Durante uma visita a sala de degustação de uma vinícola em Bordeaux, na França, o estrategista, especialista em acesso à saúde e sommelier profissional Antonio Carlos Matos da Silva se deparou com um quadro que mostrava uma videira, cujas raízes, que ocupavam grande parte da tela, “mergulhavam profundamente no solo, atravessando camadas complexas e heterogêneas”. Naquele instante, veio à cabeça de Antonio Carlos o clássico modelo do iceberg, usado para representar a cultura organizacional. Mas ali, diante daquela imagem, nasceu uma nova analogia, mais viva, mais orgânica e que traz o sentido de cuidar e melhorar, para explicar o que realmente sustenta uma cultura empresarial. Essa foi uma das várias conexões que inspirou o livro Equilíbrio, Estrutura e Estratégia – Como a arte do vinho pode inspirar a gestão empresarial, onde são traçados paralelos entre o universo do vinho e os desafios do mundo corporativo.

Segundo Antônio Carlos, assim como ocorre com a videira, onde o que alimenta a uva está fora do alcance dos olhos, na cultura organizacional são os elementos invisíveis que exercem o maior impacto. Ele explica que são as camadas profundas do solo, ricas de minerais e nutrientes, que conferem complexidade ãs uvas e por consequência ao vinho. Da mesma forma, nas empresas, são os valores não ditos, os comportamentos enraizados e as normas implícitas que moldam o ambiente de trabalho. “A verdadeira força da cultura está no que não se vê, mas se sente todos os dias”, diz
Na vitivinicultura, esse conjunto de elementos invisíveis recebe o nome de terroir. Embora não exista uma definição única, o conceito expressa como solo, clima e práticas moldam a identidade de um vinho. Para Antonio, o mesmo acontece com a cultura organizacional: ela molda a identidade da empresa, influenciando decisões, comportamentos e, acima de tudo, resultados. “Assim como o terroir é fundamental para o vinho, a cultura é o alicerce de qualquer empresa bem-sucedida”, ressalta.
A comparação entre terroir e cultura organizacional se torna ainda mais rica ao analisarmos dois fatores essenciais: desafio e diversidade. Para que as uvas sejam concentradas e complexas, afirma Antonio Carlos, a videira deve ser desafiada, forçada a buscar nutrientes em profundidade. “O mesmo princípio se aplica às empresas: uma cultura forte, fundamentada em valores sólidos e forjada no desafio, é a chave para um sucesso duradouro”, diz.

No que diz respeito à diversidade, explica Antonio, quanto maior ela for melhor será para o processo de vitivinicultura e para uma empresa. Uvas cultivadas em locais com inclinação, exposição ao sol e tipo de solos diferentes, por exemplo, produzirão vinhos com sabores distintos. Nas empresas, subculturas em diferentes áreas geram um ecossistema dinâmico, onde as ideias e perspectivas diversas se complementam. “Essa diversidade de estilos e vozes, assim como no terroir, é essencial para a inovação e crescimento de uma empresa”, afirma.
Tendo em vista a importância desses aspectos no desenvolvimento tanto do terroir quanto da cultura de uma empresa, pode-se constatar, segundo Antonio Carlos, como ambos não são resultados do acaso e sim de práticas conscientes, de anos de refinamento e de ajustes cuidadosos. “A cultura organizacional, como o terroir, pode ser diagnosticada, entendida e modificada de maneira intencional e deliberada, cabendo ao enólogo conhecer profundamente o solo e o clima para produzir o melhor vinho e ao líder empresarial entender e nutrir os costumes organizacionais para garantir o sucesso sustentável”, diz.
No vinho e nos negócios, o invisível é determinante. O terroir não é apenas o solo — ele inclui o clima, as práticas de cultivo e o cuidado humano. Da mesma forma, a cultura de uma empresa vai além de slogans na parede. Ela nasce da história, dos hábitos, dos valores vividos e da forma como se lidera. “É essa combinação viva e interdependente que define a essência de uma organização”, ressalta Antonio.
Empregando o terroir como modelo, Antonio Carlos recomenda três estratégias práticas para que empresas e profissionais naveguem na cultura organizacional da melhor maneira possível, a fim de extrair dela excelentes resultados. A primeira delas é o entendimento cultural. “Assim como um terroir deve ser bem conhecido para entender suas características únicas, os funcionários podem se beneficiar de entender a cultura organizacional, identificando os valores, normas e comportamentos que são promovidos”, declara.
A segunda é feedback e reflexão. “Da mesma forma que os viticultores ajustam suas práticas com base nas condições de solo e de clima, os profissionais devem buscar feedbacks constantes e refletir sobre suas experiências para melhor se adaptar à cultura organizacional”, explica o especialista em acesso à saúde. A terceira é o desenvolvimento e o treinamento. De acordo com Antonio Carlos, investir nessas duas práticas nas empresas pode ser comparado ao enriquecimento do solo, essencial para o crescimento robusto das videiras. “Programas de desenvolvimento ajudam a alinhar os valores dos funcionários com os da organização, promovendo um ambiente de trabalho mais coeso e produtivo”, aponta.
Por fim, destaca o estrategista àqueles que trabalham nas empresas e em vinícolas: compreender as camadas invisíveis que moldam comportamentos é o caminho para as decisões mais conscientes, ambientes mais coesos e resultados mais consistentes. “Ao aprender com os especialistas e aplicar suas estratégias, líderes e funcionários podem prosperar em seus respectivos terroirs, colhendo os frutos de um ambiente bem cultivado e estrategicamente alinhado”, conclui.
Sobre o autor
Antonio Carlos Matos da Silva é especialista em inovação, cultura organizacional e acesso à saúde e autor do livro Equilíbrio, Estrutura e Estratégia – Como a Arte do Vinho Pode Inspirar a Gestão Empresarial. Formado em farmácia, possui MBA em administração e marketing. Tem uma extensa carreira em grandes empresas farmacêuticas, entre as quais Roche, GlaxoSmithKline(GSK) e Cristália.

Ficha técnica
Título: Equilíbrio, estrutura e estratégia
Subtítulo: Como a arte do vinho pode inspirar a gestão empresarial
Número de páginas: 256
Formato: 16×23
ISBN: 978-65-5625-790-7
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