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Analice Nicolau
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Alexandre Maduenho transforma dores juvenis em ficção com novo romance

Colunista Analice Nicolau

24/06/2026 18h23

Alexandre Maduenho transforma dores juvenis em ficção com novo romance O psicólogo Alexandre Maduenho analisa o sofrimento de adolescentes sob o isolamento social em sua nova obra literária A literatura contemporânea ganha um importante aliado na compreensão dos dilemas emocionais que afetam as novas gerações. O psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Maduenho, transpôs sua vasta bagagem clínica para as páginas da ficção em seu livro de estreia, intitulado "A Van: Adolescência em fuga" , no qual o psicanalista conta a história de cinco adolescentes, Caio, Marina, Laura, Leo e Tomás, que, deslocados em seus cotidianos, decidem, certo dia, roubar uma van e fugir à procura de uma realidade que faça sentido para eles. Essa transição do consultório particular para a construção literária reflete o compromisso do especialista em dar visibilidade a vozes frequentemente silenciadas pela incompreensão do mundo adulto.

O psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Maduenho

O psicanalista Alexandre Maduenho analisa o sofrimento de adolescentes sob o isolamento social em sua nova obra literária

A literatura contemporânea ganha um importante aliado na compreensão dos dilemas emocionais que afetam as novas gerações. O psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Maduenho, transpôs sua vasta bagagem clínica para as páginas da ficção em seu livro de estreia, intitulado “A Van: Adolescência em fuga”, no qual conta a história de cinco adolescentes, Caio, Marina, Laura, Leo e Tomás, que, deslocados em seus cotidianos, decidem, certo dia, roubar uma van e fugir à procura de uma realidade que faça sentido para eles. Essa transição do consultório particular para a construção literária reflete o compromisso do especialista em dar visibilidade a vozes frequentemente silenciadas pela incompreensão do mundo adulto.

As raízes dessa produção remontam ao cenário crítico de 2020, período marcado pelo início da pandemia de covid-19 e pela imposição do isolamento social severo. No exercício de sua prática terapêutica, Maduenho testemunhou uma escalada sem precedentes na busca de suporte psicológico por meio de consultas online, impulsionada por um ambiente global anômalo e gerador de profunda ansiedade. O ápice desse panorama alarmante manifestou-se no ano seguinte, quando o profissional recebeu relatos diretos de catorze episódios de tentativas de suicídio envolvendo o círculo social de seus pacientes. Diante dessa realidade epidemiológica dolorosa, o especialista sentiu a necessidade urgente de converter a observação clínica em um manifesto artístico e social estruturado.

Os desdobramentos desses adoecimentos emocionais continuam em franca expansão no tecido social atual, alimentados por novos fatores que desafiam a estabilidade mental dos jovens. O romance mergulha sem filtros em vulnerabilidades contemporâneas complexas, mapeando elementos sensíveis como a automutilação (cutting), as ideações suicidas e a pressão avassaladora exercida pelas redes sociais digitais. Longe de se restringir aos conflitos geracionais tradicionais relacionados ao futuro profissional ou à iniciação sexual, a obra joga luz sobre pautas urgentes do debate público recente, a exemplo da transsexualidade e da ecoansiedade ligada à preservação do meio ambiente global.

“A Van: Adolescência em Fuga” da editora Labrador

O aprofundamento técnico dos personagens expõe uma radiografia detalhada das diferentes dinâmicas familiares que sufocam a individualidade infantojuvenil. Na trama, o leitor encontra Caio, um jovem transexual cuja transição enfrenta a resistência materna, e Marina, que camufla uma depressão severa sob uma fachada de aluna exemplar. Laura lida com a rejeição em um lar desfeito, enquanto Leo tenta escapar da sombra de um pai corrupto e Tomás sofre com a negligência afetiva de uma mãe autocentrada. Ao orquestrar essas vivências, o autor concebeu a obra como “uma crítica ao mundo que estamos oferecendo a eles”, expondo os mecanismos que levam esses cinco indivíduos a buscarem o pertencimento mútuo através da fuga planejada.

Como alternativa ao esvaziamento de vínculos na modernidade, o espaço físico e simbólico do utilitário roubado surge como o verdadeiro núcleo de cura e fortalecimento desses jovens. A convivência forçada transforma “A Van” em uma metáfora viva de acolhimento, intimidade e suporte recíproco, permitindo que o grupo resgate dimensões afetivas perdidas na pressa cotidiana do mundo contemporâneo. O deslocamento geográfico funciona, desse modo, como um recurso existencial extremo de busca por propósito em uma sociedade que costuma forçá-los a mascarar sentimentos legítimos. O autor argumenta que o livro funciona como “uma maneira de propor alternativas contrárias” ao isolamento afetivo que penaliza a juventude.

O psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Maduenho

A engenhosidade narrativa de Maduenho manifesta-se na incorporação de conceitos científicos e biológicos complexos, que servem de alegoria para os sentimentos dos protagonistas. Noções de osmose reversa, o crescimento da figueira branca e a mecânica das minhocas no ecossistema são integradas de modo natural ao enredo escolar e psicológico. O destaque inovador concentra-se na aplicação física do buraco de minhoca para estruturar a passagem do tempo e a repercussão do desaparecimento dos jovens na mídia, permitindo a coexistência de dois desfechos paralelos na obra. Essa estrutura literária diferenciada reflete a intenção do psicanalista de combater “a essa onda crescente de perda de sentido” por meio da arte.

O livro consolida-se como um tributo à potência transformadora da juventude e um apelo urgente à responsabilidade coletiva dos adultos na condução das novas gerações. Ao fundir sua experiência em teoria psicanalítica, Freud e Winnicott com a sensibilidade ficcional, o doutor pela USP entrega uma análise social indispensável para educadores e familiares. A obra não oferece fórmulas mágicas, mas valida a importância da escuta qualificada e do suporte comunitário para mitigar as dores do crescimento. Em última análise, Maduenho reafirma seu propósito de valorizar a capacidade de superação encontrada “entre os jovens” para lidar com as incongruências da atualidade, agindo como um farol contra o desespero.

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