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Analice Nicolau
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Fissura labiopalatina: entenda a malformação congênita que afeta um bebê nascido a cada 3 minutos

A condição pode ser, em geral, diagnosticada ainda durante a gravidez e a cirurgia de correção é o primeiro passo do tratamento multidisciplinar indicado

Analice Nicolau

14/06/2022 11h15

A condição pode ser, em geral, diagnosticada ainda durante a gravidez e a cirurgia de correção é o primeiro passo do tratamento multidisciplinar indicado

No Brasil, um a cada 650 bebês nascem com a fissura labiopalatina, um defeito congênito comum, resultado da malformação dos lábios e/ou céu da boca (palato) no período gestacional.

As causas da condição são desconhecidas, mas especialistas concordam que podem ser multifatoriais e incluir predisposição genética e exposições ambientais. Quando não tratadas, as fissuras labiopalatinas causam sérios problemas físicos e emocionais, o último, resultado do estigma enfrentado pelos pacientes.

Conhecida popularmente e erroneamente por “lábio leporino”, termo pejorativo associado à lebre e que deve cair em desuso, as fissuras labiopalatinas podem ser diagnosticadas durante a gravidez por um ultrassom de rotina ou após o nascimento do bebê. No entanto, certos tipos de fenda palatina só são diagnosticados de maneira tardia.

“O exame clínico da mucosa bucal de recém-nascidos é de extrema importância. A fenda palatina submucosa, forma específica de fissura que é recoberta pela mucosa oral e nasal, por exemplo, é mais complexa de diagnosticar. No bebê o diagnóstico deve ser feito por exame físico, olhando-se sob a luz e realizando-se o toque no palato, mas muitas vezes este exame clínico inicial mais minucioso passa despercebido e somente surge a suspeita quando a criança começa a falar e a voz se mostra “fanhosa”. Para esses casos, é necessário seguimento com avaliação periódica da percepção auditiva, e eventualmente a realização de exame endoscópico,” explica Dra. Daniela Tanikawa, cirurgiã plástica e craniofacial, uma das mais conceituadas especialistas no assunto, que trabalha no Hospital Municipal Menino Jesus, entidade que conta com o apoio da Smile Train – maior organização do mundo dedicada à causa da fissura labiopalatina.

As fissuras também podem causar problemas dentários, além de infecções recorrentes de ouvido e perda auditiva. “A ausência do acompanhamento profissional adequado pode levar a sequelas irreversíveis, que afetam a deglutição, mastigação, respiração e fonação”, complementa a cirurgiã.

Os sintomas físicos impactam também a saúde emocional dos pacientes, principalmente pelo estigma da fissura, onde estes se sentem envergonhados e podem até mesmo ser excluídos e sofrer discriminação por parte da sociedade. Por muitas vezes, o bullying e o preconceito afetam o acesso ao tratamento, o rendimento escolar de crianças e, posteriormente, sua vida profissional.

“Passei minha vida toda recebendo aqueles olhares que dizem mais que mil palavras. Sofri bastante por não ter a aceitação dos meus colegas e demais crianças. Passei a esconder minhas cicatrizes da boca com maquiagem ainda adolescente. A autoaceitação veio apenas mais tarde, quando entendi que não havia nada de errado comigo. Percebi então que a melhor arma contra o estigma da fissura é a informação acessível e de qualidade”, conta Raíza Bernardo, maquiadora, modelo plus size e idealizadora do projeto Beleza fissurada.

O tratamento multidisciplinar, quando iniciado precocemente, permite que a criança tenha um melhor desenvolvimento e qualidade de vida. A cirurgia de reparação é o primeiro passo, recomendada ainda nos primeiros meses de vida. Além do resultado estético imediato, o reparo cirúrgico pode melhorar a respiração, a audição e o desenvolvimento da fala e da linguagem. Para complementar o tratamento, também é necessário o acompanhamento com diversos profissionais, entre eles fonoaudiólogos, dentistas, ortodontistas, psicoterapeutas e nutricionistas.

“O apoio familiar foi a base de tudo. Minha primeira cirurgia foi realizada aos oito meses de vida; ao todo, foram cinco procedimentos cirúrgicos realizados em paralelo com as consultas com ortodontistas, terapeutas e fonoaudiólogos. Hoje, com 26 anos, sigo em tratamento multidisciplinar e sei que não preciso de maquiagem para esconder quem eu sou. Meu objetivo profissional e de vida é fazer com que a causa seja conhecida, para que mais pessoas tenham acesso ao tratamento multidisciplinar e sejam acolhidas como eu fui. Quero ser a representatividade que tanto desejei ver ainda criança”, finaliza Raíza.

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