A Rota Bioceânica desponta como um dos projetos mais estratégicos para o futuro da América do Sul. Prevista para ser concluída em 2026, a obra prevê um corredor rodoviário de 2.396 quilômetros que conectará os oceanos Atlântico e Pacífico por meio dos portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, passando por Brasil, Paraguai e Argentina.

Segundo o especialista Ricardo Scheffer, a iniciativa tem potencial para revolucionar a logística sul-americana.
“Estamos falando de uma mudança que pode reduzir em até 17 dias o transporte de cargas rumo à Ásia e à Oceania, criando uma alternativa competitiva ao Canal do Panamá”, afirma.

Mais que economia: integração cultural e desenvolvimento urbano
Além de acelerar o comércio exterior, a rota deverá gerar impactos diretos no turismo, na valorização cultural e no desenvolvimento das cidades ao longo do trajeto.
“Não se trata apenas de uma via de escoamento de produtos. É uma oportunidade de integrar pessoas, culturas e cadeias produtivas, ampliando o alcance do desenvolvimento econômico e social”, explica Scheffer.
Dados da Comtrade Database da ONU reforçam a relevância da iniciativa. Em 2024, o Brasil exportou US$ 337 bilhões, sendo 29% destinados a países do continente americano — a segunda maior região de destino, atrás apenas da Ásia.

Infraestrutura digital: o diferencial da rota
Para o especialista, a obra não pode se limitar ao asfalto.
“A infraestrutura física precisa caminhar junto com uma infraestrutura digital robusta. Sem tecnologia, a rota não alcançará seu verdadeiro potencial”, defende Scheffer.
Entre os desafios ainda em andamento estão os 300 quilômetros sem pavimentação no Paraguai, a conclusão da ponte binacional sobre o Rio Paraguai e a harmonização de acordos aduaneiros, sanitários e de segurança.
Nesse contexto, o Mato Grosso do Sul tem se destacado com a Infovia Digital, uma Parceria Público-Privada (PPP) que leva fibra óptica até Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai.
“Com conectividade de ponta, o estado se consolida como porta de entrada das exportações brasileiras rumo ao Pacífico”, ressalta.
O projeto prevê ainda o uso de vídeo analítico, câmeras inteligentes, sensores de tráfego e plataformas de controle aduaneiro integradas. Esses recursos, conectados a Centros de Operações Integradas (COIs), possibilitarão monitoramento em tempo real e respostas rápidas em casos de emergência.
“Postos de apoio automatizados e sistemas digitais de integração aduaneira devem acelerar os trâmites, aumentar a segurança e melhorar as condições de trabalho dos motoristas”, explica Scheffer.
Expansão para novos modais
Embora inicialmente rodoviária, a Rota Bioceânica deve ganhar complexidade com novos modais.
As negociações recentes entre Brasil e China para a expansão ferroviária indicam uma ampliação da logística.
“Essa evolução aumenta ainda mais a importância de uma infraestrutura tecnológica robusta, capaz de sustentar o crescimento do projeto”, observa Scheffer.
No entendimento do especialista, a rota é um divisor de águas.
“A tecnologia deixa de ser coadjuvante e passa a ser a base que sustentará a competitividade, a segurança e a fluidez de todo o projeto”, conclui.