Especialista em saúde emocional, Schieber analisa identidade latina, pertencimento e autoestima coletiva brasileira
A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl 2026 no início de fevereiro, seguida do show explosivo em São Paulo dias depois, vai muito além da música. É um espelho delicado e potente para uma fratura silenciosa da nossa identidade: o Brasil que racionalmente sabe que é latino, mas emocionalmente ainda se enxerga à parte. O psicólogo clínico e psicanalista Dr. Rafael Schieber, formado pela UFMG com 17 anos de clínica focada em vida adulta e carreiras, ajuda a nomear o que sentimos.
Quando um artista porto-riquenho acorda uma criança adormecida em cadeiras de casamento, ele não faz apenas um gesto cênico; ele aciona memórias compartilhadas. “Essa cena revela um tipo de vínculo que atravessa fronteiras: é o corpo cansado na festa, acolhido sem ser retirado daquilo que é coletivo”, observa o Dr. Schieber. Ao falar de perda, ausência e fotografias que não foram tiradas, Bad Bunny alcança uma tristeza que não paralisa. É luto, mas também é vida que segue. Neste lugar, o Brasil se reconhece sem confessar. Fomos ensinados a nomear o que dói, mas nem sempre a admitir de onde isso vem.

Quando o artista, ao final do show, cita um a um os países das Américas e deseja “God Bless America” numa chave inclusiva, ele não enumera territórios: ele chama pessoas pelo nome, igualando norte, centro e sul em um mesmo gesto de bênção. Para muitos brasileiros, há ali uma sensação inédita de autorização para sentir orgulho de ser latino. O incômodo aparece porque, durante décadas, olhamos para o Norte como ideal e para o espanhol como algo menor, utilitário. Criamos uma defesa sofisticada: rejeitar o que nos aproxima do restante do continente para preservar uma singularidade frágil. É um narcisismo de proteção, não de maturidade, um sintoma de uma identidade construída mais em oposição do que em pertencimento.

Na experiência pessoal do Dr. Rafael Schieber em Nova York, ser chamado primeiro de ‘latino’ antes de ‘brasileiro’, escancara-se desse descompasso. Há acolhimento do lado de fora, mas estranhamento do lado de dentro. Somos brasileiros e latinos ao mesmo tempo, mas não aprendemos a nos apresentar assim. Para Schieber, isso não é detalhe identitário, é saúde psíquica: “Quando uma identidade é construída sempre contra alguma coisa, ‘não sou latino, não sou como eles’, ela se torna dependente da negação. isso cobra um preço emocional alto e nos impede de viver a própria potência coletiva. Ao evitar o rótulo, evitamos também o apoio que ele pode oferecer.” conclui ele.
Enquanto isso, o mundo consome estética brasileira, deseja morar aqui, tenta falar nossa língua, romantiza nosso calor humano. O turismo cresce, a cultura circula, o funk e o samba embalam playlists globais. Ainda assim, seguimos inseguros diante do olhar europeu ou norte‑americano, comemorando cada prêmio e cada palco como se fossem autorização definitiva de existência. A apresentação de Bad Bunny, com canadenses se autointitulando “snow latinos” nas redes, inverte a lógica: de repente, outros querem pertencer àquilo que nós tratamos com reserva. O lugar que evitamos passa a ser, para muitos, desejo, e isso denuncia o quanto ainda terceirizamos nosso próprio valor.

Ser latino não é ser genérico. É compartilhar uma forma de viver em que a tristeza dança, a festa acolhe quem dorme nas cadeiras e o coletivo insiste em sobreviver, mesmo nas dores. Por muito tempo, o Brasil esteve no continente como quem observa da margem, traduzindo‑se apenas para o Norte. A cena do Super Bowl, ao nomear todos os países, lembra que nunca estivemos fora, apenas resistimos a nos enxergar dentro. Talvez assumir essa condição não seja apenas um gesto político, mas um ato de honestidade interna. Como resume o Dr. Rafael Schieber: “A verdadeira cura identitária começa quando paramos de pedir permissão para ser quem já somos.” concluiu o Dr.