Por João Luiz da Fonseca*
A expressão “Box, box” significa uma coisa na Fórmula 1: um pit stop! É um dos momentos estratégicos mais importantes de um GP e pode ter um impacto enorme nos resultados da corrida.
São pouquíssimos segundos em que uma série de fatores precisa funcionar para que o piloto não saia prejudicado.
Muitas paradas acontecem em 2,5 segundos ou menos. Durante esse tempo, o carro precisa atingir suas marcas e ser levantado nos macacos para que os mecânicos possam remover e recolocar quatro porcas de roda, trocar quatro pneus, e ainda recolocar o carro de volta ao chão para saída do piloto do box.
É um turbilhão de ações, barulho e decisões rápidas em fração de segundo. Tudo para colocar o carro de volta o mais rápido possível dentro da execução da estratégia da equipe.
Acertar tudo num pit stop não é tarefa fácil. Embora a velocidade seja importante, a consistência do pessoal de pista ao longo da temporada é vital dentro do campeonato.
Em mais de 70 anos da categoria, não faltaram ocasiões em que algo deu muito errado. De incêndios a batidas, passando por pneus mal trocados, foram muitos os pit stop desastrosos que ficaram na história.
No GP da Áustria de 2020, Kimi Raikkonen teve que abandonar de forma dramática quando a roda saiu de seu carro durante uma reinicialização do safety car.
Outro incidente envolvendo o finlandês ocorreu durante o GP do Bahrein de 2018. Um erro durante sua parada o sinalizou com a luz verde, apesar de haver um mecânico parado na frente de sua roda traseira esquerda. Raikkonen disparou e atropelou o mecânico, que teve a perna quebrada no processo.
Também em 2018, os dois carros da Haas se retiraram do Grande Prêmio da Austrália após problemas nos boxes.
Em junho do ano passado, George Russell, quarto no GP da Espanha, não gostou da estratégia de paradas que o deixou atrás de Lewis Hamilton. O piloto inglês teve um pit stop problemático, no qual a roda traseira direita não saiu a tempo, o que lhe custou tempo e posições.
Os exemplos se multiplicam e este ano a Fórmula 1 introduziu mudanças nos procedimentos de troca de pneus com o objetivo de aumentar a imprevisibilidade e o número de ultrapassagens, especialmente em circuitos como Mônaco, onde duas paradas passaram a ser obrigatórias.
A principal mudança é a exigência do uso de três jogos de pneus com dois compostos diferentes durante a corrida, além do composto com que o piloto larga, o que praticamente obriga duas paradas nos boxes.
“Para garantir a consistência em nossos pit stops e para permanecermos afiados, os treinos de paradas acontecem durante toda a temporada, tanto na fábrica entre as corridas, quanto durante o próprio fim de semana de prova”, informa a Mercedes-AMG Petronas.
Segundo a equipe, cerca de 60 treinamentos de pit stops são realizados durante um fim de semana típico de Grande Prêmio. Quinta-feira é um dia importante para isso, com 20 pit stops geralmente realizados. “Durante essa sessão, a equipe de box troca de funções para que todos possam ser treinados nas diferentes atividades. Em seguida, há outra sessão de cerca de 15 paradas na sexta-feira de manhã e mais 20 também na manhã de sábado, além de várias outras na manhã de domingo.
“Algumas das situações mais incomuns de pit stop, como troca do nariz do carro, também são praticadas”, informa a escuderia.
E quanto às pessoas envolvidas, fazer uma parada perfeita exige que todos trabalhem em harmonia.
“É como uma dança brilhantemente coreografada e ensaiada repetidas vezes. Na preparação para uma corrida, as equipes estão extremamente concentradas, pois os riscos são altos”, explica o diretor de engenharia de pista, Andrew Shovlin. Ele trabalha na equipe desde 2000, quando a Mercedes voltou à categoria.
Como em uma grande orquestra que precisa estar afinada, até 22 pessoas estão envolvidas em um pit stop de F1, das quais 12 ficam concentradas no processo de troca de pneus. Há três pessoas em cada pneu: uma afrouxa e aperta a porca da roda, uma remove o pneu antigo e a outra coloca o pneu novo.
Para que isso aconteça, o carro precisa ser levantado pelos macacos dianteiro e traseiro, operados por um membro da equipe de box. Há outras duas pessoas ao lado com macacos dianteiros e traseiros reservas, para o caso de algum problema.
Há ainda mais duas pessoas posicionadas no meio do carro para mantê-lo estável enquanto é equilibrado nos macacos, e elas também limpam radiadores e espelhos, se necessário.
Mais duas pessoas ficam no ajuste da asa dianteira.
Por fim, um membro da equipe supervisiona o pit stop e o tráfego no pit lane, dando a ordem final para o piloto poder ser liberado, através de sinalização por luzes. Antigamente essa ação se dava através de uma placa segurada por um mecânico e popularmente conhecida como pirulito.
Embora o “pirulito” físico tenha sido substituído por um sistema de semáforo eletrônico, o termo ainda é usado para se referir à função de sinalizar a saída do piloto nos boxes.
Em 2019, a Red Bull havia estabelecido o recorde de pit stop mais rápido, trocando os pneus de Max Verstappen em apenas 1,82 segundo no GP do Brasil.
No entanto, no GP do Catar de 2023, disputado em Losail, a McLaren realizou uma parada ainda mais impressionante com Lando Norris. Toda a ação, do início ao fim, durou apenas um segundo e oito décimos (1s8). A marca foi condecorada pelo Guinness Book (o Livro dos Recordes) como o pit stop mais rápido da história.