Advogado especialista em reestruturação de passivo sustenta que o endividamento bancário decorre de decisões e contextos identificáveis, e não de eventos fortuitos
No Brasil de 2026, em um ambiente marcado por juros elevados, instabilidade cambial e pressão crescente sobre setores como o agronegócio, o endividamento bancário não pode ser compreendido apenas como um evento financeiro isolado. Segundo o advogado Daniel Rocha Rodrigues, ex-gerente da Caixa e fundador da Rocha Rodrigues Advogados, a dívida frequentemente cumpre uma função dentro da dinâmica do negócio. “Ela não surge por acaso. Em muitos casos, é consequência de padrões decisórios e emocionais anteriores, que acabam encontrando na dívida uma solução provisória, ainda que disfuncional, para conflitos não enfrentados”, afirma.
Para ele, a empresa reflete a forma como seu controlador lida com risco, limites e confronto, e parte da solução está em identificar e romper esses padrões. Rodrigues afirma que, na prática, é possível resolver tecnicamente muitos conflitos entre empresas e bancos, e isso é feito diariamente. No entanto, ele alerta que, sem a identificação das causas que levaram ao endividamento, o problema tende a se repetir. “Há casos em que renegociamos a dívida, encerramos a disputa com o banco, e algum tempo depois o passivo retorna, maior e mais grave. Isso acontece porque a dívida, muitas vezes, cumpre uma função dentro da história do empresário”, explica.
Segundo ele, todo problema recorrente carrega um ganho oculto: pode servir como forma de adiar confrontos, buscar reconhecimento pelo esforço excessivo ou até permitir dizer ‘não’ com menos culpa. “Quando tudo parecia indicar que daria certo e não deu, vale investigar: haverá uma utilidade nesse resultado aparentemente ruim”, afirma.
Para Daniel, reconhecer essa dimensão não afasta a necessidade de atuação técnica, ao contrário, a torna ainda mais relevante. “Quando a advocacia compreende o funcionamento do provisionamento bancário e o utiliza de forma estratégica, é possível enfrentar o problema financeiro de maneira objetiva e preservar a viabilidade da empresa”, explica. Ele ressalta, contudo, que essa é apenas uma das facetas do endividamento, que envolve também capacidade de gestão, crenças e padrões decisórios do empresário
Ao avançar para uma leitura mais profunda da origem do passivo, Rodrigues defende que há um dever ético de alertar o empresário sobre esse contexto. “Nossa experiência empírica com empresários mostra que o passivo descontrolado não é apenas um acidente. Ele costuma atender a uma função, ainda que inconsciente, enquanto determinadas decisões, limites ou conflitos não são enfrentados”, explica.
Por essa razão, Rodrigues afirma que simplesmente eliminar a dívida, sem enfrentar as causas que a produziram, tende a gerar recorrência, frequentemente de forma mais grave. “Quando a origem não é trabalhada, o problema retorna. Normalmente isso é atribuído ao azar ou ao acaso. Aqui, adotamos outra postura: a da autorresponsabilidade”, diz.
Para ele, essa constatação pode ser desconfortável num primeiro momento, mas também libertadora. “Se o problema não é fruto de uma maldição ou de um destino aleatório, então a saída não depende de sorte, mas de decisão, método e acompanhamento adequado”, conclui.
Com atuação em todo o Brasil, Daniel Rocha Rodrigues construiu uma prática jurídica voltada à reorganização de empresas em contextos financeiros complexos. Ao unir estratégia jurídica, leitura do sistema bancário e compreensão dos fatores que antecedem o endividamento, sua advocacia busca devolver ao empresário o controle das decisões e criar condições reais para uma reconstrução sustentável do negócio.