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Analice Nicolau
Analice Nicolau

Quando a cicatriz vira revolução que começa pela cabeça

Colunista Analice Nicolau

23/01/2026 17h12

Rogério Amaral no espaço em Suzano na grande São Paulo

Rogério Amaral chama 21 milhões de homens para renascerem com qualidade de vida e alto estima

Eu tenho essa coisa meio estranha que carrego dos meus 20 anos de jornalismo: reparar como alguém entra numa sala. Sabe aquele detalhe que ninguém nota? A forma como o corpo se move, ou não se move. A postura que entrega vulnerabilidades antes da primeira palavra. O brilho nos olhos ou aquela falta dele que pesa no ar. Rogério Amaral chegou assim: um furacão contido, na fase de renascimento mesmo, como ele mesmo disse com aquele sorriso que não é totalmente seguro, mas é verdadeiro. Num Brasil onde 42 milhões sofrem com alopecia (SBD),  21 milhões só de homens, e 4-6% dos adultos carregam TDAH não diagnosticado (ABDA), Rogério não é só raridade. Ele é o chamado. Um convite bruto para você, homem lendo isso agora: chegou sua vez.

Por 27 anos trabalhando com público masculino e feminino, Rogério viu de tudo: mulheres entrarem tristes, com insegurança desenhada no rosto, olhares baixos, mãos nervosas brincando com a bolsa. E saírem transformadas, literalmente outras pessoas. A mágica aconteceu toda semana, o espelho devolvendo versões que elas nem lembravam que existiam. Mas agora ele voltou totalmente para o público masculino e para próteses capilares. Até que resolveu experimentar. Colocou uma prótese capilar nele mesmo. E naquele espelho, tudo desmoronou e renasceu ao mesmo tempo. Homem, você já se olhou assim? Já viu o peso que carrega sem nome?​

Porque Rogério descobriu que aquela alopecia que ele achava que não o incomodava? Incomodava. E muito. Durante 40 anos ele tinha sobrevivido, não vivido, mas sobrevivido, mascarando algo que nem sabia nomear. TDAH. Autismo. Aquela sensação constante de estar errado, de ser diferente, inadequado num mundo que claramente não foi desenhado para pessoas como ele. Quando finalmente veio o diagnóstico, foi como tirar um peso das costas. Literalmente. “A gente cresce tão acostumado a carregar o que não é nosso que quando tira, nem sabe respirar direito”, ele disse. E você vê nos olhos dele: é verdade que liberta. E agora ele estende a mão pra você.​

Rafael Torres

Ele não vem aqui dizer que está tudo resolvido, que virou outra pessoa da noite pro dia. Tem semanas que se afunda em depressão dentro de casa, traumas que ainda doem como feridas abertas. Mas agora ele sabe quem ele é. E foi Rafael Torres quem deu esse empurrão decisivo. Foi num papo no ano passado, que essa amizade que já dura 5 anos, mostrou para Rafael o potencial de Rogério e incentivou: “Vale super a pena, vai dar certo”. Foi esse direcionamento que levou Rogério a mergulhar de cabeça no mercado de próteses capilares masculinas. Porque ele SENTIU na própria pele cada agulha de vergonha que agora pode arrancar de você.​

Rogério Amaral e Rafael Torres no espaço em Suzano na grande São Paulo

Em Aracaju, dias 12 e 13 de abril, ele leva uma imersão que vai muito além de técnica. Não é curso de “como colar cabelo na cabeça”. É humanização completa: tricologia avançada, entendimento profundo das patologias, mas principalmente o lado emocional que ninguém tem coragem de falar. Chegam rapazes de 19 anos completamente encolhidos, alopecia desde os 15, usando bônê na piscina de tanta vergonha, querendo desaparecer. Um deles fez a prótese, olhou no espelho e chorou. Perguntou em voz alta: “Por que ninguém me disse que era possível ser feliz assim? Porque demorei tanto tempo para me permitir?”. Homem, essa pode ser sua história na próxima semana.​

Rogério é desses raros encontros que mudam você por dentro, que fazem repensar certezas. No Brasil onde 1,4 milhão de homens vivem com TEA e alopecia masculina é tabu silencioso, não existe ninguém igual. Ele ainda está se adaptando, ainda está aprendendo a não se mascarar para o mundo. Mas agora ele molda o próprio espaço. Agora ele dita as regras de como quer ser tratado. E essa, meu bem, é a verdadeira transformação. Não é o cabelo novo no espelho. É o brilho novo nos olhos de quem finalmente recebeu autorização para ser si mesmo.

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