O suposto dilema na escolha do nome de um vice para a chapa de Flavio Bolsonaro para a disputa presidencial esconde bastidores sobre riscos e temores. Caso o martelo seja batido com o nome da senadora Tereza Cristina, a campanha de Flávio Bolsonaro assume o risco de perder tração no Estado do ex-governador mineiro, Romeu Zema. O tempo de TV do minúsculo NOVO até que não faria tanta falta, mas a opção pela senadora matogrossense levaria o bolsonarismo a virar as costas para o segundo maior colégio eleitoral do país. Com 16.469.155 eleitores aptos a votar, o eleitorado mineiro sempre decidiu o nome do vitorioso nas eleições presidenciais brasileiras, desde a redemocratização.
Voto por voto, a opção por Tereza Cristina fincaria o pé de Flavio Bolsonaro num colégio eleitoral bem menor que o gigante das alterosas, ali ele acessaria pouco mais de 2 milhões e meio de eleitores. Mas a senadora Tereza Cristina solta, fora da chapa, pode vir a trazer um dano ainda maior para as pretensões de Flavio Bolsonaro.
Nessa dinâmica que afastou Flavio Bolsonaro de Ciro Nogueira, Tereza Cristina pode acabar aparecendo como solução de revelação, como solução de terceira via, enquanto os dois extremos da polarização disputam estratégias de distanciamento do escândalo envolvendo o banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, seus colaboradores, sem falar dos medalhões da política no governo e na oposição.
Portanto, algo com cara de terceira via passaria a evoluir fora do tabuleiro formal, na medida em que Ciro Nogueira seja levado a enxergar outras saídas nesse momento difícil, como alternativa ao desconforto dessas impressões de que passou a ser tratado como companhia indesejável, por conta do seu envolvimento com o banqueiro Vorcaro e p escândalo do banco master. Esta, aliás, é uma condição sine qua non.
Descolada de todo e qualquer escândalo recente, Tereza Cristina está cercada de aliados que se opõem, que descartam seu nome como vice para qualquer chapa, defendendo que seja ela a candidata ao Planalto. “A UDR do Caiado é coisa do passado. Não tem tração e a Senadora é muito melhor que Flavio Bolsonaro. Uma chapa com a senadora de vice de Flavio seria como repetir Itamar Franco como vice de Collor”, ironizou uma assessora com acesso à senadora lembrando que um raio nao cai duas vezes no mesmo lugar… . Fontes muito próximas à Tereza Cristina garantem que a ex-ministra da Agricultura não topa ser vice de ninguém, podendo ser lançada para a sucessão presidencial pelo PP já em junho, num jogo combinado com um Ciro Nogueira escanteado, e players do agro e da Faria Lima.
Caso prospere a opção defendida por Valdemar Costa Neto no PL, o resultado de uma equação com a ex-ministra Tereza Cristina na chapa presidencial daria uma resposta contundente contra a candidatura ruralista de Ronaldo Caiado pelo PSD que, junto com Gilberto Kassab, tentou fabricar um perfil de terceira via para 2026.
Tudo isso sem falar que a ex-ministra como vice de Flavio agregaria ao bolsonarismo a representação feminina para uma chapa mais forte entre os homens, e mais fraca entre as mulheres, dentro de um contexto em que passa a contar com a presença de um nome com perfil técnico e carregado de prestigio junto ao agro brasileiro. Mas tudo indica que pode ter dado ruim para essa manobra, como resultado de uma pilha de descuidos infantis, como a falta de um convite formal para a senadora, no meio a profusão midiática do nome da senadora no formato “vai que cola”. Numa situação que também parece que se repetiu na relação com o governador ZEma, também pensado para vice, , sem que houvesse qualquer convite formal.
Além de apresentar uma relevante folha de serviços prestados, a senadora já foi filiada ao PSB, vem de uma respeitável linhagem de políticos Brasileiros, ostentando o DNA do ex-prefeito, ex-governador e ex-Senador Fernando Correa Costa, liderança forte da UDN do Mato Grosso nos anos de 1960.
Segundo Anthony Giddens, o principal teórico da “Terceira Via” moderna, a quebra de uma polarização não se traduz numa simples alternativa com cara de “meio-termo” inventado. Ainda que nao seja 100% produto de geração expontânea, a terceira via pode surgir de uma combinação de situações, sem jamais resultar de invenção puramente fabricada, como diria, aliás, o sociólogo e ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso.