Como a polarização sequestrou corações e mentes
A política sempre foi feita de ideias, mas hoje parece falar mais alto ao coração do que à razão. O que antes era espaço de debate se transformou em um campo de batalha emocional, onde a identidade vale mais do que os argumentos. Essa é a essência do alerta feito pelo psicólogo Rafael Schieber, cuja análise sobre a psicologia da polarização tem mexido com especialistas e leitores no Brasil e nos Estados Unidos.
Em nossa sociedade, normalmente vemos casos em que o adversário deixou de ser alguém com visão diferente e passou a ser visto como inimigo a ser derrotado moralmente e, em casos extremos, até fisicamente. Uma perigosa transição da divergência para a hostilidade.
Schieber lembra que essa transformação não veio do acaso. Crises econômicas, sucessivos escândalos de corrupção e a perda de confiança nas instituições criaram um caldo fértil para líderes carismáticos e narrativas simplificadas, que oferecem vilões e salvadores prontos. Mas a engrenagem que elevou essa polarização a outro patamar foi o algoritmo das redes sociais, que descobriram no medo e na raiva um negócio altamente lucrativo. “O feed tornou-se um espelho distorcido”, explica o psicólogo. Em vez de abrir horizontes, ele aprisiona em bolhas, reforça certezas e alimenta desconfianças.

Da psicanálise, Schieber traz conceitos de Freud e Winnicott para ilustrar esse cenário. O primeiro com a ideia da projeção: atribuímos ao outro aquilo que não suportamos em nós mesmos. O segundo com a noção de “objetos transicionais”: líderes que, como um cobertor infantil, oferecem falsa sensação de segurança em tempos turbulentos.
O paralelo entre Brasil e Estados Unidos é inevitável. Nos dois países, campanhas eleitorais deixaram de ser disputa de propostas para virar narrativas épicas, onde cada lado se proclama o representante do Bem contra o Mal absoluto.

As consequências dessa paixão desmedida para com a política já se sentem no cotidiano: famílias divididas, amizades desfeitas, confiança corroída. Como alerta Schieber, o que se desfaz não é apenas o diálogo, mas a própria cola invisível da democracia, aquela que permite que diferenças convivam sem se transformarem em rupturas.