Menu
Analice Nicolau
Analice Nicolau

Escritora Lia d’Assis lança o potente romance “Arqueologia das dores”

Colunista Analice Nicolau

15/05/2026 14h44

Escritora Lia d'Assis lança o potente romance “Arqueologia das dores” Lia d’Assis mergulha na alma humana para revelar traumas conjugais e denúncias sociais em sua nova obra literária

A escritora Lia d’Assis lança o potente romance “Arqueologia das dores”

Lia d’Assis mergulha na alma humana para revelar traumas conjugais e denúncias sociais em sua nova obra literária

Lia d’Assis consolidou uma trajetória brilhante na literatura desde 2013, transitando com maestria entre o universo infantojuvenil e a delicadeza da poesia. Agora, em maio de 2026, a autora apresenta seu primeiro romance voltado ao público adulto, intitulado “Arqueologia das dores”. Com uma formação sólida pela Unicamp, onde trilhou caminhos do mestrado ao doutorado em Teoria e História Literária, Lia utiliza sua autoridade acadêmica e sensibilidade artística para dissecar a complexidade das relações humanas. O livro foca na crise profunda do casal Maria Lúcia (Malu) e Alberto (Beto), intensificada pela presença da sogra, Lurdes.

A narrativa se destaca por uma estrutura inusitada que foge do óbvio ao oferecer três perspectivas distintas sobre os mesmos fatos. Através dos subtítulos “Museu de Malu”, “Caixa de Pandora de Lurdes” e “Desvãos de Alberto”, o leitor é convidado a desenterrar memórias e traumas ocultos. Essa multiplicidade de vozes não apenas amplia a compreensão da trama, mas confere à obra uma densidade psicológica rara, permitindo que cada personagem se revele em suas dores e contradições. É um texto poético, porém pungente, que desafia o leitor a olhar para as fissuras da convivência.

Malu, a protagonista, é o motor da história ao decidir confrontar o silêncio e a falta de paixão que corroem seu casamento. Ignorando conselhos para manter o passado enterrado, ela assume a corajosa missão de revirar as “gavetas” de sua existência para dissolver angústias acumuladas. “Não posso mais!”, grita a personagem, evidenciando uma urgência vital de autoconhecimento que ressoa em qualquer pessoa que já se sentiu sufocada pela rotina. Sua busca pelo fim da dor é o fio condutor que humaniza a narrativa e estabelece uma conexão imediata com o público.

A escritora Lia d’Assis

Em contrapartida, Beto personifica a frieza e o pragmatismo, agindo como o oposto temperamental de sua esposa emotiva. No entanto, sob a pressão das indagações de Malu, ele é forçado a reconhecer suas próprias fragilidades e a origem de seu isolamento emocional. Beto revela que seu silêncio foi um mecanismo de defesa aprendido na infância, onde seus sentimentos raramente faziam diferença para os outros. Essa dinâmica expõe a anatomia de um relacionamento onde a comunicação falha, transformando a convivência em um campo minado de incompreensões e mágoas não ditas.

A figura central na formação da rigidez de Beto é sua mãe, Lurdes, cuja entrada na trama ocorre de forma impactante através de laudos de demência. A doença faz com que Lurdes misture passado e presente, deixando escapar verdades incômodas e segredos guardados a sete chaves. Suas reminiscências revelam uma mulher endurecida pela vida, cuja “Caixa de Pandora” serve como explicação para o comportamento distante do filho. A demência, aqui, atua como uma ferramenta literária poderosa para desnudar o que a lucidez social tentou, por décadas, esconder do mundo.

A escritora Lia d’Assis lança o potente romance “Arqueologia das dores”

O romance de Lia d’Assis vai além do drama doméstico ao pautar questões sociais urgentes e profundamente brasileiras através do núcleo da família Menezes. A relação de Lurdes e Beto com figuras como D. Magnólia e Dr. Augusto expõe cicatrizes de preconceito e trabalho doméstico em condições análogas à escravidão. Além disso, a obra aborda com destemor e franqueza questões de gênero, incluindo cenas de abusos sexuais e silenciamentos históricos. Essa camada de denúncia social eleva o livro a um patamar de relevância política, essencial para os debates contemporâneos.

Capa do Livro “Arqueologia das Dores” da escritora Lia d’Assis

“Arqueologia das dores” é, em última análise, um inventário sobre a solidão, o desamparo e as tentativas erráticas de afeto. Ao escavarem suas memórias, os personagens de Lia d’Assis mostram que, embora o caminho do autoconhecimento seja doloroso, ele é a única via possível para uma vida com menos sofrimento. O desfecho da protagonista Malu oferece um sopro de esperança e renovação, provando que é possível renascer mesmo após o desmoronamento de um casamento. É uma leitura obrigatória para quem busca entender as nuances da alma e os reflexos da sociedade na intimidade.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado