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Analice Nicolau
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A Fazenda: dar palmadas nos filhos gera consequências emocionais a longo prazo, afirma psicóloga

A especialista emocional Nanda Perim comenta a fala de Iran Malfitano no reality e reforça a importância de educar pelo diálogo e o porquê as palmadas devem ser evitadas

Analice Nicolau

20/10/2022 14h00

A especialista emocional Nanda Perim comenta a fala de Iran Malfitano no reality e reforça a importância de educar pelo diálogo e o porquê as palmadas devem ser evitadas

Educar uma criança pode ser um grande desafio. Os pais têm em mãos a missão de preparar um ser humano para a vida adulta e a convivência em sociedade. Porém, alguns métodos podem causar prejuízos a longo prazo, como, por exemplo, as palmadas. Recentemente, o assunto voltou a ser debatido após o ator Iran Malfitano, que participa do reality show A Fazenda, dizer dentro do programa que bate em sua filha.

De acordo com a psicóloga Nanda Perim, esse ato, mesmo que seja uma palmada leve, pode gerar consequências que seguem para a fase adulta. Quando os pais optam por bater em seus filhos, fazem os pequenos entenderem que merecem apanhar. Isso pode gerar insegurança, afetar a autoestima e desencadear medos. Há também aqueles que se tornam agressivos, ou muito reprimidos.

Nanda, conhecida nas redes sociais como PsiMama, reforça que a violência naturalizada pode virar algo familiar. E assim, no futuro, a pessoa que apanhou pode é capaz tornar isso um padrão de relacionamentos, já que essa foi a sua referência na infância.

“O nosso cérebro é uma máquina de detectar perigos, e sempre que ele percebe algum, entra no modo sobrevivência. Esse modo de sobrevivência vai ter dois mecanismos principais: fuga e luta. Então, a criança pode se tornar uma pessoa agressiva, ou alguém que se esquiva, foge, se reprime, se cala, que tem medo de todo mundo. Essas consequências, às vezes, a pessoa sequer percebe que tem relação com o fato de ela ter tido um ambiente mais violento, aquela violência mais invisível, aceita pela nossa sociedade. A gente não está falando de uma criança que é espancada. A gente está falando de uma criança que leva palmada leve”, explicou.

De acordo com a psicóloga, existe uma diferença entre educar e bater. A criança precisa aprender habilidades de vida, e todo esse aprendizado vai depender do desenvolvimento dela. Nanda reforça que, quando a criança apanha, ela não é educada, e aprende a ter medo de errar.

“Em momento nenhum é ensinado para ela como fazer, ou dito que errar faz parte do aprendizado. É importante ensinar a criança a analisar, porque isso a faz entender quais estratégias usar da próxima vez, os conhecimentos, os aprendizados, as referências e os valores. Essa criança precisa aprender para crescer e se desenvolver bem na sociedade. Assim, ela se tornará uma pessoa que entende do coletivo, que respeita o outro e tem empatia. Mas, como ela vai aprender a empatia, se a pessoa que mais ama, que deveria cuidar dela, é quem a machuca? Então, bater não educa; bater ensina apenas a ter medo de errar”, comentou.

A psicóloga defende que a educação deve ser democrática. Nesse caso, pais e filhos devem conversar e resolver juntos. Cabe ao adulto ajudar a criança a entender as coisas que ela ainda não sabe, mas tudo dentro da compreensão e limitação dos menores. Nanda comenta ainda que existe uma cultura que trata a criança como propriedade dos pais. Essa visão, de acordo com a especialista, tem uma construção histórica. O ideal é tirar essa criança do lugar de propriedade e humanizar essa educação, ao passo de entender que ela também tem desejos e opiniões, como outro ser humano.

“Os pais recorrem às palmadas por ser uma questão cultural. As culturas são todas muito diferentes e diversas, tirando pela violência contra a infância, que é comum na grande maioria delas. Eu percebo que é uma naturalização mesmo. Acredita-se que a infância tem que ser domada. Santo Agostinho defendeu muito isso; o Platão [o filósofo] defendeu que as crianças precisam apanhar, serem domadas, se não crescem demais e se tornam tiranas. Essa visão faz com que os adultos sintam que eles estão numa constante guerra com a criança; que estão nessa luta, e tentando ganhar, e que se eles não baterem, a criança vai bater neles. A cultura defende isso. As pessoas acreditam e acabam querendo cortar o mal pela raiz, batendo na criança muito cedo”, concluiu.

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