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Analice Nicolau
Analice Nicolau

 Uma Viagem aos Ecos da Humanidade em Malta

Colunista Analice Nicolau

07/10/2025 11h18

Vista panorâmica do Templo Megalítico de Ħaġar Qim em Malta, uma estrutura de pedra antiga, mais velha que as pirâmides. Coluna de Analice Nicolau no Jornal de Brasília sobre turismo arqueológico e a história da civilização

Mais antigas que as pirâmides e Stonehenge, estruturas megalíticas revelam uma sociedade pré-histórica de engenhosidade e fé, convidando o viajante a tocar no início da nossa história

Em um mundo acelerado, onde o futuro parece chegar antes do previsto, há lugares que nos obrigam a uma pausa reverente diante do passado. As ilhas de Malta e Gozo, no coração do Mediterrâneo, guardam um desses portais no tempo: sete complexos de templos megalíticos que nos sussurram segredos de 5.500 anos atrás. Declarados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, esses monumentos são mais antigos que as pirâmides do Egito e o círculo de pedras de Stonehenge, testemunhas de uma cultura pré-histórica de notável engenhosidade.

Museu Nacional de arqueologia no centro de Valleta

Construídos entre o 4º e o 3º milênio a.C., cada templo é uma obra-prima arquitetônica, erguida com recursos limitados, mas com um conhecimento profundo das pedras locais. Os construtores usavam o duro calcário coralino para as muralhas externas e a macia globigerina para os detalhes internos, como altares e relevos. As espirais, animais e plantas esculpidas não são meros adornos; são o eco de uma sociedade organizada, com um profundo senso ritualístico e artístico.

No sul de Malta, a cerca de 15 km da capital Valletta, os templos de Ħaġar Qim e Mnajdra resistem ao tempo com uma imponência silenciosa. Em Ħaġar Qim, que significa “pedras da adoração”, um megálito de 5,2 metros de altura nos faz questionar a força e a técnica desses povos ancestrais. Altares e estatuetas robustas, como a famosa “Vênus de Malta” encontrada no local, sugerem que ali se cultuava a fertilidade, o ciclo da vida e da morte.

Parque Arqueológico de Ġgantija

A poucos passos, o templo de Mnajdra revela outra faceta do conhecimento neolítico: a astronomia. Sua estrutura está perfeitamente alinhada para que, nos solstícios, um raio de sol ilumine o altar principal, marcando a passagem das estações em um calendário de pedra. É um espetáculo que conecta céu e terra, ciência e fé.

Na ilha vizinha de Gozo, o complexo de Ġgantija, ou “Torre dos Gigantes”, impressiona pelas muralhas ciclópicas, com pedras que ultrapassam 50 toneladas. A lenda local diz que foram erguidas por uma giganta, uma metáfora para a grandiosidade da obra. Vestígios de fogueiras e ossos de animais indicam que o pátio externo era palco de banquetes comunitários, celebrações que uniam o povo em torno do sagrado.

Mas talvez a joia mais misteriosa seja o Hipogeu de Ħal Saflieni, o único templo subterrâneo pré-histórico conhecido. Escavado por volta de 2500 a.C., este labirinto de câmaras serviu primeiro como santuário e depois como necrópole. Com acesso controlado para sua preservação, visitá-lo é uma imersão profunda na escuridão e no silêncio de um mundo perdido, uma experiência que exige planejamento e reserva antecipada.

Visitar esses templos não é apenas um passeio turístico; é um diálogo com os primórdios da civilização. É sentir, nas pedras frias, o calor de uma sociedade que, com ferramentas rudimentares, ergueu monumentos à eternidade.

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