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Analice Nicolau
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Quando a depressão não responde aos remédios, existe novo caminho

Colunista Analice Nicolau

16/06/2026 14h51

Quando a depressão não responde aos remédios, existe novo caminho O Dr. Adiel Rios explica como a cetamina e EMT transformam o cuidado de casos resistentes na psiquiatria Durante décadas, pacientes diagnosticados com depressão resistente enfrentaram uma jornada dolorosa, marcada por sucessivas tentativas terapêuticas frustradas e longos períodos de espera por melhoras que raramente chegavam. Diante desse cenário de estagnação, abordagens inovadoras na medicina transformam o que a ciência consegue oferecer a quem já tentou de tudo, amparadas por evidências sólidas. Para detalhar essa mudança estrutural, o psiquiatra Dr. Adiel Rios, MD, MSc, PhDst, médico atuante em neuromodulação em São Paulo, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e secretário da Comissão de Procedimentos e Intervenções em Psiquiatria da entidade, braço que avalia a psiquiatria intervencionista, além de fellow em Transtorno Bipolar pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, analisa como a tecnologia supera os antigos limites clínicos.

O psiquiatra Dr. Adiel Rios, MD, MSc, PhDst, médico atuante em neuromodulação em São Paulo

O Dr. Adiel Rios explica como a cetamina e EMT transformam o cuidado de casos resistentes na psiquiatria


Durante décadas, pacientes diagnosticados com depressão resistente enfrentaram uma jornada dolorosa, marcada por sucessivas tentativas terapêuticas frustradas e longos períodos de espera por melhoras que raramente chegavam. Diante desse cenário de estagnação, abordagens inovadoras na medicina transformam o que a ciência consegue oferecer a quem já tentou de tudo, amparadas por evidências sólidas. Para detalhar essa mudança estrutural, o psiquiatra Dr. Adiel Rios, MD, MSc, PhDst, médico atuante em neuromodulação em São Paulo, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e secretário da Comissão de Procedimentos e Intervenções em Psiquiatria da entidade, braço que avalia a psiquiatria intervencionista, além de fellow em Transtorno Bipolar pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, analisa como a tecnologia supera os antigos limites clínicos.

Estudos epidemiológicos apontam que cerca de um terço das pessoas tratadas para depressão desenvolve a variante resistente, definida clinicamente quando os sintomas persistem mesmo após pelo menos duas tentativas conduzidas adequadamente com remédios de classes distintas. Historicamente, essa falta de resposta aos antidepressivos convencionais gerava sentimentos severos de desesperança e a falsa conclusão de que não existiam alternativas viáveis para o sofrimento. O erro fundamental do passado, conforme aponta o histórico da disciplina, residia na hipótese reducionista de que o transtorno depressivo se limitava a um desequilíbrio químico linear na superfície celular, ignorando a complexidade dos arranjos neurais estruturais.

A superação desse impasse ocorre por meio de dois procedimentos médicos rigorosos que exigem indicação precisa e monitoramento contínuo, distantes do modelo de medicamentos de farmácia consumidos rotineiramente em casa. O primeiro método é a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), técnica que utiliza campos magnéticos aplicados externamente na cabeça, sem cortes ou necessidade de anestesia, focando nas áreas cerebrais correlacionadas ao humor. A segunda alternativa envolve o uso terapêutico da cetamina, substância que se divide comercialmente entre a esketamina em spray nasal, fórmula de marca registrada, patenteada e de custo elevado, e a cetamina comum intravenosa, um composto genérico antigo e acessível utilizado há décadas na anestesia tradicional.

Enquanto os antidepressivos comuns focam na regulação da serotonina e demandam de quatro a oito semanas para manifestar resultados práticos, a cetamina atua na capacidade celular de criar e refazer conexões neuronais em poucas horas. Esse mecanismo célere encontra validação no estudo internacional ESCAPE-TRD, liderado por Reif e colaboradores em 2023 no New England Journal of Medicine, que avaliou mais de seiscentos pacientes em vinte e quatro países e demonstrou a eficácia superior do spray nasal comparado à quetiapina. Demonstrando como esse avanço reorganiza o sistema nervoso central de forma dinâmica, o Dr. Adiel Rios detalha a engenharia biológica do órgão: “O cérebro funciona em redes, como circuitos que conversam entre si. Na depressão, essas redes ligadas ao humor, ao sono, à energia e à vontade de viver perdem a sintonia. As novas terapias atuam justamente aí, na forma como o cérebro se reorganiza, e não apenas na química de superfície”.

A busca por equidade no acesso destaca que a versão intravenosa de baixo custo obteve destaque em uma ampla revisão assinada por Bahji e colaboradores no Journal of Affective Disorders, indicando taxas de remissão robustas através de comparações científicas indiretas. Adicionalmente, pesquisas lideradas por Anand e colaboradores na mesma revista de prestígio internacional apontaram que a cetamina injetável possui eficácia equivalente à eletroconvulsoterapia moderna para casos graves sem sintomas psicóticos, com a nítida vantagem operacional de constituir um procedimento técnico substancialmente mais simples. Defendendo a transparência indispensável na prática clínica diária, o especialista salienta os limites éticos do tratamento médico: “O objetivo nunca é vender esperança fácil. É oferecer uma alternativa de verdade, baseada em evidência, para quem já sofreu demais. Quem promete cura para todo mundo está mentindo. E quem nega esses tratamentos a quem tem indicação está deixando um paciente sofrer à toa. Os dois erros machucam”.

No campo da neuromodulação, a EMT progrediu com o protocolo moderno theta-burst, que emite rajadas magnéticas rápidas para encurtar as sessões e intensificar o cronograma terapêutico. Um estudo conduzido pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, publicado em 2025 na JAMA Psychiatry, testou essa inovação em cem pacientes por meio de medição geométrica simples da cabeça, sem necessidade de ressonância magnética, registrando 52% de resposta contra 22% no grupo que recebeu simulação desligada, subindo para 85% de melhora nas fases adicionais. Paralelamente, cientistas de Stanford desenvolveram o protocolo SAINT, publicado no American Journal of Psychiatry e replicado com testes rígidos em 2026 na World Psychiatry, revelando que metade dos pacientes graves atingiu a remissão em um mês usando exames de imagem direcionados, impulsionando a visão científica exposta pelo médico: “Saímos da lógica de só apagar sintomas para tentar devolver à pessoa a vida que ela tinha”.

A consolidação definitiva dessas abordagens estabelece uma fronteira clara entre a psiquiatria intervencionista responsável e promessas superficiais voltadas a tristezas passageiras ou modismos comerciais de suplementação. A aplicação de tais tecnologias requer avaliações individuais meticulosas e obediência estrita aos critérios internacionais de segurança biológica, combatendo os estigmas socioeconômicos e clínicos que cercam o sofrimento psíquico profundo. A superação da antiga premissa de desamparo terapêutico firma-se na atualidade não por otimismo abstrato, mas em decorrência de ampla literatura científica publicada, testada e acessível aos profissionais de saúde. Sintetizando o compromisso terapêutico em restabelecer a autonomia existencial, a autoridade médica conclui o real impacto dos tratamentos: “O que se recupera, no fim, é a capacidade de acreditar de novo que a melhora é possível”.

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