Há um padrão que se repete em Brasília sempre que um ministro do Supremo Tribunal Federal atravessa a linha invisível que separa a discrição institucional do protagonismo midiático. Um escorregão que já fraturou figuras como o ex-ministro Joaquim Barbosa, com acusações de A a Z, por conta da elástica exposição relacionado a aplicação do chamado domínio do fato, no curso da Ação Penal 470, mais conhecida como “mensalão”.
O nome da vez que invade essa fronteira responde pelo nome de Dias Tóffoli, mas por razões e gêneros diferentes daqueles que envolveram Joaquim Barbosa. No caso de Tóffolli, no papel de personagem dos atritos entre Poderes, a coisa é diferente.
No Congresso, o incômodo deixou de ser sussurro de corredor para ganhar corpo de discurso. O deputado Nicolas Ferreira vocaliza, sem rodeios; já o deputado Marcel van Hattem, sustenta que “o Brasil precisa rediscutir o alcance das decisões monocráticas”, numa crítica direta ao ministro Dias Tóffoli. Isso sem falar da artilharia de Rogério Marinho , Eduardo Bolsonaro entre outros tantos, que sequer merecerem maiores atenções.
O problema para Toffoli é que ele aparece no ponto de interseção dessas pressões. Suas decisões recentes, somadas ao gesto de se declarar impedido num caso sensível, foram lidas não como prudência, mas também como sinal de reconhecimento de tensão.
Dentro do próprio Supremo, o cenário é de divergências silenciosas. Um racha que não se declara, mas se insinua. E, quando o conflito interno por lá encontra o ruído externo, o resultado previsível é a amplificação na receita de rocambole maligno.
É nesse ambiente que o nome de Dias Toffoli passa a circular mais fora do que dentro dos autos. E isso, para um ministro da Suprema Corte é sempre um problema. Porque, no jogo real do poder, a exposição contínua não fortalece. Desgasta.
O que se vê hoje não é uma crise formal. É algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso. É a construção de uma narrativa. E narrativas, quando ganham tração aqui em Brasília, dificilmente recuam sozinhas.
Porque, no fim das contas, o Supremo decide nos autos. Mas o poder real também se mede no silêncio. E, neste momento, o silêncio pode ser a única decisão capaz de preservar o que ainda não foi corroído pelo excesso de luz lançada sobre o STF.
Nos bastidores, cresce o discurso de revisão de prerrogativas, de contenção do protagonismo judicial, e, em alguns casos, até de enfrentamento direto, com movimentos para fazer andar pra frente os pedidos de impeachment de ministros do STF. Não se trata ainda de uma ofensiva coordenada, mas o ambiente é claramente adverso.
Talvez por isso a estratégia mais eficiente, neste momento, não esteja em responder, ou ficar explicando, ou produzindo reações. Mas o ideal mesmo parece ser o desaparecimento. Sair do foco. Reduzir o ruído. Permitir que a espuma baixe.
Curiosamente, há sinais de que o ministro Toffoli já percebeu essa necessidade. Nas últimas três semanas e meia, alguns interlocutores relatam uma rotina mais disciplinada, qua não esta rodando gabinetes, evitando aeroportos e restaurantes.
Toffoli, inclusive, tem recorrido com frequência às quadras de tênis nos fins de semana em Brasilia, no Clube do do Congresso. Uma opção interpretada como passatempo inocente por alguns. Mas, para outros, mais observadores, essa iniciativa recente foi decifrada como refúgio.
O sofisticado esporte, repetitivo e silencioso, impõe uma lógica simples: acompanhar a bola, antecipar o movimento, devolver o impacto… Um exercício quase terapêutico, onde o foco se desloca das manchetes que saem no jornais fora de controle, nos sites, para um aprendizado de alto nível. Uma oportunidade para aprender que os golpes com a raquete dependem de equilíbrio e precisão. Não basta esmurrar a bola. É preciso saber bater com forehand e com backhand, sem jamais esquecer de jogar com as pernas!
Entre uma aulinha e outra, talvez esteja ali a bem-aventurada tentativa do Ministro Tóffoli de reorganizar a mente. Olhar mais para as bolinhas e menos para o ruído.