A comparação seria apenas uma piada se a campanha do PL, de fato, não protagonizasse um troca-troca de marqueteiros que rivaliza com a frequente mudança de técnicos no Vasco da Gama nas últimas décadas.
Ainda que, no caso do time de São Januário, essa intensa substituição de treinadores tenha se convertido em aparente método administrativo.
O time não joga, troca-se o técnico. Continua sem jogar, troca-se novamente. Cai para a segunda divisão, contrata outro. No sobe e desce das pesquisas, o candidato Flávio Bolsonaro repete o recurso de clube desesperado com a mão na lanterna do Brasileirão.
A pré-campanha experimentou Toninho Neto e Walter Longo, passou por Marcello Lopes, o Marcelão, homem da confiança pessoal do candidato, e desembarcou depois em Eduardo Fischer e Alexandre Oltramari. A dupla chegou em 25 de maio, depois da crise provocada pelos áudios da conversa de Flávio com Daniel Vorcaro. Dois meses depois, estava dispensada. Agora entra Duda Lima, ligado ao comando do PL e marqueteiro da campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
A candidatura “Flávio”, diga-se de passagem, surgiu de uma carta do pai dele, que neutralizou as pretensões dos que apostavam em uma candidatura de Tarcísio de Freitas. Portanto, carregando uma contradição de origem, ele agora surge como aquele que precisa do sobrenome Bolsonaro para herdar o eleitorado paterno, mas terá de seguir a linha de um marqueteiro que quer usar apenas o nome Flávio no material de campanha. Pode ser, de fato, uma tentativa de diminuir a rejeição.
É como o efeito suspensivo do cartão que tiraria de campo um jogador. Mas o tapetão na política, por incrível que pareça, tem lá suas limitações.
Flávio chegou às convenções sem conquistar a grande aliança com o Centrão, que lhe daria musculatura nacional e sinalização de moderação. PP e Republicanos optaram pela neutralidade. A tentativa de levar Tereza Cristina para a vice naufragou. Sobrou para o deputado Alfredo Gaspar, de Alagoas.
Não como parceiro estratégico preparado durante meses, mas como solução doméstica, sem pré-checagem, depois que desapareceram as alternativas externas.
Os números dizem que o marqueteiro que chega agora precisa melhorar a aceitação de Flávio Bolsonaro entre mulheres, para evitar o pior no primeiro turno. Mas Gaspar é alvo de acusação de estupro de vulnerável envolvendo uma adolescente que teria engravidado. Ele nega categoricamente, afirma que houve confusão com episódio envolvendo um primo e contesta a versão. Mas a história já está na boca do povo e das redes sociais, com Flávio confiando na couraça resistente do eleitor bolsonarista.
Com ou sem marqueteiro, a candidatura de Flávio ainda não desabou, apoiada na alta rejeição de Lula.
Em maio, vieram a público áudios em que Flávio tratava com Daniel Vorcaro de recursos para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O senador confirmou que buscou patrocínio, sustentou tratar-se de operação privada e negou ilegalidade.
Foi nesse incêndio que Fischer e Oltramari desembarcaram na campanha. Receberam o time com a arquibancada vaiando, o placar adverso e o zagueiro sendo atendido atrás do gol.
Duraram dois meses.
Flávio troca comunicação, reposiciona discurso, procura vice, perde vice, procura partido, não consegue partido, aproxima-se do pai, tenta afastar-se da imagem paterna e depois volta a abraçá-la. Mas marqueteiro não fabrica candidato. Pode organizar mensagem, melhorar televisão, produzir slogan e corrigir enquadramento. Mas existe uma fronteira a partir da qual a comunicação deixa de ser solução, porque o problema passou a ser político.
Nos clubes desorganizados, cada técnico promete “dar padrão ao time”. Depois de seis partidas, falta padrão, troca-se novamente o homem do banco. Ninguém pergunta se o defeito está no elenco, na diretoria ou no planejamento. As mudanças acalmam a torcida.
Depois da rotatividade com Toninho Neto, Walter Longo, Marcelão, Eduardo Fischer, Alexandre Oltramari e agora Duda Lima, talvez o PL descubra aquilo que dirigentes de futebol descobrem tarde demais. Quase sempre assistindo ao Flamengo ou ao Palmeiras levantar o caneco sempre que evitam mudanças na comissão técnica.
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