Nas últimas semanas, tornou-se evidente um fenômeno que vem se intensificando no campo da Psicologia: críticas dirigidas não ao conteúdo técnico, à argumentação epistemológica ou às evidências empíricas, mas a versões distorcidas e caricaturais daquilo que se defende. Esse tipo de ataque, longe de promover o debate, sufoca-o, pois desloca a discussão do terreno da racionalidade para o da distorção emocional. Trata-se da velha falácia do espantalho, o ato de atribuir ao interlocutor uma posição que ele não sustenta, simplificando-a até o grotesco para que seja mais fácil atacá-la. Assim, em vez de discutir rigor metodológico, atribui-se ao pesquisador um suposto “autoritarismo intelectual”; em vez de analisar a importância da neutralidade epistemológica, acusa-se o profissional de “conservadorismo”; em vez de dialogar sobre a independência científica frente a ideologias, diz-se que a defesa da ciência é “militância velada”. Critica-se, portanto, o espantalho criado para substituir o argumento, e não o argumento real.
Esse fenômeno se articula diretamente com aquilo que foi desenvolvido no ensaio “Utopia, Ideologia e o Risco da Desfiguração da Psicologia Científica no Ensino Superior”, no qual se demonstrou como narrativas ideológicas tendem a se blindar contra o exame crítico, substituindo o método científico por moralizações e slogans. A falácia do espantalho cumpre exatamente esse papel: impede o diálogo ao transformar a Psicologia em arena de disputas identitárias, e não de investigação sobre o psiquismo humano. O fenômeno ecoa também o que foi discutido em “Ciência Psicológica, Religiosidade e Tensões Contemporâneas”, no qual crenças pessoais, especialmente religiosas, são transformadas em marcadores de exclusão, não porque influenciem a técnica, mas porque são lidas ideologicamente. Cria-se, então, um ambiente em que a identidade do profissional é atacada em vez de sua argumentação. Em registro mais filosófico, esse empobrecimento do debate dialoga com o problema tratado na coluna “O Absurdo, o Sentido e o Silêncio”. De acordo com o ditado popular, quando a razão se cala, a irracionalidade e o ruído ideológico ocupam o espaço.
A falácia do espantalho manifesta-se com mais frequência justamente em ambientes dominados por ideologias porque, como explicou Karl Popper, sistemas ideológicos não toleram a falseabilidade. A crítica analítica é percebida como ameaça, e não como etapa natural da construção do conhecimento. Assim, para se proteger da contestação, a ideologia recorre à distorção. Torna-se mais simples desqualificar um pesquisador quando se reescreve sua posição em termos caricaturais. Freud, em sua análise sobre a dinâmica psíquica, já advertia que a projeção é um dos mecanismos privilegiados para transformar o outro em depósito do que não queremos reconhecer em nós. Jung complementa essa visão ao explicar que os conteúdos negados da personalidade retornam como sombra, frequentemente projetada em figuras externas que se tornam convenientemente demonizadas. Beck, por sua vez, ao analisar as distorções cognitivas, descreveu como interpretações rígidas e filtradas por crenças preestabelecidas levam a erros sistemáticos de raciocínio. A falácia do espantalho é precisamente uma dessas distorções, só que ampliada no coletivo.
No contexto da Psicologia, esse tipo de distorção tem efeitos graves. Primeiramente, empobrece epistemologicamente a formação acadêmica. Quando um argumento técnico é substituído por sua caricatura moralizada, perde-se a capacidade de avaliar evidências, comparar modelos teóricos, questionar pressupostos ou realizar análises críticas. O estudante passa a ser treinado não na arte de pensar, mas na obrigação de aderir a determinadas categorias ideológicas. É exatamente o cenário descrito no ensaio sobre utopia, no qual ideias são aceitas ou descartadas não por sua validade científica, mas por sua adequação a expectativas morais politizadas. Em segundo lugar, compromete-se a formação clínica e a habilidade de lidar com o sofrimento humano.
A subjetividade real, feita de ambivalências, conflitos, contradições, limites e singularidades, desaparece quando substituída por categorias rígidas, e o espantalho, enquanto distorção, produz exatamente essa rigidez. O profissional deixa de investigar o fenômeno e passa a confirmar crenças prévias, o que compromete tanto o diagnóstico quanto a intervenção. Além disso, a falácia do espantalho intensifica tensões institucionais. Como analisado no ensaio sobre religiosidade, profissionais têm relatado ser atacados ou desacreditados não por seus métodos, mas por sua identidade religiosa, política ou filosófica. Assim, em vez de se discutir a técnica, discute-se o pertencimento simbólico. A crítica já não é dirigida a práticas concretas, mas àquilo que se imagina que o outro pensa. Em outras palavras, combate-se o espantalho, e não o profissional real.
Do ponto de vista psicológico, a própria existência da falácia do espantalho indica fenômenos profundos na vida psíquica coletiva. Ela surge em grupos com intolerância à ambiguidade; em ambientes onde a identidade pessoal se confunde com crenças políticas; em núcleos onde o pensamento dicotômico domina; em comunidades que projetam sombras e criam inimigos imaginários para preservar sua coesão interna. No plano existencial, como lembraria Camus, o espantalho aparece quando o indivíduo é incapaz de enfrentar o absurdo da complexidade humana e, diante disso, produz explicações simplificadoras para suportar o desconforto que a realidade provoca.
Responder à falácia do espantalho exige, portanto, uma postura que não reproduza o erro. Não se combate distorção com distorção. A Psicologia oferece antídotos mais sólidos: retomar o debate ao campo das evidências, reafirmar a neutralidade metodológica, sustentar a pluralidade teórica e recuperar a ética do diálogo. A ciência psicológica, desde James, Jung, Skinner, Freud e Beck até os desenvolvimentos contemporâneos da neuropsicologia, sempre prosperou quando manteve independência epistemológica e abertura ao questionamento. A pluralidade de teorias não é sinal de fraqueza, mas de vitalidade. O diálogo entre ciência e humanidade exige complexidade, e a falácia do espantalho opera justamente pela sua redução.
As críticas ideológicas recentes não revelam fraquezas da Psicologia, mas a dificuldade de parte da sociedade em lidar com o debate científico. Criam-se espantalhos porque debater argumentos reais exige esforço, humildade intelectual e disposição para rever crenças. Demonizam-se posições científicas porque a ciência, quando levada a sério, nos obriga a confrontar nossas próprias certezas. Como afirmado anteriormente, o compromisso da Psicologia é com o psiquismo humano real, com suas ambiguidades e densidades, e não com projetos morais idealizados. E, como reiterado no ensaio sobre religiosidade, seu compromisso fundamental não é com ideologias, mas com o cuidado humano e com a produção de conhecimento rigoroso. Diante das distorções, cabe a nós manter a lucidez, como sugeriu Camus, sustentando o pensamento mesmo quando o ruído tenta sufocá-lo.
Defender a Psicologia científica não é tomar partido político. Não é adesão identitária. Não é militância. É apenas e, sobretudo, um compromisso com a realidade, com o sujeito concreto e com a ética que fundamenta a nossa profissão. É um trabalho que se faz diariamente, resistindo às caricaturas, enfrentando o espantalho com serenidade e rigor, e lembrando que a ciência cresce quando se mantém fiel à verdade, mesmo quando ela é complexa, incômoda ou contrária às expectativas ideológicas do momento.
Até a próxima…