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Analice Nicolau
Analice Nicolau

Tarifa de 100% no açúcar orgânico desafia parceria Brasil-EUA

Colunista Analice Nicolau

26/01/2026 20h42

Leontino Balbo Jr., vice-presidente da Native

OTA estima US$ 85 milhões extras pressionando custos e crescimento da indústria orgânica americana

A decisão do governo dos Estados Unidos de eliminar a Specialty Sugar Quota , mecanismo que permitia a importação de açúcar orgânico com tarifa reduzida, e de aplicar uma tarifa adicional de 50% sobre o produto importado desafia a indústria americana de alimentos orgânicos e a parceria estratégica construída ao longo de três décadas com o Brasil.

Com as medidas, a tarifa total aplicada ao açúcar orgânico brasileiro que entra nos EUA passa a ser de 100%. Estudo da Organic Trade Association (OTA), que representa a indústria de orgânicos no país, estima que a decisão pode gerar mais de US$ 85 milhões em taxação adicional paga pela indústria, com impacto direto sobre custos de produção e preços ao consumidor. O açúcar orgânico utilizado pela indústria americana passou a custar cerca de US$ 1.350 por tonelada, enquanto o açúcar convencional produzido no país é comercializado ao redor de US$ 600 por tonelada.

O Brasil responde hoje pela maior parte do produto importado pelos Estados Unidos e sustenta uma cadeia agrícola dedicada e rastreável, estruturada especificamente para atender às exigências do selo USDA Organic, certificação oficial do governo americano para essa indústria. Leontino Balbo Jr., vice-presidente da Native, uma das principais produtoras globais de açúcar orgânico, destaca: “O açúcar orgânico é um insumo estrutural, sem substituto, em um mercado em que a produção doméstica é insuficiente. A Native orgulha-se de ter construído essa ponte confiável ao longo de décadas”.

Em 1994, emissários da então nascente indústria de alimentos orgânicos dos Estados Unidos chegaram ao interior de São Paulo com um impasse concreto: havia leite orgânico, grãos orgânicos e frutas orgânicas, mas faltava açúcar orgânico para formular iogurtes, sorvetes, cereais matinais e outras categorias em rápida expansão. A Native atendeu essa demanda pioneira: iniciou a conversão de fazendas para manejo orgânico, redesenhou a usina para processar exclusivamente açúcar orgânico e, em 1997, colheu o primeiro lote certificado, com 1.600 toneladas. No ano seguinte, a produção já havia dobrado.

Ao longo das duas décadas seguintes, usinas brasileiras responderam por cerca de metade de todo o açúcar orgânico utilizado pela indústria de alimentos orgânicos nos Estados Unidos. “O Brasil, liderado por empresas como a Native, investiu consistentemente para sustentar o crescimento dessa indústria global“, afirma Balbo. O modelo de produção de cana orgânica gera até 20 vezes mais postos de trabalho que o sistema convencional, criando impacto social positivo construído ao longo de décadas. A Native é premiada pelo BCG e World Economic Forum como Champion of Sustainability, destacada pela Ellen MacArthur Foundation e selecionada pela ONU no Biodiversity in Good Company.

Segundo a OTA, as vendas de produtos orgânicos nos Estados Unidos cresceram 5,2% em 2024, mais que o dobro do ritmo do mercado total, de 2,5%,  e alcançaram US$ 71,6 bilhões. “A Native defende o restabelecimento do enquadramento regulatório anterior, para preservar o abastecimento confiável e o crescimento sustentável da cadeia”, diz Leontino Balbo Jr. Quando as políticas reconhecem a realidade da oferta global, todos ganham: indústria americana, consumidores e produtores comprometidos com excelência.

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