Caso do “Cão Orelha” revela psicopatia e risco de crimes mais graves que podem originar na infância
O caso do cão Orelha, brutalmente agredido, volta a expor uma ferida profunda em nossa sociedade: o que leva alguém a sentir prazer diante do sofrimento de um ser indefeso? Mais que uma cena chocante, o episódio que ganhou as redes e gerou indignação coletiva, levanta uma questão psicológica e moral que não pode ser ignorada.
Para o psicólogo e escritor Alexander Bez, especialista em distúrbios emocionais, a crueldade contra animais é um dos sinais mais claros da psicopatia. E, segundo ele, não se trata de uma simples agressividade momentânea. “Não existe ato intencional de maldade contra um animal sem a presença de traços psicopáticos. Falamos de ausência de empatia, prazer no sofrimento alheio e desejo de controle”, explica.
Bez lembra que esses comportamentos são intencionais e conscientes: o agressor sabe o que faz, e sente satisfação nisso. Por isso, a psicopatia é considerada um transtorno grave e irreversível. Mais preocupante é que, muitas vezes, os primeiros sinais aparecem ainda na infância. “Sim, existem psicopatas infantis. A origem pode ser genética, ocorrer no parto ou se desenvolver em ambientes violentos. Mas, após instalada, não retrocede”, alerta.

A crueldade com animais, ressalta o especialista, costuma ser a primeira etapa de uma progressão perigosa. “A literatura psiquiátrica mostra que a violência contra animais frequentemente antecede crimes contra pessoas. Quando o sofrimento que ela causa já não satisfaz, o agressor procura estímulos mais intensos”, afirma. Casos documentados de assassinos e criminosos violentos mostram exatamente esse padrão: o abuso de animais como prelúdio da barbárie.

Outro ponto preocupante é a ação em grupo, fenômeno conhecido como “associação psicopática”. Nela, um líder assume o papel central, enquanto outros participam, ativa ou passivamente. Filmagens, incentivos e omissões denunciam o mesmo desvio emocional: ausência de empatia e tolerância à crueldade. E a omissão, adverte o psicólogo, nunca é neutra.
A escolha das vítimas, geralmente frágeis e indefesas, também revela muito. Animais dóceis e pessoas vulneráveis são alvos frequentes, pois permitem ao agressor experimentar o poder absoluto e o domínio sobre o outro. Por isso, Bez defende que a prevenção exige mais do que afeto: requer atenção aos sinais e responsabilidade coletiva. “Violência contra animais nunca deve ser relativizada. É um alerta grave, um risco real, à vida e à saúde mental da sociedade”, sublinha.
Formado em Psicologia com especialização em Ansiedade e Síndrome do Pânico pela Universidade da Califórnia e em Relacionamentos pela Universidade de Miami, Alexander Bez é autor de quase dez livros publicados no Brasil e no exterior. Entre eles, Inveja: o Inimigo Oculto e O que Era Doce Virou Amargo, considerado “a Bíblia dos Relacionamentos”. Para ele, escrever é mais que um exercício de reflexão, é uma forma de cuidado psicológico que alcança o leitor de maneira acessível e humana.
Casos como o do “Cão Orelha” são um espelho duro do que ainda precisamos curar enquanto sociedade. Não basta se comover: é preciso agir, denunciar, educar e compreender que quem faz mal a um animal demonstra algo muito mais perigoso, a falência da empatia.