O estudo das parafilias, fenômenos em que a excitação sexual é desencadeada por estímulos incomuns ou socialmente inaceitáveis, sempre desafiou as fronteiras entre o normal e o patológico, entre o desejo e a aversão. Entre os inúmeros aspectos psicológicos que permeiam essas manifestações, dois se destacam por sua complexidade simbólica e neurobiológica: o nojo e a dor. Ambos são, em sua origem, experiências de defesa e alerta, projetadas para afastar o organismo de ameaças externas ou internas. No entanto, em determinados contextos parafílicos, esses mesmos elementos são reinterpretados, ressignificados e transformados em fontes de prazer e excitação. Essa inversão, que à primeira vista parece paradoxal, revela uma intricada dança entre cérebro, emoção e cultura, uma tensão entre a biologia da autopreservação e a psicodinâmica do desejo.
Nesse sentido, o desejo humano é, desde sempre, um território de paradoxos. Dentro dele convivem prazer e repulsa, atração e dor, impulso e censura. As parafilias, expressões eróticas que desviam das normas culturais e morais, representam de forma aguda essa ambiguidade, pois desafiam a própria lógica evolutiva das emoções. O que deveria provocar afastamento, como o nojo ou a dor, em alguns casos se converte em fonte de excitação e prazer, indicando que o erotismo não é apenas uma busca pelo prazer, mas também uma tentativa de reconciliar o sujeito com suas zonas proibidas.
Tal fenômeno não é apenas psicológico, mas também neurobiológico. Ele revela como o cérebro, por meio de suas redes afetivas e interpretativas, é capaz de ressignificar o aversivo em prazeroso. Em certas parafilias, algo que normalmente seria considerado repulsivo, como um odor, uma imagem de degradação ou a sensação de dor, pode ser reinterpretado como excitante. Isso ocorre porque o cérebro não é uma máquina rígida. Ele associa emoções, sensações e memórias de maneiras dinâmicas e flexíveis, construindo significados que transcendem o instinto.
Em termos técnicos, há uma espécie de “remapeamento” dos circuitos de recompensa e aversão. Áreas como o sistema límbico, que regula as emoções, e o córtex pré-frontal, responsável por atribuir significado e regular as experiências afetivas, interagem para reinterpretar sensações. Quando o sujeito associa dor ou nojo a algo prazeroso, ocorre um tipo de reconfiguração neural em que estímulos de defesa passam a ser mediados por redes dopaminérgicas de recompensa. O que era aversivo adquire uma nova camada de significado emocional, impulsionada tanto pela experiência vivida quanto pelo contexto simbólico em que o desejo se manifesta.
Sob essa perspectiva, o fenômeno não deve ser julgado em termos morais de “certo” ou “errado”, mas compreendido como uma demonstração da complexidade do psiquismo humano e da plasticidade cerebral. As preferências e respostas afetivas são moldadas por experiências, aprendizagens e contextos de vida, em um entrelaçamento entre condicionamento e significação subjetiva. Por isso, a psicologia se interessa profundamente por tais nuances, pois elas revelam como o inconsciente, a neurobiologia e a cultura se interpenetram na construção do erotismo.
Do ponto de vista neuropsicológico, o sistema límbico, que inclui a amígdala e o hipotálamo, tem papel crucial no processamento das emoções e na regulação das respostas de prazer e medo. Já o córtex pré-frontal atua na atribuição de significado e na inibição de respostas automáticas, permitindo que o sujeito reinterprete o estímulo. Contudo, é na ínsula, estrutura cortical profunda, que se encontra uma das chaves mais intrigantes dessa dinâmica.
A ínsula integra sensações corporais e estados emocionais, conectando o corpo ao sentimento de “si mesmo” (Craig, 2009). É ela que dá cor às experiências emocionais e confere consciência ao que é sentido. Nas parafilias, estudos com ressonância magnética funcional demonstram uma ativação diferenciada dessa região diante de estímulos tipicamente aversivos. A ínsula, nesse contexto, parece funcionar como um tradutor neural do paradoxo. Ela registra o nojo e a dor, mas também os reconfigura como sinais de intensidade emocional, e o cérebro humano tende a buscar intensidade como uma forma de prazer.
Pesquisas recentes (Legrain et al., 2011) indicam ainda que a dor física e o prazer compartilham circuitos parcialmente sobrepostos, especialmente no córtex cingulado anterior e no estriado ventral, reforçando a ideia de que a valência emocional não é determinada apenas pela natureza do estímulo, mas pelo significado que lhe é atribuído. Assim, o que para muitos é sofrimento, para outros pode se converter em catarse, domínio ou transcendência.
Essas descobertas reforçam a hipótese de que as parafilias representam não apenas variações comportamentais, mas modos específicos de integração emocional. A psicologia compreende que o desejo humano é moldado por forças inconscientes, experiências precoces e construções simbólicas. Freud (1905/1996) já observava que o erotismo nasce do entrelaçamento entre pulsão e proibição, e que a transgressão pode ser, ela mesma, uma forma de prazer. Sob essa ótica, as parafilias não expressam apenas desvio, mas a tensão constitutiva do desejo humano, o impulso de tocar o interdito e de encontrar prazer naquilo que a moral rejeita.
No plano psicológico, esse fenômeno pode ser visto como uma tentativa do sujeito de integrar opostos psíquicos, prazer e dor, pureza e degradação, controle e rendição, em um mesmo campo de experiência. O corpo torna-se o espaço onde o inconsciente se manifesta em ato. A dor deixa de ser apenas uma experiência nociva para se tornar metáfora de entrega, e o nojo transforma-se em símbolo de libertação dos limites sociais da moralidade. Como observou Merleau-Ponty (1945), o corpo não é apenas objeto, mas linguagem. Ele expressa o invisível por meio do visível, o reprimido por meio do gesto.
Em síntese, a reinterpretação do nojo e da dor nas parafilias não é um mero desvio, mas uma expressão da plasticidade afetiva e simbólica do ser humano. O cérebro, por meio de sua maleabilidade, e a psique, por meio de sua imaginação simbólica, mostram-se capazes de transmutar o sofrimento em prazer, o interdito em liberdade. Essa capacidade de transformar o aversivo em erótico revela a força criativa do inconsciente e a complexidade com que o ser humano constrói significados para o corpo e para o desejo.
A psicologia, portanto, encontra aqui um campo fértil de reflexão ética e clínica. Compreender essas manifestações é também compreender como o humano negocia, no território do desejo, os limites entre prazer e dor, entre o biológico e o simbólico, entre o que pode e o que não deve ser sentido. Talvez resida aí o aspecto mais fascinante do erotismo. Ele não busca apenas a satisfação, mas a reconciliação entre o corpo e o abismo, entre o impulso e o sentido, um espelho em que o humano se reconhece, se desafia e, ao mesmo tempo, se revela.
Até a próxima.
- Referências
- Craig, A. D. (2009). How do you feel now? The anterior insula and human awareness. Nature Reviews Neuroscience, 10(1), 59–70.
- Freud, S. (1905/1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago.
- Legrain, V., Iannetti, G. D., Plaghki, L., & Mouraux, A. (2011). The pain matrix reloaded: A salience detection system for the body. Progress in Neurobiology, 93(1), 111–124.
- Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.
- Panksepp, J. (1998). Affective neuroscience: The foundations of human and animal emotions. New York: Oxford University Press.
- Kahneman, D. (2011). Thinking, fast and slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.