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Analice Nicolau
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“Existem muitas pessoas negras, trans, muitas mulheres que não concordam com o meu discurso e eu acho isto ótimo, porque demonstra que há pluralidade”, afirma a deputada federal Erika Hilton

Erika Hilton, deputada federal (PSOL-SP) fez a afirmação em entrevista a Reinaldo Azevedo e Walfrido Warde no podcast Reconversa

Analice Nicolau

24/05/2023 16h00

Erika Hilton, deputada federal (PSOL-SP) é a primeira deputada trans e negra eleita no estado de São Paulo. A deputada participou do Reconversa, podcast apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo advogado Walfrido Warde e divulgado no YouTube de Reinaldo Azevedo. A entrevista durou mais de uma hora e meia, e Erika deu um verdadeiro show de conhecimento e esclarecimento sobre diversas questões do universo das identidades.


Reinaldo apresentou Erika como pessoa singular e reafirmou sua coragem e a assertividade na política. A entrevista começou com a apresentação da vida da deputada, que contou que nasceu no interior de São Paulo, veio de uma família simples e que não precisou de passar por transição porque sempre se identificou como menina. A deputada contou que chegou a ser expulsa de casa pela mãe e que recorreu à prostituição durante a adolescência.


Contou ainda que sua mãe a convidou a voltar para casa depois de questionar sua decisão de colocar a filha para fora ao invés de protege-la. Erika contou que a universidade despertou nela a militância. Ela cursou gerontologia na USP, e lá mesmo fundou um cursinho pré-vestibular para travestis e transexuais junto a um coletivo. Ali, percebeu uma precariedade institucional. A base familiar que teve foi muito importante em sua formação como pessoa, entretanto, sentia que faltava algo mais, pois sempre se via e se colocava em papeis de liderança.


“Eu estava em condições de desumanização, eu não era enxergada em condição de sujeita humana nem pela sociedade, nem pelo estado, nem pela minha família, e eu dizia: eu sei que existe um outro lugar. Ali eu vi que não tinha condição”, disse Érika sobre a falta de lugar que se encontrou. A trajetória acadêmica, sua forte base estudantil, sua trajetória de vida e seu desejo por mudar sua própria realidade impulsionaram até a política. Erika Hilton foi eleita vereadora na cidade de São Paulo: negra e trans, foi a mulher mais bem votada em 2020 em todo o país, e a mais votada do PSOL, e foi a primeira trans eleita para a Câmara Municipal paulistana, com mais de 50 mil votos. Em 2022, se afastou para concorrer ao cargo de deputada ao qual foi eleita.


O grande momento da entrevista foi quando Erika falou sobre pluralidade. “Parece que eu não posso ser plural, parece que eu não posso ser diversa, parece que eu não tenho o direito. Parece que eu só cheguei aonde eu cheguei, pelo simples fato de ser quem eu sou, de carregar uma identidade. Você só chegou aqui porque tem essa bandeira. Quando na verdade, não” e justificou. “Existem muitas pessoas negras, existem muitas pessoas trans, existem muitas mulheres que não concordam com o meu discurso e eu acho isto ótimo, porque demonstra que é a pluralidade. Eu não falo em nome de todas as mulheres, eu não falo em nome de todas as pessoas negras, eu não falo em nome de todas as pessoas trans, porque este movimento não é singular. Não basta colocar uma pessoa negra, colocar uma pessoa trans, colocar uma mulher e dizer: ela representa todos. Não represento. Porque tem pessoas que divergem da minha opinião, tem pessoas que divergem do meu ponto de vista, porque nós pensamos de formas distintas”, afirmou a deputada Erika Hilton.


Sobre a forma como se enxerga, Erika reforçou que não precisa ter o pensamento diário que é uma mulher negra trans, porque simplesmente é. “Quando eu chego naquele espaço, levada pela minha história, é a minha história que me impulsiona a dizer: eu quero disputar a política. Mas eu tenho trajetória. Eu passo pela universidade, eu discuto os mais variados assuntos, eu vivo a cidade, eu vivo a precariedade do transporte na periferia, eu vivo a realidade da minha mãe, da minha vó. Eu não falo só sobre ser, até porque as pessoas falam mais sobre a minha condição do que eu mesma. Porque eu só existo, eu sou eu. Pro outro eu sou trans, pro outro eu sou negra, pro outro eu sou… Eu não acordo todos os dias e falo: nossa, deixa eu me arrumar aqui. Eu, mulher, negra, transexual e tentar salvar o mundo. Eu quero ficar bonita, eu quero ficar elegante, eu quero escolher a melhor roupa, o melhor perfume, a melhor maquiagem. Eu quero existir, que é um direito que me é roubado”, disse a deputada.


Erika ainda falou sobre linguagem neutra, militância extrema, divergências da liberdade de expressão, moradia, e demonstrou que tem interesse sobre os planos diretores das cidades para resolver problemas que envolvem pessoas, indiferente de suas identidades. “Hoje eu não quero sair da política, mas eu me vejo fora da política. Tem dias que estão tão duros e cruéis. Mas será que eu não posso fazer outra coisa, existir, brilhar em outro lugar?”, disse Erika na reta final da entrevista.

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