra em estado de estresse fisiológico. Esse mecanismo pode impactar diretamente o humor, a disposição e o desempenho cognitivo ao longo do dia.

Durante a noite, a apneia provoca interrupções repetidas do sono. Mesmo que a pessoa permaneça várias horas na cama, o descanso tende a ser superficial e fragmentado.

Esse padrão pode levar a:
• fadiga persistente
• dificuldade de memória e atenção
• irritabilidade
• sintomas ansiosos
• humor deprimido

Além disso, de acordo com o Dr. Alfredo, a dessaturação intermitente de oxigênio pode contribuir para alterações neuroquímicas que influenciam o bem-estar emocional.

Assim, trazendo para minha realidade, como especialista em neuropsicologia, concordamos que, do ponto de vista neuropsicológico, o sono possui um papel essencial na restauração metabólica do cérebro e na consolidação da memória. Durante as fases profundas do sono, especialmente o sono de ondas lentas (N3) e o sono REM, ocorrem processos fundamentais para a reorganização sináptica, a consolidação da memória e a regulação emocional.

Como bem aborda o Dr. Alfredo, quando a apneia provoca múltiplos microdespertares ao longo da noite, essas fases são fragmentadas. Como resultado, o cérebro não consegue completar adequadamente os ciclos necessários para o equilíbrio cognitivo e afetivo. Estudos em neurociência do sono demonstram que essa fragmentação interfere diretamente na plasticidade neural e na eficiência dos circuitos envolvidos na memória e na atenção (Walker, 2017; Stickgold & Walker, 2013).

Outro elemento importante é a hipóxia intermitente, ou seja, as quedas repetidas na oxigenação sanguínea que ocorrem durante os episódios de apneia. Esse fenômeno provoca ativação persistente do sistema nervoso simpático e aumento da liberação de hormônios do estresse, como o cortisol. A longo prazo, esse estado fisiológico se assemelha a um quadro de estresse crônico. Na psicologia, sabe-se que níveis elevados e prolongados de cortisol estão associados a alterações de humor, irritabilidade, dificuldades de concentração e maior vulnerabilidade à ansiedade e à depressão (McEwen, 2007; Sapolsky, 2004).

A relação entre apneia do sono e transtornos do humor também pode ser compreendida a partir da neurobiologia da regulação emocional. Regiões cerebrais como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo participam da modulação das emoções e do controle do estresse. A privação e a fragmentação do sono afetam especialmente o funcionamento do córtex pré-frontal dorsolateral, responsável pelas funções executivas, pelo controle inibitório e pela regulação das respostas emocionais.

Quando essa região apresenta menor eficiência funcional, a amígdala, estrutura relacionada à detecção de ameaças e à reatividade emocional, tende a apresentar maior ativação. Esse desequilíbrio pode levar a respostas emocionais mais intensas, maior irritabilidade e maior sensibilidade ao estresse cotidiano (Goldstein & Walker, 2014).

Nesse sentido, comentei com o Dr. Alfredo que, do ponto de vista psicológico, eu entendia e ensinava a meus alunos que essa condição também impacta a experiência subjetiva do indivíduo. Pessoas com apneia frequentemente relatam sensação persistente de exaustão, perda de motivação e dificuldade de engajamento em atividades cotidianas, como ele abordou.

Em muitos casos, esses sintomas são interpretados inicialmente como depressão ou burnout. No entanto, quando a qualidade do sono é comprometida cronicamente, ocorre uma redução significativa da energia mental necessária para manter processos de autorregulação emocional, planejamento e tomada de decisão.

Além disso, a privação de sono altera processos cognitivos centrais para a vida cotidiana. A atenção sustentada, a memória de trabalho e a velocidade de processamento são frequentemente prejudicadas. Esses déficits podem gerar dificuldades profissionais, acadêmicas e sociais, aumentando sentimentos de incompetência, frustração e baixa autoestima.

Com o tempo, essas experiências podem reforçar padrões cognitivos negativos semelhantes aos descritos nos modelos da terapia cognitivo-comportamental de Aaron Beck (1967), nos quais interpretações negativas sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro contribuem para o desenvolvimento ou agravamento de quadros depressivos.

Outro aspecto relevante envolve a interação entre sono e regulação emocional. O sono REM desempenha um papel importante na modulação das memórias emocionais e na redução da carga afetiva associada a experiências estressantes. Quando o sono REM é fragmentado, o cérebro perde parte dessa capacidade de processamento emocional noturno.

Consequentemente, experiências negativas do dia tendem a ser mantidas com maior intensidade emocional, o que pode aumentar a ruminação, a ansiedade e a reatividade psicológica.

No campo da psicologia da saúde, também se observa que a apneia do sono pode influenciar comportamentos e estilos de vida. A fadiga crônica reduz a disposição para atividades físicas, interfere na motivação para manter hábitos saudáveis e pode favorecer padrões de alimentação emocional.

Esse conjunto de fatores pode contribuir para o ganho de peso, criando um ciclo bidirecional, uma vez que a obesidade é um dos principais fatores de risco para a apneia obstrutiva do sono.

Outro ponto que merece destaque em nossa conversa é o impacto dessa condição nas relações interpessoais. A irritabilidade, a redução da paciência e a dificuldade de concentração podem afetar a qualidade das interações familiares e profissionais.

Parceiros de pessoas com apneia frequentemente relatam alterações no humor e no comportamento do indivíduo ao longo do tempo, o que pode gerar conflitos conjugais e desgaste nas relações sociais.

Por esse motivo, muitos pesquisadores defendem que a apneia do sono deve ser compreendida dentro de um modelo biopsicossocial. Nesse modelo, os fatores biológicos, como hipóxia e fragmentação do sono, interagem com aspectos psicológicos, como regulação emocional, cognições e motivação, e com fatores sociais, como desempenho profissional, relações interpessoais e qualidade de vida.

O Dr. Alfredo ainda nos ensina que, quando o tratamento adequado é realizado, especialmente com o uso de dispositivos como CPAP ou BPAP, diversos estudos mostram melhora significativa não apenas na qualidade do sono, mas também no funcionamento cognitivo, no humor e na qualidade de vida geral.

Pacientes frequentemente relatam redução da irritabilidade, melhora da concentração, aumento da energia e maior estabilidade emocional após a normalização do padrão respiratório durante o sono.

Além disso, ele nos apresenta dicas importantes e nos alerta para alguns sinais que aumentam a suspeita de apneia do sono, como, por exemplo:
• ronco alto e frequente
• pausas respiratórias observadas por familiares
• sonolência excessiva durante o dia
• acordar cansado mesmo após dormir
• dor de cabeça matinal
• dificuldade de concentração

Dessa forma, compreender a relação entre apneia do sono e saúde mental é fundamental para evitar diagnósticos incompletos. Em muitos casos, sintomas interpretados exclusivamente como psicológicos podem ter como base um distúrbio fisiológico do sono.

A integração entre pneumologia, neurologia, psiquiatria e psicologia torna-se, portanto, essencial para um diagnóstico mais preciso e para intervenções terapêuticas mais eficazes.

Em síntese, a apneia do sono não afeta apenas a respiração durante a noite. Ela interfere profundamente nos mecanismos de regulação cerebral que sustentam a memória, a atenção, o humor e a estabilidade emocional.

Por isso, investigar a qualidade do sono deve ser parte fundamental da avaliação clínica de pacientes que apresentam fadiga persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade ou sintomas ansiosos e depressivos.

Além disso, é de suma importância saber que o principal exame para diagnóstico é a polissonografia, que monitora, entre outros parâmetros, a respiração e a oxigenação durante o sono.

Quando a apneia é confirmada, como abordado, o tratamento pode incluir:
• uso de CPAP ou BPAP
• medidas comportamentais
• perda de peso quando indicada
• tratamento de condições associadas

Isso importa, pois muitos pacientes apresentam melhora significativa da energia, do humor e da qualidade de vida após o tratamento adequado da apneia.

Até a próxima.

OBS: Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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