Menu
Analice Nicolau
Analice Nicolau

Obesidade pode afetar 50% das crianças e adolescentes até 2035; nutricionista Ana Paula Damasceno explica por que ela é fator de risco para outras doenças como o câncer 

A obesidade infantil também pode provocar doenças cardiovasculares, hipertensão e colesterol alto na infância e na vida adulta; Ana Paula Damasceno aponta a mudança dos hábitos alimentares da família e a atividade física como soluções para essa situação

Analice Nicolau

16/04/2024 17h00

Foto: Divulgação

Até 2035, metade das crianças e dos adolescentes brasileiros podem ser afetados pela obesidade ou pelo sobrepeso, segundo uma projeção feita pelo Atlas Mundial da Obesidade 2024. Esse dado acende um alerta e preocupa profissionais da saúde, como a nutricionista materno infantil Ana Paula Damasceno, que destaca as principais consequências dessa condição para a vida das crianças e como o ambiente familiar contribui para os hábitos alimentares.

            Na última semana, também foi divulgada uma pesquisa realizada pela Fiocruz, em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia (UFMG) e a University College London, que já mostra um aumento na taxa de obesidade entre crianças e adolescentes no Brasil. Na faixa etária de 5 a 10 anos, o aumento foi de 2,7% entre os meninos e de 2,1% entre as meninas.

Esses resultados alarmantes geram preocupações quanto à saúde e alimentação das crianças. Ana Paula aponta que é necessário reconhecer que a obesidade infantil é uma doença que, na maioria dos casos, não vem sozinha: “O acúmulo de células adiposas causa uma inflamação no corpo, o que por si só já é uma doença, e ela é um fator de risco para outras enfermidades, como câncer, hipertensão, diabetes, colesterol alto e doenças cardiovasculares, sendo também um fator de agravamento para doenças respiratórias”.

Ela explica que esses riscos podem aparecer durante a infância ou adolescência, assim como na vida adulta. Um exemplo desse cenário preocupante é o aumento do Diabetes tipo 1 entre as crianças. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, na década de 1990, uma em cada 15 mil crianças tinha a doença. Entretanto, com o passar dos anos, essa proporção é de uma para cada 8 mil crianças.  

Por isso, entender o que pode causar esse aumento de crianças obesas é essencial. A nutricionista afirma que um dos principais fatores é o ambiente em que elas estão inseridas:  “Existe o que a gente chama de ambiente obesogênico, que se refere a influência de outras pessoas e do próprio ambiente para aquela criança comer em excesso. Um exemplo é a casa em que não se cozinha e que a família compra majoritariamente alimentos industrializados”. O excesso de doce, açúcar e sal na alimentação auxiliam a desenvolver a obesidade. Alguns alimentos prejudiciais para a saúde das crianças são: suco de caixinha, macarrão instantâneo, bolacha recheada, bebida láctea e os salgadinhos industrializados.

Ademais, Ana Paula aponta o sedentarismo como uma grande preocupação, visto que não é mais comum ver crianças brincando, correndo e andando de bicicleta na rua como era antigamente, quando elas tinham mais flexibilidade e contato com a atividade física no dia a dia. Um estudo divulgado em março e feito em conjunto pela Universidade de Oxford e outras três instituições, indica que houve um aumento de três horas no tempo sedentário durante a infância e o início da fase adulta, o que também aumenta as chances de desenvolver a obesidade, dislipidemia, inflamação e aumento do coração.

Além disso, provoca a rigidez arterial que, de acordo com a pesquisa, é um fator de risco para a obesidade e para outras doenças, como síndrome metabólica e resistência à insulina. “Por isso a gente precisa recompensar em atividades extracurriculares, como natação, futebol, ginástica, qualquer tipo de exercício que vai fazer com que a criança saia do sedentarismo”, afirma a nutricionista. 

Além de trazer mudanças em relação à atividade física, a alimentação também precisa ser repensada. “A mudança que faz mais diferença é quando a família inteira se dedica para transformar a rotina da criança. Não adianta nada a gente iniciar o tratamento com uma criança de 6, 7 anos e falar que ela precisa emagrecer, sendo que os pais têm uma alimentação extremamente ruim. Isso vai ser ruim psicologicamente para a criança, porque ela não está preparada para uma rotina diferente da família por causa do peso”, destaca Ana Paula.

Ela explica que se a criança for a única pessoa obesa da casa, aí sim será necessário tratá-la individualmente. Entretanto, na maioria dos casos, a obesidade vem de família, dos hábitos da casa e do estilo de vida. Ana Paula aponta que é super importante ter um atendimento humanizado para que a criança se sinta bem com o tratamento: “A gente não pode tratar uma criança pensando só em uma dieta restritiva, isso não é saudável para o crescimento dela e para a saúde mental. É importante introduzir alimentos e reduzir outros aos poucos, e sempre contar com uma equipe multidisciplinar para garantir o bem-estar dos pequenos”, finaliza.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado