Nascida e criada em Santos, litoral de São Paulo, a neurologista Paula Dieckmann teve seu primeiro contato com a medicina ainda na infância, seu pai era cirurgião pediátrico e a levava para Santa Casa de Santos, onde ele atendia, para assistir cirurgias. “Então, eu tive contato com medicina desde cedo, meio que a escolha já foi automática”.

Além da vivência com o pai, a convivência com muitos médicos foi determinante para ela escolher a carreira profissional. Mas foi após sofrer um acidente que ela teve o primeiro contato com a neurologia. “Com 14 anos eu sofri um acidente, teve um desmoronamento em Santos, eu fiquei soterrada, tive múltiplas fraturas, fiquei muito tempo internada. E aquilo me fez ter mais vontade ainda de ser médica. Porque eu tive mais contato ainda com o hospital, mais contato com médicos, com o quanto a gente pode melhoras a vida das pessoas. Ali foi grande virada, foi ali que eu tive o primeiro contato com a neurologia”.

Paula teve fratura na costela, fratura na coluna com edema medular e precisou usar colete por seis meses. “Então, depois disso eu fiquei muito tempo acompanhado com um ortopedista especializado em coluna. Mas eu comecei a estudar isso, porque na época eu falei ‘Meu Deus o que é isso? Por que eu tenho que ficar com um colete?’. Eu fiquei com um colete seis meses. Imagina, uma menina de 14 anos, querendo ir nas festas de 15 anos, mas com aquele colete, foi um período difícil, mas eu acho que eu consegui ressignificar como uma coisa que me fez crescer”.

Além da influência do pai e do episódio traumático que ela resinificou, outro fator que a fez escolher a neurologia foi ela sofrer desde pequena com fortes dores de cabeça. “Meu pai ser médico, eu sempre acompanhar a medicina, esse episódio em especial que também me fez ter muito contato com hospital, com médicos e eu sempre tenho dor de cabeça, eu tenho enxaqueca desde pequena. Quando eu entrei na faculdade, eu meio que já fui guinando para esse caminho na neurologia. Eu já tinha me interessado pela coluna, depois com a dor de cabeça, as coisas foram se encaixando”
Como era adiantada na escola e a medicina foi sempre uma certeza em sua vida, Paula entrou na faculdade com apenas 16 anos. “Eu fiz 17 anos no primeiro ano da faculdade. Então, eu acabei medicina com 23 anos. Super jovem, mas eu sempre curti muito estudar. Eu estudei muito durante a faculdade, fui super dedicada. E eu conheci meu marido, que é psiquiatra, na época do colégio e ele fez faculdade em São Paulo e eu fazia em Santos. Como a gente namorava a distância, eu tinha grande impulso porque eu queria estudar muito para passar na UNIFESP, na neurologia, porque a gente queria casar e ficar juntos aqui em São Paulo.”
A parceria com marido, Luiz Dieckmann, começou na época da faculdade, quando ainda eram namorados, eles estudavam juntos. “Meu marido é super estudioso, estudou muito. Imagina, ele com 17 anos passou na UNIFESP, na UNICAMP, na USP. Esse foi até um dos motivos por eu me apaixonar por ele, acho que foi a inteligência. E durante toda a faculdade a gente estudou muito. A gente sempre foi muito apaixonados e a gente queria muito ficar juntos. Meus pais eram super, pais mais rígidos, a gente não tinha muita liberdade. A gente queria muito casar, tanto que eu casei com 24 anos, eu casei super cedo. Eu estudei a faculdade inteira com meta de passar na melhor residência. E o Luiz sempre quis fazer psiquiatria, desde que ele entrou na faculdade. E aí eu pensei, ‘eu tenho enxaqueca, gosto de neurologia, por que eu não vou ser neurologista? Que é uma área que complementa a psiquiatria’. E foi assim que eu escolhi na neurologia, mais ou menos no quarto ano.
Hoje em dia a Paula atende ao lado do marido na Clínica Dieckmann, ela como neurologista e ele como psiquiatra. “Eu me dedico ao estudo de autismo em adultos. Essa área de interesse que está me encantando, o neurodesenvolvimento no adulto. Tanto o TDAH, que é o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, tanto quando Transtorno Espectro Autista (TEA). Os autistas de nível 1 de suporte, tem muitos por aí que não fizeram diagnóstico e acabaram que ficaram sofrendo a vida toda porque se achavam diferentes, não se encaixavam e agora está tendo muito mais diagnóstico. Quando a gente era pequeno não se falava direito de autismo, a gente projetava que autista era só aquela criança que ficava se balançando, se batendo, tinha déficit cognitivo e não é isso, é um espectro muito grande. Com disseminação da informação, com mais acesso à informação, as pessoas sabem, elas acabam levando até um profissional, o profissional geral acaba encaminhado para um neuropediatra.
Além de atender na Clínica Dieckmann, a neurologista faz parte do TEAMM que é um Centro Especializado em Transtorno do Espectro Autista (TEA), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). “Lá a gente atende e faz diagnóstico em adultos, pessoas que não tiveram diagnóstico na infância. E tem uma lista gigante hoje em dia de pacientes para serem atendidos. Depois do diagnóstico a gente tem alguns grupos, grupos terapêuticos, tanto para a melhora de habilidades sociais, quanto para introdução ao mercado de trabalho. Eu estou encantada por essa área. Agora vou começar em um novo ambulatório, ambulatório voluntário para TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) que tem muita relação com TEA (Transtorno do Espectro Autista), os dois estão aí nos transtornos de neurodesenvolvimento. Tendo a estudar bastante essa área.
Apesar de estudar e a atender muitos casos de TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), Paula revela quais são as maiores queixas de seus pacientes na clínica. “O que atendo assim mais é dor de cabeça e demência. Aí dentro da dor de cabeça tem a enxaqueca. E hoje tem muito diagnóstico de Doença de Alzheimer (DA) e muitas pessoas preocupadas com esse diagnóstico. Às vezes as pessoas começam a esquecer, aí vai jovem de 20 anos achando que está com Alzheimer, quando na verdade, muitas vezes é um Déficit de Atenção, a pessoa está sobrecarregada ou a pessoa está deprimida e ansiosa”.
Como a neurologista sofre com enxaqueca desde a infância, ela gosta de tratar esse tipo de caso, pois sente muita empatia pelos seus pacientes. “Eu tenho muita enxaqueca, não é pouca, é uma coisa que incapacita muito a minha vida. Eu estudo muito isso e tenho muita empatia por esse tipo de paciente. O enxaquecoso é muitas vezes visto como chato, você fica super estigmatizado, as pessoas parecem que não acreditam na incapacitação que você tem. Mas como eu tenho, eu tenho muita empatia por essas pessoas. Dá para melhorar muito a qualidade de vida dessas pessoas”.
E o objetivo de Paula para o futuro da Clínica Dieckmann é dar continuidade ao trabalho que realizam hoje que preza pela qualidade e pelo atendimento humanizado, que enxerga o paciente como uma pessoa e não como um número. “É continuar o que a gente está fazendo, a gente gosta muito do que a gente faz, a gente prioriza sempre que seja um atendimento humanizado, que a gente consiga dar atenção para os pacientes, até por isso que a gente atende paciente de hora em hora, não existe atendimento de 5 em 5 minutos. Acaba que a gente vira meio que família do paciente. Eu acho que isso que é a diferença, é o atendimento humanizado, é a empatia pelo paciente. E todos os profissionais que estão lá a gente confia muito, são todos profissionais muito capacitados e que tem esse mesmo pensamento que a gente”.