Menu
Analice Nicolau
Analice Nicolau

Parceria CNN-Omelete indica novo caminho para os veículos convencionais

José Alves Trigo, professor no Centro de Comunicação e Letras (CCL) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

Analice Nicolau

05/08/2025 14h00

unnamed(1)

José Alves Trigo

A CNN Brasil anunciou no início de junho uma parceria com o site Omelete, focado em entretenimento e cultura pop.

parceria omelete

É um acordo entre uma empresa de comunicação com sinal de televisão, no modo mais tradicional de produção jornalística, com uma empresa do setor digital que atinge um público médio de cerca de 80 milhões de pessoas por mês. A CNN também diz ter um público semelhante em quantidade de usuários, distribuídos nas redes sociais, no portal Youtube e na televisão convencional.
 

Com uma marca associada à televisão aberta, as transmissões pela TV parecem representar para a rede americana a sua menor expressão no Brasil. Segundo o Kantar Ibope, em maio deste ano a média de audiência com pessoas assistindo ao mesmo tempo a rede CNN, de janeiro a dezembro de 2024, foi de 13.974 espectadores. A Globo News, na liderança, nesse segmento, teve 60.554 espectadores.
 

A CNN foi criada em 1980 pelo empresário Ted Turner e a primeira a transmitir noticiário durante 24 horas por dia. Também se notabilizou pelas coberturas de guerra, sobretudo com o correspondente Peter Arnett, que cobriu guerras como a do Golfo e do Vietnã.
 

O Omelete é um site de entretenimento criado no ano 2000 e que em 2007 teve uma experiência além do mundo digital, criando uma revista impressa.
 

Um relatório do Reuters Institute, empresa de comunicação, divulgado em maio deste ano, mostra que 35% dos brasileiros estão tendo acesso às notícias por meio das redes sociais. Esse número é superior ao dos Estados Unidos, onde 34% dos americanos acompanham notícias pelas redes sociais. Apenas para efeito de comparação, em países como Dinamarca e Japão esse número é próximo de 10%.
 

Se as pessoas cada vez mais estão acompanhado notícias pela internet, o mesmo não ocorre com a televisão. De acordo ainda com esse relatório, nos Estados Unidos, em 2013, 72% das pessoas acompanhavam o noticiário pela televisão e no ano passado esse número caiu para 50%.
 

No Brasil, saímos de um patamar, em 2013, no qual 90% das pessoas recebiam as notícias pela televisão, para um número de 75%. O setor dos veículos impressos desabou de 50% em 2013 para 10% no ano passado. Nesse mesmo período, o número de pessoas que acompanhava as notícias por celular saltou de 23% para 82%.
 

O que esses números mostram é um certo abandono das mídias tradicionais em detrimento do que se convencionou chamar de novas mídias, como as redes sociais. E a parceria CNN, que tem sua origem no jornalismo tradicional, com uma plataforma de notícias e entretenimento, vem consolidar um perfil que se pode observar em outras redes.
 

A Rede Globo, sem desenvolver parcerias, criou seus tentáculos digitais como um agrupador de streaming, que é o Globoplay e seu site de informação noticiosa, que é o G1. Dessa forma, amplia seu leque de atividades, dependendo menos de seu eixo central, que é o canal de televisão aberto.
 

Outras emissoras ainda parecem ter dificuldades para seguir esse modelo, como a Rede Record, Bandeirantes e o SBT.
 

Na parceria da CNN a proposta é de que também sejam desenvolvidos conteúdos e análises sobre cinema, séries e lançamentos dos canais de streaming, além de jogos, quadrinhos, mangás e animes.
 

Esse projeto parece ter como propósito desenvolver uma narrativa transmidiática, como denominou o pesquisador americano Henry Jenkins, para quem as mídias se complementam e o telespectador pode percorrer por vários meios, possibilitando uma interconexão, mas ao mesmo tempo mantendo a independência de cada narrativa.
 

Também se estabelece uma discussão sobre um eventual fim da televisão convencional como forma de transmissão. O teórico canadense Marshal McLuhan defendia que os meios de comunicação não serão extintos, mas sim convertidos em novos meios, ocupando outros espaços. Assim ocorreu com o teatro, com o cinema e mais recentemente com o rádio, que ganhou uma nova roupagem com os podcasts.
 

O que a CNN parece estar fazendo é preservar a sua unidade âncora, que é onde normalmente reside a sua maior credibilidade, e expandir seus negócios com parcerias que até há pouco tempo pareciam pouco prováveis.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado