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Analice Nicolau
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Educar para a crise climática: como a Aprendizagem Criativa e a ludicidade podem transformar a escola pública

Estudos e diretrizes de organismos internacionais como a UNESCO e a OCDE já apontam que eventos climáticos extremos não são apenas desastres pontuais

Analice Nicolau

22/07/2025 16h00

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Veronica Gomes dos Santos

Quando falamos sobre desigualdades na educação brasileira, é comum que o debate se concentre em questões como infraestrutura precária, evasão escolar, falta de recursos pedagógicos e desigualdade de acesso. No entanto, há um fator que, embora venha ganhando espaço nas discussões públicas, ainda precisa ocupar o centro das estratégias educacionais: os impactos das mudanças climáticas. 

Como educadora, me preocupa ver o quanto esse tema ainda é tratado como um problema futuro ou restrito ao meio ambiente, quando na verdade já está afetando, de forma desigual e brutal, a vida de milhões de crianças e adolescentes em nosso país. A crise climática não é uma possibilidade distante. Ela já faz parte do cotidiano das escolas brasileiras e precisa ser encarada como tal e a educação, nesse contexto, precisa se reinventar para ser também ferramenta de cuidado, resistência e construção coletiva de soluções.

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Segundo levantamento do UNICEF, mais de 40 milhões de crianças e adolescentes no Brasil – quase 60% da população nessa faixa etária – estão expostos a múltiplos riscos climáticos

Estudos e diretrizes de organismos internacionais como a UNESCO e a OCDE já apontam que eventos climáticos extremos não são apenas desastres pontuais. Eles comprometem de forma estrutural o acesso, a permanência e a aprendizagem de estudantes em todo o mundo e, no Brasil, isso se evidencia com ainda mais força. Enchentes, secas prolongadas, queimadas e ondas de calor são obstáculos concretos e frequentes para o pleno cumprimento do direito à educação.

O país tem enfrentado, nos últimos anos, uma sucessão de tragédias ambientais que escancaram a urgência dessa pauta. As enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, a seca severa na Amazônia, a fumaça que cobriu o Distrito Federal, as chuvas torrenciais na região serrana do Rio de Janeiro e em Alagoas são exemplos concretos de como a emergência climática atinge diretamente o cotidiano escolar. Escolas danificadas, aulas suspensas, equipamentos destruídos, transporte escolar inviabilizado, professores e alunos adoecidos. Em muitas comunidades, as escolas, por serem o único equipamento público disponível, se tornam abrigos emergenciais para famílias desabrigadas, adiando o retorno das aulas e agravando os prejuízos educacionais e sociais.

Segundo levantamento do UNICEF, mais de 40 milhões de crianças e adolescentes no Brasil – quase 60% da população nessa faixa etária – estão expostos a múltiplos riscos climáticos. Isso significa que milhões de estudantes vivem em regiões onde as enchentes interrompem as aulas, o calor extremo dificulta a concentração, as queimadas agravam doenças respiratórias e o medo do próximo desastre se torna uma constante. Só entre 2022 e 2023, mais de 1,5 milhão de crianças e adolescentes foram diretamente impactados por emergências climáticas no país.

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Veronica é Diretora de Implementação e Parcerias com Redes de Ensino do Instituto Escolas Criativas

Esses impactos não são iguais para todos. Eles recaem com ainda mais força sobre crianças e adolescentes negras, indígenas, quilombolas, migrantes, refugiadas, de povos e comunidades tradicionais e estudantes com deficiência. A injustiça ambiental se sobrepõe a desigualdades históricas, criando um ciclo perverso em que os mais vulneráveis são os mais atingidos e os que terão menos condições de enfrentar as consequências.

Como defensora da aprendizagem criativa como caminho para transformar realidades, entendo que é justamente nesse cenário que esta abordagem  e a ludicidade se revelam ferramentas potentes de resistência, cuidado e mobilização. Mais do que nunca, precisamos enxergar a criatividade e o brincar como estratégias pedagógicas e sociais para fortalecer crianças e jovens diante de um mundo em constante crise. Não se trata apenas de método didático ou de “aulas diferentes”, mas de processos que ressignificam a experiência escolar e devolvem a essas crianças e adolescentes a possibilidade de agir sobre o próprio território.

Quando propomos boas perguntas às crianças, aquelas que instigam, desafiam e abrem espaço para a investigação e o pensamento crítico, não estamos apenas ensinando conteúdos, mas criando oportunidades para que elas reflitam, em ato, sobre o lugar onde vivem e as consequências das mudanças ambientais que afetam suas vidas. Boas perguntas mobilizam não apenas respostas, mas a criação de projetos com propósito, cuja importância ultrapassa a formalidade de uma apresentação escolarizada.

Estas, por sua vez, dão sentido ao aprendizado quando conectam interesses pessoais ao mundo ao redor, convidando os estudantes a transformar suas descobertas em produtos, ações ou reflexões que dialoguem com a comunidade, sejam acessíveis, contestáveis e aprimoráveis. Assim, mais do que respostas corretas, o que se constrói é um percurso significativo de investigação, criação e aprendizagem.

A ludicidade, nesse contexto, não é acessório. É central. Brincar, criar e experimentar são formas de elaborar medos, ansiedades e incertezas diante de um cenário que, muitas vezes, os adultos sequer conseguem explicar. Um levantamento realizado pela The Lancet Planetary Health, em 2021, revelou que 59% dos jovens brasileiros se sentem muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas — o maior índice entre os dez países pesquisados. Essa chamada “ansiedade ambiental” afeta o bem-estar infantil e interfere na capacidade das crianças de viverem plenamente a infância.

Quando os espaços públicos de convivência são destruídos por enchentes ou se tornam impraticáveis pelo calor extremo, as possibilidades de brincar e conviver se reduzem. Onde a rua alaga, o ato de brincar se transforma em risco. Onde a fumaça sufoca, não há espaço seguro para correr e pular. E é justamente aí que a escola precisa se tornar esse espaço protetor e criativo, onde a ludicidade seja ferramenta de escuta, expressão e construção de alternativas.

Montar um mapa das áreas mais afetadas pelas enchentes no bairro, criar um jogo de tabuleiro sobre a importância do cuidado com a água, construir maquetes de casas mais resistentes às inundações, desenvolver campanhas de conscientização para a própria comunidade ou produzir vídeos sobre a história das secas na região, essas são ações que não só dão sentido ao currículo escolar, mas também ajudam a construir resiliência, autonomia e senso de pertencimento.

Educar para a emergência climática não significa apenas falar sobre desastres ambientais. Significa criar condições para que as crianças e jovens se sintam parte ativa na transformação de seus territórios e encontrem, na escola, um espaço de acolhimento, expressão e reinvenção. A aprendizagem criativa, com seu foco no fazer, na colaboração e na ludicidade, é, portanto, uma estratégia poderosa para transformar desafios em oportunidades educativas significativas.

Se quisermos de fato enfrentar as desigualdades educacionais brasileiras, não podemos mais ignorar a crise climática, nem deixar de reconhecer a potência que o ato de fazer e criar coletivamente tem na construção de futuros possíveis. Porque garantir o direito à educação não se resume a oferecer sala de aula e professor. É também cuidar do planeta, proteger as infâncias e construir, junto com as comunidades, soluções sensíveis, criativas e sustentáveis para um mundo em que todos possam, de fato, aprender e viver.

Por Veronica Gomes dos Santos
Diretora de Implementação e Parcerias
com Redes de Ensino do Instituto Escolas Criativa
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