Durante entrevista concedida ao BIPPCast, o podcast do Brazilian Institute of Practical Pharmacology, que é um portal de atualização terapêutica online, os médicos psiquiatras Dr. Luiz Dieckmann e Dr. Michel Haddad puderam debater e sanar diversas dúvidas sobre o Transtorno Afetivo Bipolar com Profa. Alexandrina Meleiro. Além de ser Doutora em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo – USP, ela também é coordenadora da comissão de saúde mental do médico da Associação Brasileira de Psiquiatria –ABP e é autora de diversos livros de artigos e livros de psiquiatria.

Para começar a conversa, o Dr. Michel Haddad solicitou que a Profa. Alexandrina Meleiro explicasse um pouco como o Transtorno Afetivo Bipolar foi descoberto, como ele se apresenta e quais são os seus sintomas. “Veja bem, se a gente voltar na história nós vamos falar muito do Transtorno Bipolar da mania circular, que a pessoa tinha horas que estava no polo depressivo e horas estava no polo de euforia e excitação. Quem mais descreveu isso foi Kraepelin, emnbora teve outros estudiosos, mas eu acho que não cabe aqui a gente ficar dando nomes, mas sim de que ela foi chamada inicialmente de ‘psicose maníaco depressiva’, esse termo caiu em desuso porque psicose ‘Parece que eu sou louco’, ‘Eu não quero ser louco’, ‘Eu não sou doido’ e aí passou a chamar Transtorno Afetivo Bipolar e hoje mais comumente a gente chama de Transtorno Bipolar. E o que é isso? É quando a pessoa ela acaba tendo manifestações tanto do polo depressivo, portanto é uma doença psiquiátrica cíclica, a fase depressiva e há momentos que a pessoa está normal e em outros momentos ela está em uma fase de euforia, de irritabilidade, de grandiosidade. Algumas pessoas podem passar períodos grandes só com depressão, mas a gente vai olhar se ele tem histórico de familiares com Transtorno Bipolar, se teve algum momento onde ela não se recorda, mas ela ficou muito eufórica, ela fez muita compra, muita compulsão, muitas coisas que geralmente a pessoa não se recorda, porque ela acha aquilo norma, quem vê que aquilo não é normal são as pessoas em sua volta. Claro que hoje há uma banalização, se a pessoa fala uma coisa e depois ela muda de opinião, ‘Ah, ela é bipolar’. Não use banalizar o termo bipolar, é uma doença bastante séria. A pessoa que tem caso não trate sofre muito, tratando, eu digo que ela é normal. Então, a pessoa tratada com Transtorno Bipolar, ela é normal”, iniciou ela.

O Dr. Luiz Dieckmann pediu para a Profa. Alexandrina Meleiro dar continuidade ao assunto e para ela abordar aspectos como o que seria a Bipolaridade Tipo 2 e que seria o espectro que é muito mencionado que se trata de Transtorno Afetivo Bipolar. “Isso tudo vai depender dos sintomas que a pessoa vai apresentar, como eu disse, muitas vezes o Transtorno Bipolar começa só com a depressão, tem um episódio depressivo, melhora, busca tratamento, passa um período normal, depois volta a ter outro quadro depressivo, mas aí pode ter ou não sintomas psicóticos, se tem sintomas psicóticos na depressão, nós temos que ficar alerta, mas tratar. Gradativamente vai aparecendo também um componente ansioso junto dessa depressão, que vai trazendo para nós algumas características chamadas ‘mista’, a depressão com características de ansiedade que adquiri. E vai gradativamente, nós vamos buscar, como eu já disse, tem família com Transtorno Bipolar, teve algum período que ela ficou… nós vamos caminhado para Transtorno Bipolar Tipo 2. O que é o Tipo 2? É quando, além da depressão, tem alguma fase de hipomania, isso é difícil da gente identificar. Porque todo mundo quer ter hipomania, a pessoa se sente bem e muitas pessoas disfarçam tão bem, que passa como se ela fosse daquele jeito, mas ela fica mais falante, ela fica mais eufórica, ela tem menor necessidade de sono, ela acaba executando um monte de coisa e quem está a volta fala ‘Nossa, ela está ótima’. No trabalho ela acaba sendo explorada, no bom sentido, porque ela faz coisas, mas aquilo já tá sendo doentio, até que todo mundo acha que se controla na hipomania e aí esses sintomas que estavam em grau moderado exacerbam e aí vai para a mania, aí nós temos o bipolar tipo 1, quando classicamente nós temos episódios de mania, de euforia, de irritabilidade. A depressão, como foi lá… também pode ter irritabilidade, também pode ter algum sintoma disfórico, pode ter às vezes sintomas atípicos e nós vamos caminhar. Agora, o Luiz e o Haddad estão esperando que eu fale da ciclotimia, quando a pessoa tem traços de personalidade esse é o basal dela, onde ela está na maioria das vezes alegre, feliz, mas isso é o basal dela, não é o Transtorno Bipolar, que como eu disse, é por fase depressiva ou fase de mania. O ciclotímico caminha o tempo todo embora possa ter pequenas oscilações, ela caba ciclando para mania, para hipomania, mas pouca coisa e é um traço que dura mais de dois anos. Claro, que a pessoa com ciclotimia, dependendo dos acontecimentos, e a vida não para de ter acontecimentos, pode desenvolver um quadro depressivo maior. De acordo com ele fizer abuso de algumas substâncias, algumas drogas, pode entrar no quadro de euforia e aí nós temos a comorbidade”, explicou ela.
Após a exemplificação do que é o Transtorno Bipolar Tipo 2 e do que é ciclotimia, os médicos falaram brevemente sobre a importância do diagnóstico correto e solicitaram que a Profa. Alexandrina Meleiro abordasse um pouco sobre a questão do tratamento. “Para tratar uma pessoa com Transtorno Bipolar a regra número um é o diagnóstico, muitas vezes demora oito, dez, às vezes até doze anos até que se faça o diagnóstico adequado e correto, porque a gente não verificou a histórica familiar, a gente não verificou desde a adolescência e às vezes a comorbidade com ansiedade, com abuso de substâncias, com TOC, com outros quadros que mistura tudo. Claro que nós tratamos o Transtorno Bipolar, eu acabei de falar para vocês que Transtorno Bipolar é normal e nós queremos deixar o paciente normal. De que maneira? O Transtorno Bipolar ele exige que a gente tenha um estabilizador de humor como regra básica, um estabilizador de humor. Qual estabilizador de humor? O médico que vai estar assistindo a pessoa, que vai estar dando assistência, vai escolher o melhor estabilizador de acordo com o que ela contou das fases de depressão, se teve fase de mania ou fase hipomania, se tem histórico familiar, se já usou outra substância antes e nós vamos escolher o melhor estabilizador de humor. Se está na fase depressiva, além do estabilizador de humor, nós vamos ver qual é o grau da depressão, algumas pessoas que tem uma depressão moderada para grave, grave ou grave com ideação suicida, nós vamos pensar também em um antidepressivo, claro que se tem ideação suicida, nós vamos ver se ela pode ficar em casa ou se precisa de cuidados maiores como uma internação. Se ela tem Transtorno Bipolar, mas está em uma fase de hipomania ou em uma fase mania, além de um estabilizador de humor, eu vou usar um neuroléptico atípico para potencializar e encurtar o sofrimento dela, da família e a tranquilidade do médico. Por quanto tempo nós vamos deixar o tratamento? Depende do que nós estamos tendo como objetivo, como eu disse a palavra, eu vou repetir, a gente quer a pessoa normal, como é uma doença crônica e cíclica, vai ter períodos que a pessoa vai estar normal. Então, nós podemos tirar o remédio? Não, o estabilizador de humor vai ficar por longo tempo. Eu brinco que a gente só tira estabilizador de humor quando a pessoa já não tem mais vida, ela deixou de existir porque ela tá tão velinha, com 99 anos, aí a gente tira, mas a gente não tira o estabilizador de humor, a gente pode, se ela tiver tendo efeitos aversos, trocar o estabilizador de humor, reduzir a dose, gerenciar conforme o que for falado. Que época da vida está? Se é um adolescente, se é um adulto jovem, se é um adulto, se é um idoso, se é mulher, se tem menstruação, se tem gestação, se está na menopausa. A cada fase, o bom médico vai adaptar a medicação. E mais do que medicação, a psicoterapia, porque vai fazer a pessoa lidar com as adversidades da vida passada, as adversidades presentes e se preparar para adversidades futuras, isso evita o gatilho de novas fases. Se a pessoa se trata, ela vai ter menos gatilho, ela vai enfrentar melhor as situações. Ela pode casar, ela pode trabalhar, ela pode estudar, ela pode viver porque tratada é normal. Isso é tão importante e também cuidar da família, porque quem tem uma pessoa com Transtorno Bipolar, ele afeta na fase depressiva os familiares, na fase euforia, de mania ou hipomania afeta os familiares. Então, a família também tem que ser tratada. E no conjunto disso tudo a psicoeducação, no qual eu não poderia deixar de falar da ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos), que está à disposição de quem quiser aprender sobre a doença, os gatilhos, as coisas que protegem e as coisas que são risco”, conclui ela.