Livro de contos da juíza de direito e escritora piracicabana encerra a “Trilogia dos Quandos”, na qual ela buscou retratar as dimensões física, espiritual e emocional do ser humano, simbolizadas por estômago, alma e coração
Eliete de Fátima Guarnieri mergulha profundamente nas complexidades das emoções humanas em sua obra mais recente, “Quando o Coração Sangra”, que encerra a aclamada “Trilogia dos Quandos”. Composta por 13 contos impactantes, esta obra publicada pela Editora Casa de Astérion reflete a maturidade literária da juíza de direito e escritora piracicabana, que utiliza sua experiência profissional e sensibilidade para explorar temas densos como melancolia, psicopatia, fobia, desespero, vício, desejo e tragédia.
A trilogia iniciada com “Quando o Estômago Grita” e seguida por “Quando a Alma Viaja” não é uma série linear, mas sim uma coleção de obras independentes que se complementam ao abordar as três dimensões fundamentais do ser humano: a física, a espiritual e a emocional, simbolizadas respectivamente pelo estômago, pela alma e pelo coração. “Quando o Coração Sangra” foca na dimensão emocional, apresentando narrativas sem redenção, que desafiam o leitor a confrontar os abismos e paradoxos do coração humano.
O conto que dá título ao livro exemplifica esse mergulho introspectivo, onde a tristeza é vista como uma potência criativa, um paradoxo vivido pela própria autora. Entre as histórias que compõem a coletânea, sobressaem-se relatos intensos e multifacetados que exploram desde o ódio e a indignação em “Profano” até a busca desesperada por paz em “Requiem” e o dilema singular de obsessão em “Efeito Sanfona”. Narrativas como “Desejo” e “Heresia” provocam reflexões críticas sobre os limites entre o sagrado e o profano, especialmente nas manifestações do desejo humano.

A escrita de Eliete Guarnieri é marcada por uma ironia mordaz e uma capacidade singular de expor, sem romantização, as contradições, sofrimentos e complexidades da existência humana. Em contos como “Na chuva” e “Ter e ser”, a autora dialoga com questões sociais como a desigualdade e a exclusão, reforçando o compromisso da literatura com a crítica social e a promoção do pensamento reflexivo.
Graduada em Direito pela USP e atuando como juíza titular há mais de duas décadas, Eliete une sua carreira jurídica à produção literária, enriquecendo sua narrativa com profundo conhecimento da natureza humana. Seu engajamento com a literatura foi reconhecido recentemente com sua entrada na Academia Piracicabana de Letras, reforçando sua autoridade como escritora e intelectuais.
“Quando o Coração Sangra” é uma leitura imprescindível para quem busca compreender as nuances do sofrimento, força e complexidade humanas por meio da literatura contemporânea brasileira. A obra convida o leitor a uma experiência visceral, onde a reflexão sobre as emoções mais profundas se transforma em um exercício de autoconsciência e empatia.
Este título representa não apenas a conclusão de uma trilogia literária que dialoga com as múltiplas facetas do ser humano, mas também a afirmação de Eliete Guarnieri como uma das vozes mais autênticas e corajosas do panorama literário atual.