Depois de entrar para a história ao enquadrar o então poderoso senador Antonio Carlos Magalhães, naquele inesquecível 20 de janeiro de 1993, o presidente Itamar Franco foi submetido, poucos dias depois, a uma prova ainda mais delicada. O nome de seu principal auxiliar, amigo pessoal e ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, apareceu nas investigações da CPI dos Anões do Orçamento.
Hargreaves não havia sido condenado. Não havia sequer julgamento. Existiam suspeitas e questionamentos que precisavam ser esclarecidos. Ainda assim, prevaleceu uma compreensão rara na política brasileira. O ministro entendeu que a sua permanência no cargo criaria um desgaste permanente para o governo. Mais importante do que sua posição pessoal era a proteção da imagem da Presidência da República e de um governo de coalisão montado depois do impeachment de um presidente da República.
A solução foi simples. Hargreaves entregou o cargo. Afastou-se para responder às acusações como cidadão. Itamar preservou a autoridade da Presidência. O governo foi protegido. As investigações seguiram seu curso e Hargreaves voltou para a Casa Civil depois de provar sua inocência.
Passados mais de trinta anos, o Brasil assiste a uma situação que inevitavelmente remete àquele precedente.
O líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, tornou-se alvo de uma nova etapa das investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master. A Polícia Federal cumpriu mandados de busca autorizados pelo Supremo Tribunal Federal e apura suspeitas de vantagens indevidas envolvendo pessoas ligadas ao banco e ao senador. Entre os elementos mencionados pelos investigadores estão a supostas vantagens destinadas a pessoas do círculo familiar do parlamentar. Wagner nega qualquer irregularidade e afirma que demonstrará sua inocência perante as autoridades.
Até o momento, não existe condenação nem denúncia criminal contra o senador. Mas a questão política não é jurídica.
Lula foi e está sendo testado no enfrentamento de um gigante como Donald Trump, assim como Itamar teve de enfrentar o “cabeça branca”, o maior gigante da história da política baiana. E, agora, assim como Itamar em 1993, Lula está diante de uma escolha de Sofia, por causa das suspeitas contra um amigo, com posição de representação em seu governo.
A questão política hoje, na prática, é saber se um líder de governo, responsável por representar o presidente da República dentro do Senado, pode continuar exercendo normalmente essa função, enquanto se encontra no centro de uma investigação com tamanho impacto nacional.
O problema não está apenas na situação pessoal de Jaques Wagner, assim como era para Henrique Hargreaves. O problema está no efeito institucional produzido pela sua permanência no cargo.
Cada entrevista do senador passa a ser contaminada pelas perguntas sobre o Banco Master. Cada articulação política do governo passa a conviver com a sombra das investigações. Cada votação relevante do Senado passa a ser acompanhada pelo inevitável questionamento sobre a situação do líder governista.
Foi exatamente esse tipo de desgaste que Henrique Hargreaves soube como evitar, quando teve o desassombro de pedir o boné em 1993.
Mesmo diante da escalada das investigações e da repercussão nacional do caso Master, o senador parece disposto a permanecer no comando da liderança do governo, como se a crise não produzisse efeitos políticos sobre o Palácio do Planalto.
O ponto central é outro. E depende da iniciativa de Jaques Wagner
A história política brasileira já ofereceu uma saída elegante para situações semelhantes. Ela foi escrita por Henrique Hargreaves há mais de três décadas. Uma saída que colocava a instituição acima da conveniência pessoal e a estabilidade do governo acima da permanência no cargo. Naquele momento ele saiu para poder voltar, justamente porque estava certo de sua inocência
Naquele janeiro de 1993, a imagem do governo Itamar Franco foi preservada porque alguém compreendeu que, em determinadas circunstâncias, afastar-se não é admitir culpa. É proteger a função pública