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“É um governo que destruiu a imagem do Brasil no Mundo” declara Daniela Mercury

Com 23 turnês internacionais, Daniela Mercury, que é Embaixadora do Unicef e integrante do ODH do CNJ fala sobre música e política

Por Bruninho Afonso 25/11/2021 11h53
Daniela Mercury Daniela Mercury

Cantora do Mundo, Rainha do Axé, porta voz pelos direitos da população LGBTQIA+ e Campêa da Igualdade da ONU, Daniela Mercury realmente é a maior “Artivista” da história do Brasil. Com mais de 30 anos de carreira, 23 turnês internacionais e 20 milhões de discos vendidos no mundo, Daniela aos 56 anos traz o vigor que sempre teve nos palcos pra militância política pelos direitos humanos e pela justiça.

Em entrevista exclusiva à coluna, a cantora fala sobre música e política. Confira:

Bruninho Afonso: Recentemente você lançou a versão antifascista da música Milla, como você vê músicas emblemáticas sendo usadas em protestos antidemocráticos?

Daniela Mercury: Sinto muitíssimo que haja protestos para atacar a democracia e que músicas como Milla, que fazem parte do imaginário de um país democrático, fiquem associadas a manifestações antidemocráticas e a políticos e governos com tendência autoritária. Músicas também são símbolos da pátria. Infelizmente, várias músicas já foram usadas para propaganda de governos autoritários no passado e por isso foram excluídas dos repertórios da maioria dos artistas. Mas Milla está salva e esse resgate é uma maneira de dar uma mensagem muito clara para a sociedade. A democracia é o nosso único caminho.

Bruninho Afonso: Como foi o processo de construção de sua versão para Milla?

Daniela Mercury: Fiz uma pesquisa rítmica, harmônica e de timbragens para encontrar uma maneira de manter Milla alegre, baiana, dançante, e fazer uma regravação bem original e que dialogasse com minha obra. Eu e o produtor musical Yacoce Simões (que também gravou todos os instrumentos e fez o arranjo comigo) fizemos um longo laboratório durante mais de três meses para chegarmos ao arranjo que mistura ijexá, com dance, soul music e galope de carnaval. E que trouxe alma nova e frescor para esse hit romântico juvenil que agora é político também.

Bruninho Afonso: Daniela Mercury é hoje a artista mais ativista do país? Artistas devem interver na política?

Daniela Mercury: Estou muito preocupada com a destruição paulatina da democracia no Brasil, com os ataques às urnas eletrônicas, com a destruição da cultura, da ciência, da educação pública, dos conselhos de participação civil, com a devastação da Amazônia, com a invasão de terras indígenas, com a flexibilização das áreas protegidas, com a entrega de nossas estatais no momento em que enfrentamos uma crise hídrica. Com a invasão das terras indígenas, com a péssima condução da pandemia por parte do governo federal.

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Eu não podia deixar de me manifestar, de lutar contra tudo isso. Aceitei o convite do ministro Luiz Fux para fazer parte do Observatório de Direitos Humanos do CNJ e tenho trabalhado muito para minha atuação ser transformadora. Acompanho a vida política, as votações no congresso e as notícias. As redes sociais também são uma forma de participar da vida politica do país e do mundo. Sempre que eu consigo e acho importante dou minha opinião e lidero ou apoio mobilizações, lutas e campanhas.

Só conseguimos mudanças efetivas através da luta política e da pressão dos cidadãos e organizações da sociedade civil sobre os políticos que são os nossos representantes eleitos. Somos seres políticos. Eu não pretendo me candidatar a nada. Eu sou uma artista que trabalha pelos direitos humanos e pela justiça social. A arte é política e tem que cumprir seu papel crítico, questionador e contestador. A arte tem que traduzir o seu tempo, o resto é entretenimento.

Bruninho Afonso: Vc faz parte do Conselho do CNJ, liderando pautas como a liberdade de expressão e a comunidade LGBTQIA+, o que podemos esperar da Daniela Mercury conselheira?

Daniela Mercury: O meu objetivo no observatório é trazer o máximo de contribuições nesses dois anos que atuarei lá. Cada um dos conselheiros tem seus temas, mas estamos colaborando uns com os outros para termos mais resultados do nosso trabalho. Eu sugeri e agora estou acompanhando a criação do formulário ROGÉRIA, que é de proteção contra a violência sofrida por pessoas LGBTQIA+, além da realização de pesquisas sobre violência contra os LGBTs que serão feitas em várias cidades brasileiras.

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Estou concebendo os encontros sobre liberdade de expressão, escolhendo temas, os participantes e definindo o que vamos discutir. O foco dos encontros é dar voz para a sociedade civil no intuito de aprimorar nossa democracia. No primeiro encontro sobre liberdade de expressão o tema foi liberdade de expressão e os limites do poder do Estado, tivemos as participações de Gilberto Gil, Luiz Carlos Barreto, Dra. Raquel Dodge e a advogada Cris Olivieri e falamos sobre o desmonte das políticas culturais que paralisam o setor cultural no Brasil atualmente.

O segundo encontro foi sobre liberdade de expressão dos povos indígenas, organizado por mim e pela colega do ODH, professora Manuela Carneiro da Cunha e tivemos riquíssimos testemunhos das mais importantes lideranças indígenas do Brasil que se manifestaram contra o marco temporal e falaram dos principais problemas que atingem as comunidades indígenas nesse momento. Nos próximos encontros vou continuar a trazer as questões mais urgentes e quero dar grandes contribuições para o país.

Bruninho Afonso: Como você vê o governo atual?

Daniela Mercury: Um governo que destrói tudo que construímos democraticamente com muito esforço. Um governo que não protegeu a vida dos brasileiros na pandemia, que não comprou vacina quando tinha obrigação moral de comprar. Um governo que tira direitos dos mais pobres, de crianças deficientes, que privilegia os mais ricos e deixa os pobres mais pobres. Um governo que não tem amor pela natureza, nem pela Amazônia. Que desrespeita os direitos humanos, às artes, à ciência, às minorias e nossa causa LGBTS, e nossa maravilhosa diversidade humana.
Governo que estimula o armamento, a grilagem, o uso de medicamentos ineficazes, que desestimula a vacinação e o uso de máscaras na maior pandemia que já assolou a humanidade e que já matou mais de 600 mil brasileiros. E um governo que destruiu a imagem do Brasil no mundo.

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