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Analice Nicolau
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Em momento emblemático, Zé Celso negocia com Silvio Santos terreno que era alvo de disputa entre os dois há quase 40 anos: “é uma ocasião histórica”

Em 2017, o então prefeito de São Paulo, João Doria organizou uma reunião entre os dois para tentar colocar fim à disputa que se arrastava há 37 anos e propor um empreendimento que atendesse os interesses das duas partes

Analice Nicolau

06/07/2023 17h00

Em agosto de 2017, o então prefeito de São Paulo, João Doria, conseguiu reunir o dramaturgo Zé Celso, morto nesta quinta-feira (6), e o apresentador Silvio Santos, para tentar chegar a um acordo sobre o terreno do teatro Oficina no bairro do Bixiga, que já era alvo de uma disputa entre os dois há 37 anos naquele ano.


A conversa foi registrada em vídeo e publicada pela Folha de São Paulo e mostrou que além de Zé Celso, Silvio Santos e João Doria, o então vereador Eduardo Suplicy e executivos. Silvio Santos conseguiu reverter no Condephaat, Conselho Estadual de Patrimônio, uma decisão que o proibia de construir um conjunto de torres residenciais no terreno vizinho ao teatro de Zé Celso, porém, Zé Celso iniciou uma campanha para que a construção fosse vetada.


O impasse sobre o terreno acontecia porque Silvio Santos comprou o terreno ao lado do teatro Oficina, mas foi impedido de construir torres residenciais no local porque o edifício do teatro, é tombado e havia sido restaurado por Lina Bo Bardi. Com a construção dos prédios, a vista privilegiada que os espectadores tinham de parte da cidade durante as peças do teatro ficaria comprometida.


A reunião aconteceu na sede do SBT, onde Silvio Santos estava aguardando as partes. O apresentador estava sorridente e recebeu Zé Celso com brincadeira: “Zé Celso, você veio com um poncho, heim?”. Zé Celso responde: “vim com um poncho do México”, e Silvio completa: “está parecendo um dançarino mexicano!”. Zé Celso justifica: “eu vim para uma sessão ‘solenérrima’, é uma ocasião histórica”. Silvio continua: “primeiro artista fantasiado de mexicano”. Zé Celso: “de índio mexicano. Tarahumara. Não é mexicano não. Eles não se consideram mexicanos. São Tarahumara”. Silvio dá corda: “você deveria escrever um livro, Zé Celso. Deve ter um bocado de histórias para contar”. Zé Celso concorda: “tenho, Nossa Senhora. Todos nós temos”. E Silvio rebate: “não, você tem mais, você rodou mais”. Então Zé Celso diz: imagina, não vamos competir”. Até que Silvio Santos interrompe: “vamos lá, vamos lá”, e se dirige ao prefeito apresentando sua questão sobre o terreno.


Em tom de brincadeira, Silvio Santos diz: “meu secretário deu uma boa ideia: a gente coloca lá a ‘drogalândia’, como é que é, a cracolândia, e o drogado que mais se destacar no dia ganha um prêmio”. Em seguida, argumentou que havia comprado o terreno e que não o daria a Zé Celso. Por outro lado, Zé Celso afirma que eles precisavam conhecer o projeto que eles tinham. Na conversa, tanto Silvio quanto Zé Celso defenderam seus argumentos para o terreno e Zé falou sobre o desejo que tem de colocar tendas e aproveitar o espaço que “é o último vazio de São Paulo, aquele lugar é maravilhoso”. João Doria interrompeu a discussão de Silvio e Zé dizendo: “amores à parte, vamos tentar encontrar um bom caminho”, e disse: “eu tenho muita preocupação em preservar o teatro, ele é um valor real, e está funcionando, esse é o ponto um, preservar para que ele continue funcionando por muitos e muitos anos e que não seja cercado por um terreno baldio”.


Segundo Doria, um projeto de Silvio Santos poderia viabilizar um “funding” (financiamento) e uma área de “retail” (varejo) em um pequeno “mall”. Zé Celso então pergunta: “O que é um ‘mall’?”, e Doria explica: “é um shopping menor”. A presença do teatro Oficina no “backyard” (quintal) do empreendimento criaria um “asset” (ativo) para os investidores, disse Dória. Zé Celso expressou discordância em relação ao empreendimento apresentado por Doria. “A gente tem que pensar na cidade, cara. Eu tenho 80 anos e ele [apontou para Silvio] tem mais que eu. Daqui a pouco a gente some do mapa”. Doria interrompe e diz: Não, vocês vão viver muito ainda”. Zé Celso continua: “Não, a cidade fica. É verdade, você sabe disso”. Disse novamente apontando para Silvio Santos, que respondeu: “Eu não quero morrer. Eu não vou morrer. Se você quer morrer, pode ir”. Então, Zé Celso completa: “Você é o Rei Lear!”.


Na despedida, Zé Celso presenteou Silvio com um livro que contava os 60 anos de história do Teatro. Silvio pergunta: “O que é isso aqui?”. Zé Celso responde: “Olha, isso aqui, tem os 60 anos do Tetro resumidos aqui”. Silvio repete: “o que é isso aqui?”. Zé Celso explica: “Isso aqui é um livro. É um livro que foi feito. Mas, ele está fechado”. Silvio continua: “Não, mas não precisa abrir. O que que é?” Zé Celso novamente explica: “Livro de ouro. É um livro de ouro”. E Silvio interrompe: “Mas deixa eu ver. Calma!”. Zé Celso ironiza: “Oba, você pediu calma! Que maravilha, você se acalmou”. Silvio responde: “Acalmei? Você tava… Eu não estava nem preocupado com isso. Vai com Deus”. Zé Celso responde: “Tchau, Silvio. Eu gosto muito de ti”. Silvio responde em tom de brincadeira: “você não faz nem ideia do que você vai ver, você vai se ferrar. Vou transferir a cracolândia para lá e vou dar prêmio. O maior droguista todo dia ganha um prêmio!”. “Pode ser, não tem problema. Isso aí eu tiro de letra. Tiro de letra mesmo, cara. Eu sei lidar com a coisa”, finaliza Zé Celso.

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