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Analice Nicolau
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Cuidado renal, dois Brasis: como o frio do Sul e o calor do Norte mudam o tratamento

Colunista Analice Nicolau

16/07/2026 18h22

Cuidado renal, dois Brasis: como o frio do Sul e o calor do Norte mudam o tratamento Médicos da Fundação Pró-Rim explicam como o clima extremo no Brasil afeta diretamente a saúde de pacientes renais O território brasileiro abriga disparidades térmicas extremas que influenciam diretamente as práticas de medicina preventiva e o tratamento de enfermidades crônicas. Enquanto os moradores de Santa Catarina enfrentam geadas rigorosas e temperaturas abaixo dos dez graus, a população do Tocantins lida com um calor constante que ultrapassa a marca dos 35 graus. Esse contraste geográfico e climático, embora pareça apenas uma curiosidade meteorológica, impõe desafios de saúde complexos para os indivíduos que convivem com a doença renal crônica. Acompanhando essa dupla realidade no cotidiano de suas clínicas, a Fundação Pró-Rim gerencia o tratamento de pacientes sob condições climáticas radicalmente opostas, demonstrando como as variações de temperatura exigem estratégias de sobrevivência completamente diferentes para proteger o funcionamento dos rins.

A nefrologista Dra. Amanda Meyer da Luz

Médicos da Fundação Pró-Rim explicam como o clima extremo no Brasil afeta diretamente a saúde de pacientes renais

O território brasileiro abriga disparidades térmicas extremas que influenciam diretamente as práticas de medicina preventiva e o tratamento de enfermidades crônicas. Enquanto os moradores de Santa Catarina enfrentam geadas rigorosas e temperaturas abaixo dos dez graus, a população do Tocantins lida com um calor constante que ultrapassa a marca dos 35 graus. Esse contraste geográfico e climático, embora pareça apenas uma curiosidade meteorológica, impõe desafios de saúde complexos para os indivíduos que convivem com a doença renal crônica. Acompanhando essa dupla realidade no cotidiano de suas clínicas, a Fundação Pró-Rim gerencia o tratamento de pacientes sob condições climáticas radicalmente opostas, demonstrando como as variações de temperatura exigem estratégias de sobrevivência completamente diferentes para proteger o funcionamento dos rins.

A doença renal crônica se estabelece como uma das enfermidades mais silenciosas e preocupantes para os sistemas de saúde pública em escala mundial. De acordo com estimativas oficiais da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente dez por cento da população global convive com algum nível de comprometimento na filtragem renal. No cenário nacional, boletins epidemiológicos organizados pelo Ministério da Saúde revelam que a prevalência do diagnóstico atinge cerca de 6,7% da população adulta quando analisada por critérios laboratoriais, com uma incidência substancialmente mais alta na faixa etária idosa. Esse panorama é agravado pelo crescimento constante de comorbidades de base altamente prevalentes na sociedade, sendo a hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus os principais indutores da perda progressiva da função dos órgãos excretores.

As alterações sazonais e as características regionais de cada estado brasileiro interferem ativamente na rotina alimentar e no balanço hídrico de quem necessita de acompanhamento nefrológico. Nos estados sulistas, a queda abrupta da temperatura corporal reduz de forma natural o estímulo sensorial da sede, induzindo as pessoas a passarem mais tempo em recintos fechados e propícios à transmissão de infecções. Paralelamente, nas regiões sob calor extremo, o estímulo constante à ingestão de líquidos desafia o rígido controle de volume prescrito para quem realiza diálise, gerando riscos severos de sobrecarga circulatória. Diante disso, os profissionais da saúde enfrentam a complexa tarefa de orientar os pacientes sobre como interpretar os sinais de desidratação e o acúmulo de líquidos de acordo com o termômetro local.

Ao analisar as particularidades clínicas do inverno catarinense, a nefrologista Dra. Amanda Meyer da Luz, inscrita sob o CRM-SC 28897 e RQE 28727, que atua na Fundação Pró-Rim no estado, esclarece como o frio afeta a regulação hemodinâmica e a imunidade dos pacientes. A médica pontua que a menor ingestão de água decorrente da falta de estímulo térmico compromete gravemente a função dos rins remanescentes, elevando as taxas de internação devido a desajustes cardíacos e respiratórios. Segundo a especialista, “nessa época do ano, as pessoas costumam sentir menos sede e ficam mais tempo em ambientes fechados, e aumenta a circulação de vírus respiratórios, como os da gripe.” O agravamento desse cenário ocorre porque infecções sistêmicas atuam como gatilhos para a falência aguda das funções renais, de modo que, na sua visão técnica, “gripe, covid-19, bronquite e pneumonia podem levar à piora da função renal e aumentar a necessidade de internação. Também observamos mais casos de descompensação da pressão arterial, sobrecarga de líquidos em pacientes que faltam à diálise e complicações cardiovasculares, que são mais comuns durante épocas de frio.” Para quem ainda possui função renal, a médica adverte que “ingerir pouca água pode favorecer a desidratação e até piorar a função dos rins. O frio pode favorecer um aumento da pressão arterial. Pacientes idosos também podem ter maior risco de desidratação, justamente porque acabam ingerindo menos líquidos.”

