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Alta Velocidade
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Batizado por Kimi, inspirado por Senna

Batizado em homenagem a Kimi Räikkönen e tendo Ayrton Senna como ídolo, Andrea Kimi Antonelli transformou o nome herdado do pai em uma marca própria ao conquistar seu primeiro Grand Slam na Fórmula 1 e ampliar para cinco sua sequência de vitórias

João Luiz da Fonseca

08/06/2026 14h37

Foto: Gabriel Bouys/AFP

Foto: Gabriel Bouys/AFP

A Fórmula 1 acompanha Kimi Antonelli desde seus primeiros dias de vida. A frase pode parecer exagerada, mas não é. Muito antes de se tornar a grande sensação e o principal nome da nova geração da categoria, o italiano já carregava, em uma alusão direta, a F1 na própria certidão de nascimento.

Seu nome do meio é a homenagem de um pai italiano e ferrarista ao último campeão mundial pela Ferrari: Kimi Räikkönen, vencedor do título de 2007 pela equipe de Maranello.

Quase duas décadas depois, o garoto que nasceu carregando uma referência da Fórmula 1 já não vive à sombra dela. Ao conquistar sua quinta vitória consecutiva no GP de Mônaco — acompanhada de um histórico Grand Slam, com pole position, liderança em todas as voltas, volta mais rápida e vitória — Antonelli mostrou que o nome herdado virou apenas um detalhe. Agora, é ele quem inspira comparações. Mais do que ampliar sua sequência vitoriosa, o triunfo nas ruas do Principado representou uma espécie de chancela. No automobilismo, existem vitórias e existem validações. Mônaco costuma pertencer à segunda categoria.

O circuito mais emblemático do calendário exige precisão absoluta, leitura estratégica, controle emocional e uma capacidade rara de sobreviver à pressão sem cometer erros. É uma pista que expõe fragilidades e consagra talentos. Antonelli passou no teste com louvor.

O fim de semana já havia começado de forma promissora no sábado, quando conquistou a pole position com uma volta decisiva e se tornou o primeiro italiano desde Jarno Trulli, em 2004, a largar na frente nas ruas do Principado. No domingo, transformou a posição privilegiada em uma exibição dominante.

Cada capítulo dessa atuação foi acompanhado de perto pelo fotógrafo francês Antoine Lapeyre, que registrou com exclusividade para o Jornal de Brasília todos os momentos do piloto ao longo das atividades em Mônaco, ajudando a eternizar um dos fins de semana mais marcantes da jovem carreira do italiano.

Entre Kimi e Senna

Há ainda um simbolismo adicional nessa história. Embora tenha recebido o nome em homenagem a Räikkönen, Antonelli sempre declarou que seu grande ídolo é Ayrton Senna. Não por acaso, escolheu o número 12 para estampar seu carro. E foi justamente em Mônaco — palco onde Senna construiu parte de sua lenda e segue reverenciado como o “Rei” — que o jovem italiano viveu o momento mais marcante de sua ainda curta, porém luminosa, trajetória na Fórmula 1.

IMBATÍVEL

Depois de um início de atividades dominado pela Ferrari nos treinos livres, Antonelli interrompeu a hegemonia da equipe italiana na classificação ao conquistar sua quarta pole position em seis corridas na temporada. No dia seguinte, transformou a vantagem inicial em uma vitória incontestável.

O desempenho foi ainda mais significativo porque muitos acreditavam que as características de Mônaco — curvas lentas, baixa dependência de potência e pouca degradação dos pneus — poderiam reduzir a vantagem da Mercedes sobre a Ferrari. Mas Antonelli ignorou todas as projeções.

Naquele momento, o italiano já acumulava quatro vitórias consecutivas e liderava o campeonato. Mas Mônaco acrescentou uma nova camada de prestígio à campanha. Os números ajudam a explicar por quê.

Ainda em sua temporada de estreia, Antonelli tornou-se o piloto mais jovem da história a liderar uma corrida de Fórmula 1 e também o mais jovem a registrar a volta mais rápida de um Grande Prêmio, superando marcas anteriormente pertencentes a Max Verstappen. O salto definitivo, porém, ocorreu na atual temporada.

No Grande Prêmio da China, aos 19 anos, 6 meses e 17 dias, conquistou a pole position e tornou-se o piloto mais jovem da história a largar na frente em uma corrida de Fórmula 1, quebrando um recorde que pertencia a Sebastian Vettel desde 2008.

Em um esporte acostumado a revelar talentos precoces, a palavra “fenômeno” costuma ser usada com cautela. No caso de Antonelli, ela encontra respaldo nos fatos. Recordista de precocidade, vencedor de corridas, líder do campeonato e protagonista de atuações que muitos pilotos levam anos para alcançar, o italiano já ocupa um espaço reservado a poucos.

Porém, se dentro do carro ele coleciona recordes e atuações dignas de veterano, fora dele ainda existe uma curiosidade não resolvida. Apesar de carregar o nome de Kimi Räikkönen desde o nascimento, Antonelli nunca conseguiu ter uma conversa com o finlandês.

Questionado sobre isso durante uma entrevista coletiva no GP do Bahrein do ano passado, revelou uma experiência que explica perfeitamente a fama do ex-piloto.

“A primeira vez que o encontrei, entendi por que o chamam de Iceman. Eu me aproximei muito animado, mas ele não teve nenhuma reação. Apesar disso, acho que é um cara legal. Nunca tive a chance de ter uma conversa adequada com ele, mas adoraria. Acho que seria repleta de ótimos conselhos sobre corridas”, destacou.

Räikkönen construiu sua imagem na Fórmula 1 por meio de respostas curtas, sinceridade quase brutal e uma impressionante resistência aos holofotes. Foi assim que nasceu o apelido de “Homem de Gelo”, uma marca que atravessou toda a sua carreira. A ironia é que os dois Kimis parecem feitos de “matérias-primas” opostas.

Enquanto Räikkönen se tornou símbolo da frieza e do silêncio, Antonelli conquistou o paddock pela simpatia, educação e humildade. Mas existe algo que ambos compartilham: uma velocidade capaz de transformar um nome em história. E, neste momento, a história mais fascinante da Fórmula 1 pertence ao jovem italiano.

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