O nefrologista Dr. Winglerson dos Santos Cordeiro

Em contrapartida, no calor intenso que caracteriza o Tocantins, o desafio clínico se inverte, exigindo que o paciente aprenda a modular o desejo constante de hidratação sob risco de sofrer crises hipertensivas ou congestão pulmonar. O nefrologista Dr. Winglerson dos Santos Cordeiro, inscrito sob o CRM-TO 3506 e RQE 3528, que também compõe o corpo clínico da Fundação Pró-Rim, ressalta que a restrição hídrica severa imposta a quem realiza terapia renal substitutiva torna-se um fardo psicológico e físico muito maior sob temperaturas elevadas. Ele adverte que “o clima quente do Tocantins é um grande desafio para nossos pacientes renais crônicos, principalmente os pacientes dialíticos. O calor estimula a sede, principalmente naqueles que têm restrição hídrica. A sensação de sede é maior, o consumo de líquidos é maior. O risco de complicações hemodinâmicas também aumenta.” Para contornar essa barreira diária e evitar danos graves, o médico ensina soluções comportamentais: “o principal desafio do dialítico no Tocantins é justamente não ingerir aquela quantidade de líquido que o organismo pede. Temos várias complicações possíveis, edema agudo de pulmão, crise hipertensiva, risco elevado de eventos cardiovasculares e até desidratação em alguns casos.” Como alternativa para reduzir o sofrimento, ele sugere que “temos algumas formas para driblar a sede, consumo de gelo, ficar em ambiente com ar condicionado, gomas de mascar, usar garrafinhas com medida de volume determinado, entre outras.”

A adaptação gastronômica representa outra vertente essencial para garantir a eficácia do tratamento nos dois extremos meteorológicos do Brasil, já que pratos típicos regionais ocultam ameaças invisíveis como o sódio e o potássio. No inverno do Sul, caldos quentes, sopas e chás podem facilmente desequilibrar a contagem diária de líquidos se não forem mensurados com rigor matemático pelo paciente. Explicando esse cuidado, a Dra. Amanda Meyer da Luz ressalta que “uma tigela de sopa ou uma caneca de chá entra no cálculo diário de líquidos. O paciente não precisa deixar de consumir alimentos típicos do inverno, mas deve respeitar o limite orientado pela equipe de diálise.” No Tocantins, o perigo migra para as frutas frescas ricas em eletrólitos e o consumo de sal em carnes secas, conforme detalha o Dr. Winglerson dos Santos Cordeiro ao alertar que “os pacientes dialíticos devem ter muito cuidado devido à quantidade de líquidos nas frutas, principalmente melancia, melão, água de coco, abacaxi, laranjas. Não podemos esquecer da quantidade de potássio existente nessas frutas. Esse potássio pode levar a complicações gravíssimas, inclusive óbito.”

Independentemente da latitude geográfica ou da marcação dos termômetros, a aderência incondicional ao protocolo de diálise e o monitoramento constante dos sintomas de alarme permanecem como os pilares universais da nefrologia moderna. Os médicos são unânimes em frisar que faltar às sessões de filtragem sanguínea motivado por condições climáticas desfavoráveis eleva drasticamente os índices de mortalidade por congestão interna. Reiterando a importância de manter a rotina clínica inalterada mesmo sob frio intenso, a Dra. Amanda reforça que “o frio não deve ser motivo para faltar à hemodiálise. Cada sessão é essencial para retirar toxinas e excesso de líquidos do organismo. A ausência pode provocar falta de ar, aumento do potássio no sangue, sobrecarga do coração e outras complicações graves que podem colocar a vida em risco.” Ela acrescenta que “o mais importante é manter o acompanhamento programado e procurar atendimento antes da consulta marcada caso apareçam sintomas novos. O acompanhamento regular permite identificar precocemente qualquer mudança e evitar complicações.” 

Como orientação final para os pacientes enfrentarem as intempéries de forma segura, o Dr. Winglerson recomenda que “ao perceber sensação de dispneia, falta de ar, edemas no corpo, inchaço, aumento súbito do peso, cãibras, confusão mental, fraqueza intensa ou hipotensão, deve procurar imediatamente o serviço de urgência.” Dessa forma, o especialista incentiva a superação dos obstáculos sazonais de maneira otimista e responsável: “fique firme, esse período vai passar. Use roupas leves. Se divirta sem fugir das restrições.” Por fim, a Dra. Amanda Meyer da Luz resume com precisão a essência da prevenção ativa: “pequenos cuidados fazem uma grande diferença. Quanto mais bem controlada estiver a doença renal, menor será o risco de complicações e melhor será a qualidade de vida.”

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